GRANDES ENTREVISTAS

por

 

ENTREVISTADA

Donzília Ribeiro Martins

 

 

 

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro

 

Durante a viagem de “Expresso” (Ónibus) Marinha Grande / Porto, fui lendo alguns apontamentos sobre a terra onde a Donzília Martins mora: “ Esta região já era densamente povoada antes da colonização romana, como o atesta o castro do Muro, em Vandoma, Baltar. Muitas das atuais freguesias faziam parte das Inquirições mandadas realizar por D. Afonso III em 1258, com a finalidade de fazer um levantamento de toda a região para verificar ou determinar os impostos dos proprietários das casas e terrenos. A cidade atual corresponde à metade meridional do julgado de Aguiar do Sousa, que se estendia do Vizela às proximidades do Douro, limitando-se esta metade pelo rio Sousa. Perto desta povoação existia um castelo, no cimo do monte, chamado vulgarmente de Montanha do Muro. Um documento de 1071 situa ali a vila de Parada, a atual freguesia de S. Martinho de Parada. Da ocupação germânica desta região, restam certos nomes germânicos, como Astromil, Mouriz, Baltar e Cete. O primeiro foral foi dirigido aos «homens de Aguiar e Paroquianos da Igreja de S. Romão» e aparece já referido nas Inquirições referidas acima. D. João I concedeu foral a Aguiar de Sousa em 1411, confirmado por D. Manuel em 1513. A partir do desmembramento do concelho e Julgado de Aguiar de Sousa formou-se o concelho de Paredes em 6 de Novembro de 1836, como resultado do reordenamento que ocorreu com a entrada da Constituição de 1820. Aguiar de Sousa ficou uma das suas freguesias. Um alvará régio de D. Maria II, em 7 de Fevereiro de 1844, eleva Paredes à categoria de vila.
Em 16 de Junho de 1875 passou a sede de Comarca, sendo este dia o feriado municipal. O concelho teve um rápido desenvolvimento dos sectores secundário e terciário, que ocupam cerca de 90% da população ativa. Situa-se aqui uma das maiores zonas industriais do mobiliário em Portugal. 
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"Distritos e Concelhos de Portugal (Distrito do Porto)” - Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

http://www.carlosleiteribeiro.caestamosnos.org/Distritos_Portugueses/Porto.html 

 

Quando o “Expresso” chegou à Ferroviária da cidade do Porto, já a minha simpática entrevistada me esperava, segundo me disse à largos minutos.

Donzília: - Vamos até à cidade de Paredes? O Carlos conhece?

Carlos: - Conheço mas já há anos que não vou lá. Mas se não se importa, fale-me da terra onde mora – está bem?

Donzília: -  Moro há cerca de 40 anos em Paredes, distrito do Porto. É uma terra muito bonita situada no vale do Sousa. É das cidades  com mais jovens (dizem) no País. A maior parte dos seus habitantes dedicam-se à  indústria de mobiliário, ostentando o lema de Capital do Móvel. Fica a cerca de um quarto de hora da cidade do Porto, pela A4. Integra-se numa das regiões mais belas e prósperas de Portugal. Tem 24 freguesias, distribuídas por cerca de 156 km2 e cerca de 80 mil habitantes.
Paredes faz parte da rota do Românico sendo o principal destaque para o Mosteiro de Cete. Monumento nacional. Além desse Monumento tem lindas igrejas, casas solarengas testemunhando um passado de ricas tradições culturais etnográficas, folclóricas e gastronómicas. Tem uma forca numa das freguesias; tem a linda serra de Baltar e outras maravilhas que os turistas adoram ver.
Mas sendo esta terra  que me acolheu, não queria deixar esquecida a minha terra natal, Murça de Trás-os-Montes, distrito de Vila Real, que convido para uma visita. A terra da Porca...

Durante a curta viagem, começámos a entrevista.

Carlos: - Como é que a Donzília se auto-define?

Donzília: - Lutadora, pouco aventureira, Tudo vem do trabalho e da força do querer. Do  nunca deixar de sonhar.

Carlos: - Qual a caraterística que mais aprecia em si, e, nos outros?

Donzília: - Em mim a força de vontade, a tenacidade, o erguer quando caio, o amor ao trabalho, a economia, sou muito poupada. Nos outros aprecio a transparência da alma, o olhar para eles e saber quem são pelo sorriso, pela dádiva, pela abertura e franqueza, pela simplicidade, a caridade...

Carlos: - Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje?

Donzília: - Foram tantos os desafios na minha vida... O fazer uma licenciatura sem bases de apoio fortes; o enfrentar os medos... O tentar de novo os filhos desejados quando a perda me tinha partido o coração; os erguer depois das quedas... e... e... A vida é um constante desafio.

Carlos: - Como vai de amores?

Donzília: - Bem. Amo as pessoas, tenho muitos amores na minha vida. O meu marido, os meus filhos e netos, são os meus maiores amores. Mas também gosto de amar as pessoas.

Carlos: - Que género de filme daria sua vida?

Donzília: - Sei lá. Ela tem de tudo. Não é drama, não é comédia, nem farsa, nem telenovela, nem tragédia. Ela tem de tudo porque as vidas são um eterno caminhar para a felicidade. Talvez um filme didático onde sempre se aprende e ensina alguma coisa...

Tínhamos acabado de dar uma volta pela linda cidade de Paredes, quando a nossa entrevistada me disse: “Carlos, quero fazer-lhe uma surpresa. Conhece Murça, a minha terra natal e a sua famosa Porca?

Carlos: - Por acaso conheço (até a Porca!). “A Porca de Murça é uma escultura (monumento totémico) de granito feita numa só pedra com 1,70 m de comprimento, 58 cm de largura e cerca de 1 m de altura. A representação realista dos testículos não permite dúvidas acerca do carácter masculino do animal, mau grado a designação de "porca" que, erradamente, manteve até hoje. No dorso, à semelhança doutros exemplares deste tipo, ostenta quatro covinhas de pequenas dimensões e pouco profundas. É uma escultura muito antiga, mas não se sabe do período em que foi construída (talvez no período III antes de Cristo aos princípios da dominação romana).

 

Sobre Murça: diz-se que nas lutas políticas do século passado, se ganhava o Partido Regenerador, pintavam-na de verde; se venciam os progressistas, pintavam-na de vermelho, e com a República foi pintada com ambas as cores.
Murça em 1900: “Vila e cabeça de concelho do distrito de Vila Real (província de Trás-os-Montes), com 1.507 habitantes. O concelho tem 10 freguesias e 7.533 habitantes”. Zona de Murça no agreste Trás-os-Montes Em 1224 D. Sancho ll “O Capelo” concedeu-lhe foral, renovado por D. Afonso lll “O Bolonhês”, e, mais tarde por seu filho, D. Dinis “O Lavrador”, esposo de Isabel de Aragão (Rainha Santa Isabel).
Com D. Manuel l “O Venturoso”, Murça começa a reger-se por foral novo. Na praça principal conserva-se, sobre um pedestral, uma escultura zoomórfica, certamente relacionada com um culto remoto dos povos pré-romanos e representando uma porca (a célebre Porca de Murça – que dá nome a um conhecido e apreciado vinho da região). Ainda neste século se chamava Murça de Panóias esta singela vila transmontana, necessariamente povoada pelos romanos, dominada pelos árabes e a que D. Sancho ll deu foral em 1224. O bem conservado troço da via imperial (romana), que segue de Tinhela até ao Alto do Pópulo, e a ponte romana permanecem no vale que procede a vila.

"Distritos e Concelhos de Portugal (Vila Real). Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro.

http://www.carlosleiteribeiro.caestamosnos.org/Distritos_Portugueses/Vila_Real.html

Durante a viagem Paredes / Murça, continuámos a entrevista.

Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?

Donzília: - A minha avó. Foi a pessoa que mais marcou a minha vida. A ele devo tudo o que sou. A sua imagem é uma constante no meu caminho. Vive sempre comigo. Pega na minha mão. Há pessoas que são eternas. Com ela a minha infância.

Carlos: - De que mais se orgulha?

Donzília: - Do meu caminho feito. Do "prédio" construído, do sonho possível realizado, da conquista de ter chegado aqui, da minha luta sem esmorecer, da minha força de vontade...

Carlos: - Qual a personagem que mais admira?

Donzília: - O santo padre João Paulo II. Pela sua humildade e  espirito de santidade, pelo seu exemplo de vida e trabalho, pelo erguer sempre que o tombavam, pelo exemplo de oração, pelo perdão, pelo seu grande amor que distribuía no olhar e, sobretudo, porque tive a graça de olhar  bem perto de mim, os seus olhos de SANTO.

Carlos: - Qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade?

Donzília: - Beleza, uma criança. o olhar da mãe quando o filho nasce, as mãos dos meninos, a transparência dum olhar,  o sorriso e as flores. Fealdade, o rosto de quem não ama. Os olhos dos que odeiam. os seus olhos são lume queimando, trave negra que magoa quem olha...

Carlos: - Que vício gostaria de não ter?

Donzília: - Penso que não tenho vícios. Se mos apontam, tal como os defeitos, procuro corrigir.

Carlos: - O dia começa bem para a Donzília, se ...?

Donzília: - Se produzir;  se ler um poema lindo,  uma frase que me eleve e enleve e me faça crescer, se aprender; se houver sol, luz, muita luz...

Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?

Donzília: -  Péssima. A queda da folha dá-me a sensação da perda, da queda, de algo que morre, que se desprende; da chegada do frio, do inverno que enregela a alma; dos dias cinzentos e escuros e mais pequenos. Cada inverno me envelhece. O que vale é que  sempre chega depois a primavera.

Carlos: - O arrependimento mata?

Donzília: - Não. Redime. Salva. Edifica! Purifica a alma.

Carlos: - Sua melhor qualidade?

Donzília: - A transparência, a simplicidade a humildade o gostar e acreditar sempre nos amigos e nunca acreditar que eles me possam trair.

Carlos: - Seu maior defeito?

Donzília: - A indecisão. Sou balança e peso, peso, peso os prós e os contra e é sempre difícil decidir porque nos 2 lados da balança há pesos quase iguais.

Carlos: - Seus passatempos preferidos?

Donzília: - Ler, ler, ler. Escrever e viajar.

Carlos: - As piadas às louras são injustas?

Donzília: - A cor do cabelo nada tem a ver com a inteligência das pessoas. O seu caracter e personalidade é que são importantes. As piadas ás loiras também podem ser às morenas.

Carlos: - O filme comercial que mais gostou?

Donzília: - “E Tudo o Vento Levou”; e “Música no Coração”. Mas o que mais me marcou quando tinha 7 ou 8 anos foi: "O Céu sobre Pantano" que relatava a vida de santa Maria Goretti.

Carlos: - O que é para você o termo Esoterismo?

Donzília: - Tive de ir ver ao dicionário. E lá diz: "Doutrina secreta que alguns filósofos da antiguidade apenas comunicavam aos iniciados"

Carlos: - Acredita na reencarnação?

Donzília: - Não sei, Acho que não. Mas acredito na eternidade.

Carlos: - Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo”?

Donzília: - Acho que não. mas creio que existe algo misterioso que ás vezes não compreendemos. Há qualquer coisa que se sente no ar mas... Que será? A nossa força anímica? Sei lá.

Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade?

Donzília: - talvez. Mas creio que o  inverso é mais certo, ou seja a realidade é que é um sonho do imaginário, tal qual o imaginam as crianças. Somos geralmente aquilo que queremos ser. Confuso?

Carlos: - Acredita em histórias fantásticas?

Donzília: - Acredito. O imaginário pode levar-nos onde quer o pensamento. Há coisas que devemos crer sem ver e não ser como S. Tomé.

Carlos: - Quando era criança ...?

Donzília: - Era muito sonhadora. Sonhava com tudo o que sou hoje e fui, consegui... Num metro quadrado, construía uma casinha e metia lá a minha família numerosa, toda, todinha

Carlos: - Que livro anda a ler?

Donzília: - Neste momento "Paladares na Literatura" da minha amiga Dr.ª Manuela Bentes. Acabei de ler "Tradutor de Chuvas " de Mia Couto; Mar Morto de Jorge Amado; Citações e pensamentos de Fernando Pessoa e outro igual de Eça de Queirós. Gosto muito de ler.

Carlos: - A cultura será uma botija de oxigénio?

Donzília: - É. sem dúvida quem não tem cultura estiola e morre. Não é ninguém. É escravo de si mesmo e dos outros. Anda no mundo por ver andar os outros. A cultura é a nossa maior riqueza a botija de oxigénio imprescindível á vida.

Carlos: - Autores e livros preferidos?

Donzília: - Tenho muitos, mas... De Poetas: Florbela Espanca, Camões, Bocage, Antero, Fernando Pessoa e Glória Marreiros; de Clássicos: Eça,  Miguel Torga, Tudo o que escreveu em especial Poesia Completa que é o meu livro de mesa-de-cabeceira, Mia Couto, mais português que moçambicano etc. etc...

Carlos: - Vamos falar sobre sua obra Literária?

Donzília: - Já editei nove livros: Comecei com poesia, 3 livros. Depois um livro de contos; outro de investigação; seguiram-se 3 infanto-juvenis e este último de crónicas/ conto  quase todo dedicado à Póvoa de Varzim onde costumo passar as férias de Verão porque adoro o mar. Há mais um infanto-juvenil na forja.

Carlos: - E falando de Música e Autores preferidos?

Donzília: - Beethoven, France Liszt, Bach, Strauss e as suas valsas, e... Melodias de sempre da musica romântica anos sessenta...

Já perto novamente de Paredes, a simpática entrevistada, virou-se para mim e disse-me: “ Carlos, tenho mais uma surpresa para si. Encomendei ontem um Cozido à Portuguesa e uma garrafa de vinho Favaios, à temperatura de 19º C. Ficou contente? Já estamos atrasados cerca de uma hora…

Fiquei deveras contente, pois é dos meus pratos favoritos, assim como o vinho Favaios. Na entrada do restaurante “Flor da Cidade”, fiz-lhe a última pergunta.

Carlos: - Para a Donzília, Deus Existe?

Donzília: - Sim. SIM  com toda a certeza. Sinto-O em cada dia da minha vida. Se não existisse nada faria sentido. Até na beleza das coisas se sente Deus, O DIVINO. Na ordem do Universo na força e fé que sobe no peito...

E assim, falámos de:

 

 

Donzília Ribeiro Martins

Nascida a 25 de Setembro de 1942

Professora de Português e História (aposentada)

 

Abraço

 

Num vale de sombras, meus pés deslizam procurando os teus.
O roçar da pele que sobe em ondas pelas veias ferventes
Traz paz à minha alma, alivia a dor, esquecido o tempo.
 
Neste enlace, sem nos olharmos, ó céus…
Entra em mim o céu azul dos olhos teus.
 
Nos encaixes dos corpos desenhados a preceito
Não há espaços livres, nem curvas bamboleando ao vento;
Há uma dança de ventre parada no peito.
 
Como um rio, vai deslizando suave e sereno o amor
Que a paixão deixou.
Não há desejos infinitos, nem sequer um grito em vão!
Tudo corre nos olhares cerrados, no suor dos poros encharcados:
O abraço, a pele, o cheiro forte vai descendo ao coração.
 
Nem é preciso mais.
Basta-me a pele, o toque, o olhar que no vazio sinto,
A mão parada, o odor da noite apagada, a tela que pinto
Com todas as cores na escuridão da noite.
 
É assim que adormeço feliz no leito de alvos lençóis:
Sem cio, sem lasciva dança, sem beijos trocados,
Sem palavras amargas, sem olhares de tempo cansados…
Apenas na doçura calma da pele, o abraço de nós dois.
 
8/10/011 Donzília Martins

 

 

 

“Acreditar”

 
Acredito! Sempre acredito nos amigos reais!
Ainda que me traiam, sempre são leais.
Um amigo verdadeiro tem que ser igual a si. Assim
O conhecemos. Como quero que me conheçam a mim.
 
Nada de falsidade, mentiras, desilusão!
O amigo inteiro é sempre sincero em toda a ocasião.
Mesmo que chova dor, lágrima, ainda que doa o peito,
O bom amigo tem sempre o santo dom de aceitar o nosso jeito.
 
Um amigo vê sempre as duas coisas: Os defeitos e as qualidades
Fala olho no olho, ainda que sangrem algumas verdades,
Não mente, não finge, não cala, não sorri com medo
É isso que o distingue do outro! É esse o seu segredo.
 
Os amigos verdadeiros são como quando se tem o mercúrio na mão
Quanto mais o apertamos, mais eles nos fogem do coração.
É preciso dar-lhes asas como aos pássaros, para voar
Aceitá-los como são, apanhar-lhes as lágrimas, faze-los cantar.
 
É sempre rico, maior e mais feliz, amando mais, quem tem um amigo!
É por isso que nunca engano! Sou sempre eu, igual com eles e comigo.
Nunca partem para longe. Estão sempre no meu cais.
Após o inverno, regressam com a primavera para alindarem os meus beirais.
 
Donzília Martins 7/10/011


 


Formato de entrevista de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

 

LIVRO de VISITAS
 

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