Sobre
Murça: diz-se que nas lutas
políticas do século passado, se
ganhava o Partido Regenerador,
pintavam-na de verde; se venciam
os progressistas, pintavam-na de
vermelho, e com a República foi
pintada com ambas as cores.
Murça em 1900: “Vila e cabeça de
concelho do distrito de Vila
Real (província de
Trás-os-Montes), com 1.507
habitantes. O concelho tem 10
freguesias e 7.533 habitantes”.
Zona de Murça no agreste
Trás-os-Montes Em 1224 D. Sancho
ll “O Capelo” concedeu-lhe
foral, renovado por D. Afonso
lll “O Bolonhês”, e, mais tarde
por seu filho, D. Dinis “O
Lavrador”, esposo de Isabel de
Aragão (Rainha Santa Isabel).
Com D. Manuel l “O Venturoso”,
Murça começa a reger-se por
foral novo. Na praça principal
conserva-se, sobre um pedestral,
uma escultura zoomórfica,
certamente relacionada com um
culto remoto dos povos
pré-romanos e representando uma
porca (a célebre Porca de Murça
– que dá nome a um conhecido e
apreciado vinho da região).
Ainda neste século se chamava
Murça de Panóias esta singela
vila transmontana,
necessariamente povoada pelos
romanos, dominada pelos árabes e
a que D. Sancho ll deu foral em
1224. O bem conservado troço da
via imperial (romana), que segue
de Tinhela até ao Alto do Pópulo,
e a ponte romana permanecem no
vale que procede a vila.
"Distritos e Concelhos
de Portugal (Vila Real).
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro.
http://www.carlosleiteribeiro.caestamosnos.org/Distritos_Portugueses/Vila_Real.html
Durante a viagem Paredes
/ Murça, continuámos a
entrevista.
Carlos: - Uma imagem do
passado que não quer esquecer no
futuro?
Donzília: - A minha avó.
Foi a pessoa que mais marcou a
minha vida. A ele devo tudo o
que sou. A sua imagem é uma
constante no meu caminho. Vive
sempre comigo. Pega na minha
mão. Há pessoas que são eternas.
Com ela a minha infância.
Carlos: - De que mais se
orgulha?
Donzília: - Do meu
caminho feito. Do "prédio"
construído, do sonho possível
realizado, da conquista de ter
chegado aqui, da minha luta sem
esmorecer, da minha força de
vontade...
Carlos: - Qual a
personagem que mais admira?
Donzília: - O santo
padre João Paulo II. Pela sua
humildade e espirito de
santidade, pelo seu exemplo de
vida e trabalho, pelo erguer
sempre que o tombavam, pelo
exemplo de oração, pelo perdão,
pelo seu grande amor que
distribuía no olhar e,
sobretudo, porque tive a graça
de olhar bem perto de mim, os
seus olhos de SANTO.
Carlos: - Qual o cúmulo
da beleza, e, da fealdade?
Donzília: - Beleza, uma
criança. o olhar da mãe quando o
filho nasce, as mãos dos
meninos, a transparência dum
olhar, o sorriso e as flores.
Fealdade, o rosto de quem não
ama. Os olhos dos que odeiam. os
seus olhos são lume queimando,
trave negra que magoa quem
olha...
Carlos: - Que vício
gostaria de não ter?
Donzília: - Penso que
não tenho vícios. Se mos
apontam, tal como os defeitos,
procuro corrigir.
Carlos: - O dia começa
bem para a Donzília, se ...?
Donzília: - Se
produzir; se ler um poema
lindo, uma frase que me eleve e
enleve e me faça crescer, se
aprender; se houver sol, luz,
muita luz...
Carlos: - Que influência
tem em si a queda da folha e a
chegada do frio?
Donzília: - Péssima. A
queda da folha dá-me a sensação
da perda, da queda, de algo que
morre, que se desprende; da
chegada do frio, do inverno que
enregela a alma; dos dias
cinzentos e escuros e mais
pequenos. Cada inverno me
envelhece. O que vale é que
sempre chega depois a primavera.
Carlos: - O
arrependimento mata?
Donzília: - Não. Redime.
Salva. Edifica! Purifica a alma.
Carlos: - Sua melhor
qualidade?
Donzília: - A
transparência, a simplicidade a
humildade o gostar e acreditar
sempre nos amigos e nunca
acreditar que eles me possam
trair.
Carlos: - Seu maior
defeito?
Donzília: - A indecisão.
Sou balança e peso, peso, peso
os prós e os contra e é sempre
difícil decidir porque nos 2
lados da balança há pesos quase
iguais.
Carlos: - Seus
passatempos preferidos?
Donzília: - Ler, ler,
ler. Escrever e viajar.
Carlos: - As piadas às
louras são injustas?
Donzília: - A cor do
cabelo nada tem a ver com a
inteligência das pessoas. O seu
caracter e personalidade é que
são importantes. As piadas ás
loiras também podem ser às
morenas.
Carlos: - O filme
comercial que mais gostou?
Donzília: - “E Tudo o
Vento Levou”; e “Música no
Coração”. Mas o que mais me
marcou quando tinha 7 ou 8 anos
foi: "O Céu sobre Pantano" que
relatava a vida de santa Maria
Goretti.
Carlos: - O que é para
você o termo Esoterismo?
Donzília: - Tive de ir
ver ao dicionário. E lá diz:
"Doutrina secreta que alguns
filósofos da antiguidade apenas
comunicavam aos iniciados"
Carlos: - Acredita na
reencarnação?
Donzília: - Não sei,
Acho que não. Mas acredito na
eternidade.
Carlos: - Acredita em
fantasmas ou em “almas do outro
mundo”?
Donzília: - Acho que
não. mas creio que existe algo
misterioso que ás vezes não
compreendemos. Há qualquer coisa
que se sente no ar mas... Que
será? A nossa força anímica? Sei
lá.
Carlos: - O Imaginário
será um sonho da realidade?
Donzília: - talvez. Mas
creio que o inverso é mais
certo, ou seja a realidade é que
é um sonho do imaginário, tal
qual o imaginam as crianças.
Somos geralmente aquilo que
queremos ser. Confuso?
Carlos: - Acredita em
histórias fantásticas?
Donzília: - Acredito. O
imaginário pode levar-nos onde
quer o pensamento. Há coisas que
devemos crer sem ver e não ser
como S. Tomé.
Carlos: - Quando era
criança ...?
Donzília: - Era muito
sonhadora. Sonhava com tudo o
que sou hoje e fui, consegui...
Num metro quadrado, construía
uma casinha e metia lá a minha
família numerosa, toda, todinha
Carlos: - Que livro anda
a ler?
Donzília: - Neste
momento "Paladares na
Literatura" da minha amiga Dr.ª
Manuela Bentes. Acabei de ler
"Tradutor de Chuvas " de Mia
Couto; Mar Morto de Jorge Amado;
Citações e pensamentos de
Fernando Pessoa e outro igual de
Eça de Queirós. Gosto muito de
ler.
Carlos: - A cultura será
uma botija de oxigénio?
Donzília: - É. sem
dúvida quem não tem cultura
estiola e morre. Não é ninguém.
É escravo de si mesmo e dos
outros. Anda no mundo por ver
andar os outros. A cultura é a
nossa maior riqueza a botija de
oxigénio imprescindível á vida.
Carlos: - Autores e
livros preferidos?
Donzília: - Tenho
muitos, mas... De Poetas:
Florbela Espanca, Camões,
Bocage, Antero, Fernando Pessoa
e Glória Marreiros; de
Clássicos: Eça, Miguel Torga,
Tudo o que escreveu em especial
Poesia Completa que é o meu
livro de mesa-de-cabeceira, Mia
Couto, mais português que
moçambicano etc. etc...
Carlos: - Vamos falar
sobre sua obra Literária?
Donzília: - Já editei
nove livros: Comecei com poesia,
3 livros. Depois um livro de
contos; outro de investigação;
seguiram-se 3 infanto-juvenis e
este último de crónicas/ conto
quase todo dedicado à Póvoa de
Varzim onde costumo passar as
férias de Verão porque adoro o
mar. Há mais um infanto-juvenil
na forja.
Carlos: - E falando de
Música e Autores preferidos?
Donzília: - Beethoven,
France Liszt, Bach, Strauss e as
suas valsas, e... Melodias de
sempre da musica romântica anos
sessenta...
Já perto novamente de
Paredes, a simpática
entrevistada, virou-se para mim
e disse-me: “ Carlos, tenho mais
uma surpresa para si. Encomendei
ontem um Cozido à Portuguesa e
uma garrafa de vinho Favaios, à
temperatura de 19º C. Ficou
contente? Já estamos atrasados
cerca de uma hora…
Fiquei deveras contente,
pois é dos meus pratos
favoritos, assim como o vinho
Favaios. Na entrada do
restaurante “Flor da Cidade”,
fiz-lhe a última pergunta.
Carlos: - Para a
Donzília, Deus Existe?
Donzília: - Sim. SIM
com toda a certeza. Sinto-O em
cada dia da minha vida. Se não
existisse nada faria sentido.
Até na beleza das coisas se
sente Deus, O DIVINO. Na ordem
do Universo na força e fé que
sobe no peito...
E assim, falámos de:
Donzília Ribeiro Martins
Nascida a 25 de Setembro
de 1942
Professora de Português
e História (aposentada)