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ÓH SÃO PEDRO DE MOEL
...
(Carlos Leite Ribeiro)
(Suspiros ao Luar)
Onde a Rainha Santa Isabel ...
Bordou sua mantilha ...
(És praia de maravilha !!! ...)
Há quanto tempo não tínhamos assim uma noite ! Não estamos em
Janeiro nem em Agosto, mas o luar desta noite lhe faz inveja !
Parece dia, a estrada Marinha Grande - São Pedro de Moel (09 Km)
enche-se de trânsito, pois todos queriam ver espectáculo natural que
numa noite de luar São Pedro de Moel oferece a quem quer ver. É
maravilhoso. Nestes noites, a Lua, a eterna cúmplice dos namorados
esquece esta sua cumplicidade. Vê-se quase como se fosse dia.
Cheguei a São Pedro, e logo me dirigi ao que chamamos a "varanda da
esplanada". Que lindo panorama, de um lado os montes que em parte
circundam a localidade; do outro lado a imensidão do Oceano
Atlântico. As pessoas ficam com uma cor prateada (quase irreal),
assim como os montes e até as águas atlânticas.
À minha memória vêm recordações que não as posso apagar da memória
...
Suspirei e desci as íngremes escadas que dão para a praia, onde, nas
suas douradas areis estavam muitas pessoas, com os seus filhos, os
pares de namorados; ao longe as luzes dos barquitos de pesca.
Descalcei-me, atei os atacadores e coloquei os sapatos em volta do
pescoço. Comecei a andar para o lado da piscina de água salgada.
Quantas recordações ... Vou passar por onde durante alguns anos dei
aulas de ginástica (completamente gratuitas) aos pequenos da Colónia
Afonso Lopes Vieira (crianças dos 07 aos 11 anos – e a turma era de
60 alunos). Mais adiante encontrei um velho pescador que pescava de
cana, o Sr. Quim, que ao ver-me logo gritou: "... bem me queria
parecer que era você !... imaginei-o acompanhado pela D. Maria
Corália ... santa senhora ainda hoje recordada por todos ... vocês
sempre foram uns eternos namorados ... sempre entrelaçados um ao
outro".
Já é tão difícil as recordações quanto mais falar nelas. Saí daquele
lugar o mais depressa possível. Continuando a andar pela areia
molhada, e já perto da piscina, veio-me à memória um facto passado
há cerca de 21 anos. Eu e minha família passávamos a época de Verão
em São Pedro, e quase todas as noites íamos dar o nosso passeio pela
areia. Nessa noite, como habitualmente, bem agarrado a minha mulher,
ao longe avistei meu filho mais novo (João), completamente envolvido
com uma mocinha. Muito espantado, voltei-me para ela dizendo: -
"Maria Corália, estás a ver o que eu estou a ver ? Não me digas que
a "formiga já tem catarro" ...". Ela sorrindo, respondeu-me:
-"Carlos, admira este lindo luar e este mar, olha como as águas
estão prateadas, e deixa lá quem está !". Calmamente demos a volta
para o regresso, onde eu continuei: - "Ainda se fosse o mais velho
(Carlos Manuel) que já tem 16 anos, ainda vá lá, mas o João só tem
11". Apertando-me ainda mais de encontro a ela, sempre sorrindo, foi
dizendo: - "É que o mais velho está em casa a fazer uns trabalhos
escolares com fulana ...". Talvez fosse a primeira vez que me senti
algo velho ! : - "Hummmm, estão este convite tão veemente formulado
por ti para este passeio na areia ...". Aqui ela atirou uma enorme
gargalhada: - "Carlos, quem sai aos seus não desnera ! Ou será que
já não te lembras ?! ...".
Companheira formidável durante vinte anos, até que Deus a levou.
Dizia muitas vezes. – "O que ficar cá em casa, não vai ser servido
fora". E tinha razão pois não havia forma de sobejar nada ...
Dei a volta para ouvir o murmúrio das ondas batendo nas rochas. Em
São Pedro de Moel, as "sete ondas" tem som diferentes (tal como a
música) tocando melodias maravilhosas, sempre ao nosso gosto musical
e imaginação. Até com a maré a subir ou a descer, os sons são
diferentes.
Suspirei e olhei para o relógio: marcava 04:30 horas da madrugada.
Já tinha começado a cair uma neblina que depressa se transformou em
nevoeiro (madrugada e manhã de nevoeiro, tarde de soalheiro). Era
sinal que o maravilhoso espectáculo tinha terminado, e quem sabe,
uma promessa de São Pedro que, por muitos e bons séculos o
espectáculo continuará.
Suspirando, subi novamente as escadas que dão para a esplanada… por
vezes, é bom recordar.
São Pedro de Moel, é a sala de vistas por excelência da Marinha
Grande. Tenho sempre grande prazer de a mostrar a quem me visita. |