Grande Bronca no Mercado

- (Teatro de Revista à Portuguesa)

Autores do CEN "TrioSerenata à Chuva"

(Identificados)

 

 

 

 

Ainda me lembro do tempo que a Mariazinha era Peixeira e tinha um lugar de venda no Mercado de Arroios (Lisboa).

Era um espetáculo! Não só ela, mas a maneira como se vestia: de lenço envolvendo não só as suas tranças, mas também a cabeça toda; grandes argolas e um grosso cordão que talvez fosse de ouro; avental enorme, apertado com nós no pescoço e na cintura. Quero dizer, a Mariazinha enquanto Peixeira, tinha três nós: um no lenço da cabeça e mais dois no avental. Seu sotaque era da Nazaré (ó Amigoooo – ó Amigasssss). Nos pés uns grandes tamancos – era o que se podia ver, o resto era só um exercício de cálculo…

Era uma espetáculo! A Mariazinha Peixeira!

- Ó Freguesas, venham até aqui pois eu tenho o melhor peixe cá “da praça”. Vejam este carapau que está tão tesinho, tão tesinho que é uma beleza! Não estou a falar consigo, Sr. Guarda Bonitão … (puf, daquele com este frio faço ideia como estará…).

Ó Freguesa, apalpe aqui esta sardinha… não apalpe o rabo à minha sardinha, nem a barriga pois ela é bem capaz de dar “um desabafo intestinal” e ninguém aguenta o cheiro. Apalpe só a cabecinha dela e vai ver como vai gostar…

Ó minha jovem querida, que andas para aqui a fazer? Queres peixinho cá da Mariazinha?

- Foi a minha patroa que me mandou comprar peixe…

- Pois, pois, sabe Deus o que ela está a fazer neste momento. Estas “patroas” têm uma sorte…

Olha minha jovem, que peixe é que queres?

- Senhora Mariazinha, um peixe que não cheire muito a peixe…

- Já sei o que tu queres e tens muito bom gosto. Uma grande enguia!

- Ai credo, abrenuncio! Que coisa tão comprida e tão grossa…

- Olha jovem, se não fosse tão comprida e grossa, não prestava para nada! Fala quem percebe de enguias, pois sou uma grande apreciadora deste “peixe”!

- A enguia escorrega e está largar um “ranho” esquisito. Estou a ficar toda arrepiada, que coisa…

- Jovem, quando se agarra uma enguia destas, não pode ser só com dois dedinhos – tem de ser à “mão cheia”. Vais ver quando a puseres na panela de cabeça para baixo, ela escorrega que é uma beleza. Não te vai dar trabalho nenhum.

- E a enguia pode-se comer a qualquer hora mesmo à noite?

- A enguia pode ser degustada a toda e qualquer hora, mas à noite, tem outro sabor, mais relaxante que nos dá depois de a comer, um relaxante sono… Leva que não te vais arrepender. Não te demores muito, pois quando chegares a casa terás de fazer a cama à patroa.

Ó freguesas venham ver o meu peixinho – é um luxo! Venham ver! Ai minha santíssima caspa, este gajo não me larga! Ó Pintas, desaparece da minha vista. Já estou a ficar enervada… O que é que tu queres?... (este tem a mania que é “engatatão; vem de carrinho e vai para lá de carroça…)

- Mariazinha, nós temos que falar, num local qualquer fora do mercado. É que preciso de uma caldeirada tua…

- Caldeirada? Olha, escolhe o peixe que queres (ainda tenho que ter uma conversa com a tua mulher…).

- Compreendes, não é uma caldeirada de peixe que quero. É uma caldeirada tua…

- Ah! Uma caldeirada minha! Então toma lá um peixe-espada para te servir de cachecol, mais sardinha, carapau, uma raia para ficares com ranho, e mais…

- Olhem lá, que se passa aqui? Que falta de respeito é esta cá pelo guarda Bonitão? A D. Mariazinha e o seu freguês acompanhem-me à esquadra.

- Senhor guarda Bonitão, não me leve para a esquadra. Leve-me diretamente para Custóias que está cheia de matulões e eu preciso de me divertir!

E o pano desceu e subiu sete vezes, com o público de pé a aplaudir os “atores”, assim está escrito no teatro da Calçada dos Mouros, do lado esquerdo e depois da Rua Jacinto Nunes, onde faziam as festas de Santo António.

Crónica do Jornalista "Olhometro"

 

Ilustrando a peça do Teatro da Calçada dos Mouros:
Original de um ilustre escritor/jornalista desconhecido
com legendas e ilustrações de uma peixeira reformada
 
 
 

 

 
Aqui os "gatos" Bonitão e Pintas (encostados ao candeeiro) já andavam na cola da Mariazinha, mas ela deixou a canastra e estabeleceu-se no Mercado de Arroios - "Olha a minha lula, ó freguês, tá fresquinha..."  

  

 

Entretanto: 

O Bonitão virou polícia e o Pintas, o engatatão lá do sítio, querendo à viva força meter o bedelho na caldeirada da Mariazinha.

 

           
 
Vai daí ela amandou-lhe com um peixe-espada, com a rodilha,  e um tamanco, e foi um Deus nos acuda lá na praça...

 

 

Foi quando o herói Bonitão apareceu e enciumado por o peixe-espada e o tamanco da Mariazinha não serem para ele (ele sempre teve ciúmes do Pintas) quis vingar-se e meteu os dois na prisa (prisão). A Mariazinha descalça, e o Pintas com um galo na cabeça e o peixe-espada ao pescoço. kkkkkkkkkkkkk

 

E cai pano com os aplausos da assistência a chamar a Mariazinha ao palco, que teve de bisar a cena da tareia no Pintas!

 
 
 
Nota: Esta peça esteve em cena durante nove meses, até nascer outra...
 
FIM
Autores "Trio Serenata à Chuva

 

 

Envie esta Página aos Amigos:

 

 

                          

 

 

Por favor, assine o Livro de Visitas:

 

 

 

Todos os direitos reservados a Carlos Leite Ribeiro
Página criado por Iara Melo
http://www.iaramelo.com

 

para Índice de Carlos Leite Ribeiro