Naquela tarde de fins de Maio, ao
fundo de uma tortuosa rua em muito
mau estado de conservação, uma
mulher já idosa seguia acompanhada
pela sua inseparável cabra, a quem
chamava de "Chiba".
- 1ª Pers. : - Lá vem a "Tia Amélia
do Casal" e traz cá uma "osga"
(bebedeira)!
- 2ª Pers. : - Nem sei como é que
ela se aguenta em pé.
- 3ª Pers. : - Mas, infelizmente, é
este o seu estado normal ...
- 4ª Pers. : - Mas parece-me que
hoje é demais pois traz cá umas
grandes "marteladas" !
- 2ª Pers. : - Talvez, talvez ...
seja por estar muito calor ...
- 4ª Pers. : - E em vez de água,
bebeu vinho !
- Amélia do Casal: - ... olhem só
para isto, olhem só para isto ...
esta cabra, nem se aguenta em pé.
Que vergonha, que vergonha, cabra !
... levanta-te maldita ... está
bonita a chiba, está bonita a chiba
! ...
- 1ª Pers. : - Olhem ! A pobre cabra
até é bem capaz de também estar
bêbeda, só com a respiração da "Tia
Amélia do Casal" !
- 2ª Pers. : - É uma vergonha, é uma
vergonha pessoa andar neste estado
na rua....
- 4ª Pers. : - Tens toda a razão: é
uma vergonha, mas aquela mulher nem
sempre foi assim. Ainda me recordo
dela, como uma mulher limpa,
geniquenta, que nunca virava a cara
ao trabalho. Era como se costuma
dizer, uma mulher de cabeleira farta
...
- 2ª Pers. : - A minha mãe ainda diz
que era uma boa modista.
- Amélia : - ... ainda caio por tua
causa, maldita cabra ! ... não te
ponhas à frente dos meus pés, cabra
do inferno ! ... anda, anda ... está
bonita a chiba, está bonita a chiba
! ...
- 3ª Pers. : - Então porque motivo
ela se encontra neste estado
deplorável ? ...
- 4ª Pers. : - Não sei bem porquê,
mas segundo ouvi dizer ela se zangou
com o marido, e este abandonou-a e,
depois foi para os "Brasis", como a
"Tia Amélia do Casal" diz ...
- 2ª Pers. : - Estou mesmo a
palpitar que daqui a pouco, a "Tia
Amélia", cai no chão. A pobre cabra
nem sabe se há-de seguir pela
direita, se pela esquerda ...
- Amélia : - ... Óh cabra, hoje não
sei o que tu tens ... óh chiba, não
me dês encontrões ... por tua causa,
ainda vou cair ... vem para aqui,
chiba de um raio ... és teimosa ...
está bonita a chiba, está bonita a
chiba ! ...
- 3ª Pers. : - Reparem, quem é
aquela mocinha que se está a
aproximar da "Tia Amélia do Casal"
?...
- 4ª Pers. : - É o verdadeiro anjo
da guarda dela ! ...
- 3ª Pers. : - Mas, quem é aquela
moça ?
- 4ª Pers. : - É a filha mais velha
do Reinaldo, aquele que está na
Alemanha e que fez aquela casa junto
à orla do pinhal. Se não fosse
aquela moça, com certeza que a "Tia
Amélia" já não era viva !
- 1ª Pers. : - A moça tem ar de
simpática e cara de boazinha ... e é
muito bonita. Olha lá, como é que a
moça se chama ?...
- 4ª Pers. : - Chama-se Isabel, ou
Isabelita para os amigos. Ela é que
a lava, que lhe dá de comer, que a
atura ... olha, faz-lhe o que a
verdadeira filha, a tal que dizem
que anda lá por Lisboa, nunca lhe
fez !
- 3ª Pers. : - Reparem que embora
cambaleante, a "Tia Amélia", desde
que a Isabelita chegou junto dela,
já não implica tanto com a cabra ...
- 4ª Pers. : - Ela tem muito
respeito à Isabelita. Estou a
imaginar o que ela lhe está a dizer
... deve estar a ralhar-lhe, e bem
...
- 2ª Pers. : - Até a cabra parece
estar com ar de comprometida, a
ouvir a reprimenda que a dona está a
ouvir da Isabelita ! ... que
adorável moça ! - ela estuda ? ...
- 4ª Pers.: - É aluna universitária,
e tem sido uma boa estudante. Nunca
chumbou e tem tido sempre boas
notas.
- 3ª Pers. : - Mas eu já tenho visto
a ajudar a mãe, naquele pedaço de
terra que ela amanha ali no vale.
Pelos vistos, é muito trabalhadora !
- 4ª Pers. : - A Isabelita, além de
boa estudante, também é muito boa
dona de casa, além de ajudar a mãe
no campo. E quando é preciso, até dá
serventia aos pedreiros nas obras
que fazem lá em casa. O meu compadre
(que vocês conhecem bem) o Jorge
Pedreiro, já me tem dito que ela é o
"servente" que o mais obriga a
trabalhar !
- 3ª Pers. : - Estão quase a chegar
a casa da "Tia Amélia" ...
2ª Pers. : - O que se irá lá passar
? ... bem gostava de ser mosca ...
- Isabel : - ... olhe "Tia Amélia",
sente-se aqui neste banco ... mas
com cuidado ... por favor, veja se
não cai ! ... cuidado tia !
- Amélia : - Eu cair ?! ... eu?! ...
aquela maldita cabra, a chiba, é que
está com uma grande "pedrada" ! ...
podes crer Isabelita, que ela cada
vez está pior ... dá cabo de mim !
...está bonita a chiba, está bonita
a chiba ...
- Isabel: - Pois, pois ... eu já vi
tudo. A chiba é que está com uma
grande "pedrada" ... tia, sente-se,
sente-se aqui com calam , e por
favor não caia.
- Amélia : - Tu nem parece que me
conheces ! ... eu nunca caio ...
nunca caiu ... eu para cair, só se
for a chiba a atirar-me ao chão !
- Isabel : - Tantas lamúrias !
Pronto, pronto. Mas agora não saia
daí, pois eu vou guardar a chiba.
Volto já.
- Amélia : - Vai lá meu anjo. Se por
acaso a cabra ... a chiba não te
obedecer, por favor diz-me, que eu
depois ajusto contas com ela ...
ajusto contas com ela ... está
bonita a chiba, está bonita a chiba
...
... ... ...
- Isabel : - ..."Tia Amélia", já
voltei e agora vamos entrar em casa,
pois temos muito, muito mesmo de
falar...
Já dentro de casa a conversa entre a
jovem e a tia continua ...:
- Amélia : - Tu não me vais ralhar,
pois não Isabelita ?! ... fala, diz
qualquer coisa ...
- Isabel : - O que é que a tia quer
que eu lhe diga ? ... olhe, contente
consigo, é que eu não posso estar
... tome cuidado com esse degrau ...
- Amélia : - Isabelita, hoje não me
ralhes, pois a culpa foi da chiba
... tu bem viste, não queres é
admitir ... ela dava-me encontrões
nas minhas pernas, e eu, para me
manter direita, tinha que a empurrar
... eu andava um pouco para a
direita, às vezes para a esquerda
... outras vezes tropeçava. A culpa
é da chiba. Está bonita a chiba,
está bonita a chiba ! ...
- Isabel : - A tia já acabou ?! ...
Pense bem : a culpa é da "Tia
Amélia", pois a pobre chiba não a
leva para a taberna. A tia é que vai
por sua livre vontade. Que maldito
vício esse," Tia Amélia" !
- Amélia : - Tu estás enganada ...
Pois é, por eu estar com um pouco de
febre, para ti, estou bêbeda. Olha
que eu ainda sou uma mulher que sabe
fazer tudo ... tudo, ouviste ?!
- Isabel : - Ouvi e talvez acredite
... lá saber, a tia sabe, mas fazer,
é que não faz ! veja só aquele
tecido que está ali e que eu trouxe
à mais de um mês ...
- Amélia : - Há mais de um mês ?!
Olha como o tempo passa tão depressa
! Mas eu não me esqueci ...
- Isabel : - Pois não ! ... não se
esqueceu, mas também não se lembrou
! E eu gostava de levar o vestido ao
casamento da Rita, e ainda nem
sequer a "Tia Amélia" o começou a
cortar !
- Amélia : - Olha lá Isabelita ,
quando é que a Rita se casa ? ...
- Isabel : - Olhe, casa-se no
próximo Domingo !
- Amélia : - Então ... então vou já
cortar o tecido. Olha, passa-me
aquele papel que está ali naquela
mesa, e que tem as tuas medidas.
Logo ... logo já podes vir cá fazer
a primeira prova ... vou já começar
a trabalhar ...
Isabel : - Óh tia, por favor,
deixe-se disso !... pois não está em
condições nem para enfiar uma
agulha, quanto mais cortar o tecido
!
- Amélia: - Tens razão, minha filha.
Esta febre consome-me e não me deixa
trabalhar. Apanhei-a no Inverno
passado. Assim como este maldito
reumatismo, que não me deixa de doer
e de me incomodar. Nem sequer me
deixa estar de pé ... e aquela
maldita chiba, também tem muita
culpa ! ... que raio de chiba que eu
tenho !
- Isabel : - Deixe a chiba em paz!
Venha mas é lavar-se para depois
comer o que eu lhe trouxe ...
- Amélia : - Mas minha filha, eu
ainda sei cozinhar !
- Isabel : - Ai, ai mas que
paciência que é preciso ter ! ... a
tia lave-se, depois coma e deite-se.
Quando acordar, já estará
completamente curada dessa febre e
desse reumatismo que tanto a está a
apoquentar ...
- Amélia : - Isabelita, olha lá, a
chiba está bem ?! ...
- Isabel : - Óh tia, deixe lá a
chiba em paz ! ...
((( A "Tia Amélia" deita-se e
adormece. Entretanto, batem à porta
da rua ...)))
- Isabel : - Quem é ?! ...
- Um Carteiro : - É aqui que mora a
Srª. "Amélia do Casal" ?
- Isabel : - É sim ! ...
- Isabel : - É que tenho aqui uma
carta registado para ela. Veio do
Brasil ... ...
NOTA: A cena passa-se numa casa
pequena e de aspecto exterior pouco
limpo.
Num quarto, a "Tia Amélia do Casal"
está deitada numa cama a dormir,
enquanto uma jovem, a Isabelita,
está sentada num banco, tendo nas
mãos uma carta. Parece meditar ...
Nesse momento, a pessoa que está
deitada, ou seja a "Tia Amélia"
começa a dar sinais de querer
acordar ...
- Isabel : - ... então tia, acorda
hoje ou não ?! ...
- Amélia : - Annn, annn ... deixa-me
espreguiçar ... Áh és tu ... que
terrível pesadelo ! Quase que não
posso abrir os olhos, com tantas
dores de cabeça que tenho ...
- Isabel : - Tia, tome lá este
comprimido.
- Amélia : - Não quero nenhum
comprimido ...
- Isabel : - Vá, vá não seja
rabugenta. Engula ... engula ...
beba mais um pouco de água ...
- Amélia : - Tu és um anjo, minha
filha. Se não fosses tu, nem sei o
que seria de mim !
- Isabel : - Pois é, tia, só que por
vezes os anjos estão de folga, ou
ficam entretidos no céu ! ...
- Amélia : - Mas tu és um anjo,
Isabelita !
- Isabel : - Óh tia, desperte para a
realidade e não se refugie no vinho.
Que raio de vício, que vergonha !
ainda à pouco passei pela mercearia
e a Madalena chamou-me de parte para
me dizer: " a tia Amélia do Casal,
cada vez está a beber mais e cada
vez está pior. Agora quem paga as
favas é a pobre da cabra. Quem a viu
e quem a vê esta mulher ! ...".
- Amélia : - O quê ?! ... a Madalena
teve o descaramento de te dizer
isso, minha filha ?!
- Isabel : - Disse sim, tia ...
- Amélia : - Ela tem muita razão ...
A mulher que eu fui e a mulher que
eu sou hoje ... sinto-me um
autêntico traste ! Mas que hei-de eu
fazer ? ... eu não posso passar sem
ele, aquele maldito vinho. Mas ele
dá-me força e sobretudo coragem ...
- Isabel : - Mas o vinho não dá
força nem coragem a ninguém, tia !
- Amélia : - Mas que hei-de eu fazer
?! ...
- Isabel : - Olhe lá tia, deixe de
beber. A tia sabe que o vinho lhe
faz mal, e continua a bebê-lo ! ...
e com isto tudo, já me esquecia que
tenho uma novidade a dar-lhe : tenho
aqui uma carta para si, que veio do
Brasil.
- Amélia : - Do Brasil ?! ... nunca
recebi correspondência desses lados.
Isabelita, por favor, lê-me já essa
carta ...
Isabel : - Está bem tia ...
((( rasga o envelope e desdobra a
carta ...)))
Isabel lê, lê a carta em voz alta: -
"Amélia !
Há vinte e sete anos que estou neste
país, e é a primeira vez que te
escrevo. Soube pela filha do
Reinaldo, a qual não conheço e que
se chama Isabel, que tu te emendaste
e que hoje és a mesma Amélia do
Casal que eu tão bem conheci, e que
tanto te amei. Sei que te fiz sofrer
muito, mas eu também sofri, o que eu
só sei. Mas este maldito orgulho,
não permitiu que há mais tempo te
escrevesse.
Eu não devia de ter feito o que fiz,
tu não devias ter dito o que
disseste, mas, águas passadas, não
moem farinha e eu quero esquecer o
passado.
Como a Isabel me mandou dizer, tu
não gostas desse lugar onde habitas.
Pois bem, junto te envio um cheque
internacional com valor suficiente
para tu comprares uma casita para
nós, onde tu escolheres, pois eu
também tenho saudades de Portugal e,
sobretudo da minha querida mulher.
A nossa querida e única filha, a
Cristina, há cinco anos que está
comigo. Já se casou e tu já és avó,
pois a Cristina tem um belo moço de
2 anos, que se chama Moacir. Ela, o
marido e o filho, irão comigo para
Portugal, assim que eu arrume os
negócios que aqui tenho. Em breve
estaremos todos aí. E desta vez,
para sempre !"
teu António”
- Isabel : - Porque é que a tia está
a chorar ?...
- Amélia : - Porquê ?!!! ainda me
perguntas porquê ... tu minha filha,
tu minha querida Isabelita,
escreveste ao meu António ! ...
- Isabel : - Pois claro que escrevi.
Ou a tia queria continuar com esta
vida : " A Tia - Amélia do Casal e a
sua chiba ? ...
- Amélia : - Agradeço-te muito,
Isabelita, mas eu tenho que
continuar assim, pois não presto
para nada. Sou uma alcoólica ... até
tenho vergonha de mim mesmo ! Mas
que hei-de eu fazer, meu Deus ?! ...
Olha, Isabelita, escreve já ao meu
António e diz-lhe que não venha para
Portugal. Conta-lhe toda a verdade,
que sou uma alcoólica e não sirvo
para nada ... que só o ia
envergonhar ...
- Isabel : - Óh tia, tenha juízo,
pois eu não vou escrever ao Tio a
dizer-lhe isso ! Tia, a partir deste
momento, acabou a "Amélia do Casal".
Ponha isso na sua cabecinha !
- Amélia : - Mas eu não sou digna
deles, não sou digna deles. Eu sou
uma alcoólica ! Escreve, escreve por
favor ao meu António ...
- Isabel : - Tia, pare, pare com
isso ! A tia se quiser é digna; só é
preciso que faça um esforçozinho, um
simples esforçozinho. Precisa de ter
vontade, de ter quer, percebe ?! ...
Existem centros de reabilitação de
alcoólicos. Qualquer médico a ajuda.
Todos nós a ajudaremos. Enxugue por
favor essas lágrimas, pois não é com
lágrimas que a tia consegue vencer.
É preciso é a tia Amélia ter muita
vontade, muito e muito crer, e verá
que vencerá ! Para a frente, para a
frente, tia Amélia !!!
- Amélia : - É fácil dizer, minha
filha, mas eu já estou velha e não
vou conseguir ! ...
- Isabel : - Consegue, consegue -
tem de conseguir ! eu vou ajudá-la,
todos nós a vamos ajudar. Vai
conseguir, tem de conseguir !!!
- Amélia : - Minha filha, eu já não
posso recuperar. Toda a gente aqui
do lugar me conhece como uma
alcoólica, como uma bêbeda, que
culpa sempre a pobre chiba ! ...
este lugar e esta casa, são para mim
como fantasmas, pois perseguem-me
por todos os lados. Isabelita, meu
anjo, eu já não tenho forças para me
libertar deste maldito destino. Eu
sou uma falhada ! ...
- Isabel : - Olhe tia Amélia, chegue
aqui a esta janela ... veja ali o
Ernesto que é cego de nascença. Sabe
porque é que ele tem vencido na vida
? ...é porque tem muito quer, muita
coragem e sobretudo muito respeito
por ele próprio, e também muito amor
à vida ! ... mas a tia Amélia, que
Graças a Deus tem boa visão, é mais
cega do que o Ernesto, pois não quer
ver não quer encarar a realidade !
... Tia, o destino em parte, somos
nós que o fazemos, e o tio, o seu
António, manda-lhe aqui este cheque,
cujo valor dá bem para comprar uma
boa casa onde quiser. O destino, o
seu destino está nas suas mãos !!!
- Amélia : - Mas, Isabelita, eu ...
- Isabel : - Áh não,não e não ! não
me venha cá outra vez com essas
pieguices. Seja mas é forte, e assim
vencerá. Tem de ter muita coragem -
de ter muito quer !!!
- Amélia : - O meu António ainda se
lembra de mim ... ainda se lembra !
...
- Isabel : - Pois é, lembra-se de
si, mas como a tia era dantes, como
ele a conheceu. Não como é agora,
que é um autêntico "farrapo humano"
!
- Amélia : - O quê ?! ... o que é
que tu disseste ?! ... "farrapo
humano" ?! ... eu, a "Tia - Amélia
do Casal" ser um " farrapo humano"
?! ... eu ?! ... olha que gosto
muito de ti, Isabelita, mas essa
não, essa não te admito ...não te
admito - ouviste bem ?! ... não te
admito .. não te A-DMI-TO !!!
- Isabel : - A tia só pode não
admitir as minhas palavras, quando
tiver vontade para se tratar, de se
emendar. A tia deve deixar de beber
...
- Amélia : - Eu já nem te vejo nem
te ouço bem ... ...
- Isabel : - Tia, não é por mim que
lhe peço que se trate. Peço-lhe
sobretudo, pelo seu netinho, pela
sua filha, pelo seu António, que
ainda hoje acredita em si, assim
como todos nós acreditamos na tia
Amélia. Com certeza que não quer que
o seu netinho, que ainda não
conhece, que mais tarde a aponte
como uma avó que só sabia beber
vinho, e que depois, caricatamente
culpava um pobre animal, do seu
vício ?! ...
- Amélia : - Eu já não aguento mais
... já não aguento mais ...
- Isabel : - Agora, agora chora, mas
esse choro de nada vale se não se
quiser tratar. De fingidos e de
hipócritas, está o mundo cheio.
Trate-se "Tia Amélia do Casal" -
trate-se !!!
- Amélia : - Só para não te ouvir
mais, eu vou-me tratar... Mas é só
para não te ouvir mais... Tu vais
ver, eu vou voltar a ser a
verdadeira "Amélia do Casal". Vou
voltar a ser digna e trabalhadora
como era dantes ...
- Isabel : - Trabalhadora ?! ... a
tia vai voltar a ser trabalhadora ?!
...
- Amélia : - Sim ! ... Sim, vou
voltar a ser trabalhadora. Mas
porquê tanta admiração Isabelita ?
...olha, que eu não admito que
duvides de mim. Olha que eu sou
trabalhadora ...
- Isabel : - Ainda bem, ainda bem, a
tia Amélia que vai voltar a ser
trabalhadora ! Deus é enorme !!! ...
- Amélia : - Olha lá, menina ...
ainda bem ... porquê ?! ...
- Isabel : - Porque eu no Domingo
vou ao casamento da Rita, e quero
levar o vestido feito pela "Tia
Amélia do Casal" !!!
- Amélia : - Ai é isso !!! ... esta
Isabelita (este estupor ...) deu-me
volta à cabeça ... !!! ...
F I M
Original de Carlos Leite Ribeiro –
Marinha Grande – Portugal
Esta peça teatral “Nunca é Tarde”,
passou na Radiodifusão Portuguesa e
também em palcos, em ambos os casos
com assinalável êxito. Este texto
que aqui apresento, está preparado
com “deixas” para Teatro
Radiofónico. Embora convidado
algumas vezes, nunca aceitei que
este texto entrasse em qualquer
concurso literário.
Carlos Leite Ribeiro