PASSEIO A MONCHIQUE - COMBINADO EM CIMA DO JOELHO

(EM CIMA DA HORA)

 

 

Por: Carlos Leite Ribeiro

 

Formatação: Iara Melo

 

 

 

 

 

 

Tinha acabado de telefonar para a Glória Marreiros, quando me deu uma vontade irresistível de a conhecer pessoalmente. Comecei por pesquisar um hotel em Portimão, depois os horários dos expressos. Liguei-lhe, liguei para a Iara e convidei-a para um passeio a Portimão e à Serra de Monchique, e, sobretudo conhecer a nossa querida amiga Glória.

Iara: - Estou pronta e vou com grande prazer, principalmente, para conhecer a nossa amiga. E quando é que vamos?

Carlos: - Vamos esta noite. Vá ter comigo a Leiria e de lá apanhamos um Expresso para Portimão.

Liguei novamente a Glória para lhe dar a novidade.
Carlos: - Gloriaazinha, amanhã, pelas 9 horas estarei aí em Portimão e levo uma grande surpresa! Já marquei quarto no Rocha Hotel…


A viagem foi tranquila, principalmente para Iara que passou a viagem a dormir. E eu, para a não incomodar, fui para outro lugar para a deixar dormir confortavelmente. Isto de ser cavalheiro, tem os seus custos…

Quando chegámos à Rodoviária de Portimão, apanhamos um táxi para o Hotel que fica na bela praia da Rocha. Logo de seguida a fazermos o check-in, telefonei à querida amiga a dizer-lhe que estava despachado. Minutos depois, apareceu no seu carro junto da porta do hotel.

 

Glória: - Olá Carlos e Iara, que grande surpresa! Mas, também tenho uma surpresa para vocês. Olhem que está ali junto do carro: o nosso querido amigo, Tito Olívio!
Carlos: - Que grande surpresa, minha amiga. Vamos saudar este nosso amigo.

Entretanto, já a Iara tinha corrido para dar um abraço ao Tito

Iara: - Que prazer em conhecê-lo pessoalmente. Que grande surpresa a Glória nos proporcionou.

Carlos aguardou a sua vez de abraçar o Tito.

Carlos: - Olá, amigo Tito, que prazer em conhecê-lo pessoalmente. Na nossa juventude, morámos perto um do outro sem na altura nos conhecermos.
Glória - Amigos, vamos deixar por agora de cumprimentos e vamos entrar no carro, pois o nosso dia vai ser muito longo Vamos começar com a visita ao maior Centro Comercial do Algarve, que é o "AQUA". E aproveito para fazer umas compras.

 

 

AQUA - CENTRO COMERCIAL

 


Já tinha boa impressão da Glória, mas vê-la pessoalmente, tanto eu como a Iara ficámos deslumbrado com a sua beleza e simpatia. Vestia um lindo vestido vermelho, contrastando com o vestido de saia rodada da Iara que era azul-marinho com flores brancas, um elegante chapéu em cetim também azul-marinho e como sempre de sapatos de salto alto. Bem, desta vez, eram sandálias no mesmo tom do vestido, mas de salto alto.

O Carlos e o Tito vestiam jeans e sapatos desportivos só as t-shirts eram diferentes: a do Carlos era amarela dourada e a do Tito branca.

O Shopping é muito bonito e dos maiores do país. Depois da visita e feitas as compras metidas em quatro sacos de plástico, saímos do Shopping e já dentro do carro a nossa amiga, anunciou-nos:

 

Glória: - Vi que o Carlos e a Iara, gostaram de visitar esta linda superfície comercial. Vamos seguir viagem e vamos até à praia do Alvor (01). Mas não posso tomar banho pois esqueci-me do biquíni em casa.

Iara: - Eu também não trouxe o biquíni, pois, quando vou à praia, tenho receio que chova e que tenha de me meter debaixo de um barco virado ao contrário na areia, até a chuva passar…

Tito: - Os meus calções ficaram em casa.
Carlos: - Também não posso tomar banho pois não trouxe os calções. Neste caso, estamos empatados. Vamos para uma esplanada tomar uns sumos e depois vamos almoçar, que já marquei ontem, para três pessoas. Mas sempre deve caber mais um prato na mesa.

 

 

PRAIA DO ALVOR - MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL


- (01) - O extenso areal da praia do Alvor é um chamariz para muitos banhistas. Para as famílias, esta praia tem a vantagem de estar situada na frente da ria, possibilitando, assim, fazer pequenos percursos de observação da natureza e ensinar aos mais pequeninos todas as regras de respeito pela vida selvagem.
 
Sentamo-nos numa esplanada da Praia, onde conversámos vários temas, sendo o principal tema o Portal CEN, pois a Glória e o Tito, quiseram saber direitinho como começou e como funciona.
O relógio não parava e as horas, junto àqueles queridos amigos, passavam com uma rapidez enorme. Assim, a hora do almoço chegou e fomos até ao Restaurante Pestana Alvor Praia.
Por comum acordo, encomendámos peixe (não me recordo que espécie), sumos e no final um doce, pois, embora não nos considerássemos gulosos “doce atraia-nos de uma forma quase irresistível.

Foi um repasto bastante agradável. A Glória estava ansiosa de mostrar a sua “Serra” de Monchique, e delicadamente apressou-nos:

 

Glória: - Vamos apressar-nos um pouco pois tenho grande prazer em vos mostrar Monchique, que ainda dista daqui uns 30 Km.

 

VISTA DA SERRA MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL

 

Já dentro do carro, o Tito voltou-se para o Carlos, dizendo:

Tito: - Segundo consta, o Carlos quando viaja estuda sempre a história das localidades que vai visitar…

Carlos: - Desta vez, não tive tempo para fazer esse “estudo” por falta de tempo. Foi tudo combinado em cima do joelho – não foi Iara?

Iara: - Sim, foi, mas o Carlos tem sempre qualquer coisa na manga.

Carlos: - Só sei que há várias versões sobre o étimo Monchique. Uns dizem que vem de “Monte chique”, que fundindo-se teria dado Monchique. Sabemos que os romanos deram à região o nome de Mons Cicus. Também o cruzado (soldado das Cruzadas), que descreveu a conquista de Silves, chamou Munchite ao castelo de Monchique. Não sei o que dizer mais…

Iara: - Já disse tudo que sabe? É pena o carro não ter mais um lugar, para o Carlos deixar este banco só para mim. Ele é que se intitula “cavalheiro à moda antiga”, que atira floras às mulheres bonitas!

Carlos: - Está enganada, pois, não atiro flores às mulheres bonitas, mas sim pedras. rssss

Tito: - Não se preocupem pois, eu sei umas coisinhas sobre a Serra de Monchique, também como a Sintra algarvia, onde se situa o ponto mais elevado do Algarve, com uma altitude de 902 metros. Fica localizada entre as serras do Espinhaço de Cão e do Caldeirão. Separa o Alentejo do Algarve. Mons Cicus é o ponto mais alto do monte da Fóia, de onde se avista um soberbo panoramas, desde a ponta de Sagres até à Serra da Arrábida; o azul do mar contrastando com o verde das florestas. Existem vários ribeiros e ribeiras, entre as quais a Ribeira de Seixe, a Ribeira de Aljezur (ou da Cerca), a Ribeira de Odiáxere, a Ribeira de Monchique e a Ribeira de Boina. É ainda de salientar a fertilidade dos seus solos, devido não só à humidade, mas também ao facto da sua rocha, a foíte, ser de origem magmática. No início da Primavera, toda a serra fica com as amendoeiras em flor. É um espectáculo deslumbrante vista de longe, com o tom branco e rosado. Conheço uma lenda das amendoeiras, ora escutem:

“No tempo em que o Al-Gharb (Algarve) pertencia aos árabes, reinava em Silves o jovem califa Ibn-Almundim, que se apaixonou e casou com Gilda, filha de um grande senhor dos povos do Norte, derrotado em combate pelo rei mouro. Amor que era correspondido, pelo que o casamento foi uma grande festa, mas a bela princesa, foi a cada dia entristecendo, sem que o califa lhe arrancasse um único sorriso. Vieram magos e sábios de todo o mundo, mas ninguém conseguia encontrar cura para aquela dor. Até que um velho nórdico disse ao rei que Gilda tinha saudades da brancura dos campos cobertos de neve, existentes no seu país. Ibn-Almundim mandou então plantar milhares de amendoeiras junto às janelas do palácio, que, quando florissem, cobririam as terras com pétalas brancas, iludindo a saudade da princesa e devolvendo-lhe a alegria. Assim se fez e, desde essa longínqua Primavera, todos os anos o Algarve vive a magia das amendoeiras em flor”.

Iara: - Tenho reparado que à beira da estrada, vendem belos frutos e não só os célebres frutos secos.

Glória: - O Algarve tem belos e saborosos frutos. Já agora, pergunto se posso falar da minha querida “Monchique”?

Tito: - Desculpa, Glória.

 

MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL

 

Glória: - Desta vez, estás desculpado. Vou começar a minha dissertação: Monchique – a minha serra: “Quer se venha do Alentejo montanhoso e seco, quer do Algarve que se estende até ao Algarve que se estende até ao mar e onde as figueiras e as amendoeiras não chegam a manchar de verde a paisagem, Monchique aparece como um mundo diferente, vibrante de luz e salpicado de cor. O monchiquense é altivo como as suas montanhas e não desperdiça um pouco de terreno que possa ser útil. E é ver os socalcos nos montes onde surgem as árvores de fruto, os legumes e as flores. A serra é uma fonte inesgotável de maravilhas, que podemos contabilizar, vales selvagens, precipícios, prados, terraços floridos, muitas montanhas, magníficos pomares, matas de medronheiros (com os quais se faz uma aguardente muito forte). Passarada por toda a parte, desde gaviões, rouxinóis, andorinhas e até abutres. Sem esquecer a magnificiência do panorama que se avista da Fóia, o ponto mais alto da serra, é sem dúvida uma das mais espantosas de Portugal Continental. Devido ao facto de estar próxima do mar possui um clima subtropical húmido, com precipitações médias anuais entres os 1000 e os 2000 mm, que associadas a temperaturas amenas permite a existência de uma vegetação rica e variada, onde se inclui o raríssimo carvalho-de-monchique e a bela adelfeira, bem como espécies raras no sul, tais como o castanheiro, o carvalho-cerquinho ou o carvalho-roble.

 

Caldas de Monchique - Algarve - Portugal


Nesta serra existe um importante complexo termal, Caldas de Monchique, rodeado por um parque de vegetação luxuriante onde existe a maior magnólia da Europa. A identidade desta povoação está intimamente associada à riqueza das suas águas e às suas propriedades curativas. Já em 1495 D. João II veio cá aos banhos para recuperar da sua doença, que infelizmente não teve êxito.

Tito: - Magnífica discrição que fizeste da tua “serra”. Podemos para tomarmos um cafezinho?

Iara: - Também me apetece um cafezinho, e ao Carlos, também deve apetecer pois não é nenhum desmancha-prazeres – não é Carlinhos?

Glória: - Não discutam pois já vi que são muito agressivos um para o outro – desculpem a franqueza!

Carlos: - A Iara com aquela cara de anjo, é que gosta de me chatear, mas eu já nem lhe digo…

Iara: - Como podem ver, ele é muito “simpático”…

Parámos numa esplanada um pouco antes de chegar à vila, onde tomámos o desejado café e a Glória continuou a sua dissertação:

 

MONCHIQUE (ESPLANADA) - ALGARVE - PORTUGAL

 

Glória: - “Os franciscanos que escolheram o local de implantação do Convento de Nossa Senhora do Desterro, souberam oferecer-se um dos melhores miradouros que a vila de Monchique tem. Foi fundado em 1631 por Pêro da Silva, também conhecido por Mole, que depois foi vice-rei da Índia.
Segundo reza uma lenda muito antiga, conta que a fundação deste convento se deve ao cumprimento de uma promessa, feita no alto mar por dois navegantes que se achavam em perigo, de construírem ambos uma igreja no lugar da terra de Portugal que primeiro avistassem do mar. Diz também a lenda que o fundador trouxera consigo da Índia uma pequena imagem da Nossa Senhora, em marfim, imagem que, depois da sua morte, os frades veneravam como relíquia, até que, para a salvar do vendaval de 1834, um deles a escondeu debaixo do hábito e foi pedir a uma senhora, que a recolhesse”.

Tito: - A Glória é uma autêntica enciclopédia a falar da “sua” serra. Falando do convento, direi que está em ruína assim como os azulejos do antigo refeitório. Mas as dimensões e a esplêndida mata que o rodeia dão bem uma ideia da sua importância em tempos não muito remotos.

 

ALFERCE - MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL

 

Glória: - Vamos aguardar um pouco mais para visitar essa mata e lancharmos no Parque da Fonte dos Passarinhos. Voltando a falar de Monchique, a vila em si é uma cascata de casas brancas que desce do alto até à praça. A Igreja matriz, a qual vamos visitar daqui a pouco, pois estamos quase a chegar.

Tito: - Já se avista daqui. Reparem no belo portal…

Glória: - Desculpa Tito, mas a serra é “minha”. Vamos sair do caso e vamos começar por este belo portal radiado estilo Manuelino. É de arco quebrado, com enrolamentos manuelinos nas pilastras, capitéis e arcos interiores e máscaras nos intercolúnios. As portas laterais, mais simples, são também manuelinas, bem como um capitel incrustado na parede da fachada norte. Vamos entrar no interior que é de três naves, +separadas por arcos de volta inteira descansando em colunas de granito, com capitéis formados por cordões torcidos. A abóbada da Capela do Santíssimo, que escapou ao terramoto de 1755, ostenta uma cruz de Cristo no bocete central. É toda revestida de azulejos policromos do tipo maçaroca, enquadrando alguns paneis cerâmicos, figurando São Miguel pisando o dragão e São Francisco tirando almas do Purgatório com o cordão. Ao centro, está um medalhão com a coroa Imperial. A imagem da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, atribuída a Machado de Castro ou a um artista da sua escola.

 

Carlos: - Não quero ser desmancha-prazeres, mas confesso aqui que, estou com muita fome!

Iara: - Já estava admirada de o Carlos de estar com “muita fome”. É um esfomeado compulsivo!

Carlos: - Nem te respondo, mas penso…

Glória: - Meninos, não comecem a discutir, que segundo me consta, são assim como o cão e o gato. Vamos já lanchar ao Parque de Merendas da Fonte dos Amores.

 

 

FONTE DOS AMORES - MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL

 

O Parque das Merenda fica situado numa bela mata em que predomina o eucalipto. Cada um dos excursionistas transportou um saco de plástico com o lanche.

 

Iara: - Carlos, estende as toalhas na mesa.

Carlos: - Eu?! Não posso, pois estou a beber água…

Iara: - Então vais comer para o chão como um cão.

Glória: - Vocês são impossíveis um para o outro. Eu vou colocar as toalhas, ou, pedir ao amigo Tito que o faça…

Tito: - Gostava muito de fazer esse trabalho, mas não posso. Estou com uma forte dor de costas.

Iara: - As mulheres é que têm de fazer tudo, pois o “bicho” homem pensa que somos escravas. Que raiva. Se eu pudesse, fazia um decreto para todos os homens estivessem sempre ao dispor das mulheres e fizessem tudo por elas.

 

O lanche decorreu em ambiente alegre. Pão, carnes frias, queijo, salgados, biscoitos, frutos e frutos secos, foi o repasto. Entretanto e calmamente, o nosso amigo Tito Olívio foi-nos contando uma lenda:


 

CASA RURAL EM MONCHIQUE - ALGARVE - PORTUGAL

 


Tito: - Lenda da Serra de Monchique - Dr. Gentil Marques (Rádio Clube Português 1952)

“Em pleno século XIV e após a conquista do Algarve, o povo vivia inseguro nas terras algarvias, pois contavam-se constantemente as histórias mais fantásticas a respeito dos mouros que ali haviam ficado escondidos ou das suas almas penadas. De todo este emaranhado de histórias resultaram algumas lendas bastante curiosas. Esta é a lenda da moura da Serra de Monchique.
A tarde começara a cair, e com ela o calor que abrasara durante o dia. A terra continuava quente e a água morna. Nem a brisa soprava. Na serra, o silêncio assentara arraiais.
António, jovem pescador que sofrera um naufrágio e ficara algum tempo em terra a recompor-se, subia num vagar amolecido. Caminhava ao acaso, esquecido que teria de voltar para trás e que a noite poderia surpreendê-lo no caminho. Ia de olhos perdidos na linha arredondada do horizonte. Sonhava coisas fantásticas e confusas. De súbito, estacou. Não foi o medo que o fez parar. Antes o receio de que a sua presença pusesse em fuga a linda aparição. Junto a um rochedo, uma jovem toda vestida de branco parecia, também, contemplar a paisagem. Estiveram assim, estáticos, alguns segundos. Depois, a jovem teve como que a percepção de que estava a ser observada e voltou-se. Tinha o rosto descoberto e era lindíssima. Deu um grito abafado e velou o rosto, num movimento rápido. Depois falou:
- Aproxima-te! Quero ver-te bem, já que entraste nos meus domínios.
O rapaz chegou junto dela. Olhava-a com deslumbramento. E pediu:
- Não podes voltar a descobrir o rosto?
Ela respondeu numa voz suave:
- Hoje, não. Mas tu hás-de vir aqui mais vezes e então... far-te-ei a vontade.
Ele sorriu-lhe e perguntou, resoluto:
- És uma das mouras que têm conseguido viver aqui escondidas?
A jovem respondeu indirectamente:
- Meu pai tinha um palácio lá em baixo... Fazíamos festas tão lindas! Vinham trovadores cantar... e eu... também tocava lira...
- E porque não tocas agora?
- Às vezes… quando estou triste...
- Mas onde vives?
- Moro aqui, sob esta pedra.
- Debaixo do chão?
- Sim. De que te admiras?
- Não tens luz!
- É o que te parece.
- Mas... onde está o teu antigo palácio?
- Os teus arrasaram-no!
- Os meus?
- Sim… os da tua raça!
- Mas... não dei porque houvesse lá em baixo nenhum palácio!
- Dos mais belos destas redondezas!
- E tu viveste no palácio?
- Sim… até virem as hostes do teu rei.
- As hostes? Mas... o meu rei... não tem andado por aqui!
- Sim. Vi-o, altivo no seu corcel negro!
- Sabes o seu nome?
- Ouvi que lhe chamavam Afonso.
António levou as mãos ao rosto como a querer certificar-se de que não sonhava. Depois voltou a olhar a linda loura. Havia uma certa palidez nas faces do jovem pescador. Perguntou quase a medo:
- Sabes... se esse rei cristão… era Afonso III? 
- Esse mesmo!
- Pois esse rei morreu muito antes de eu ter nascido! Como podes tu tê-lo visto, se aparentas ter a minha idade?
A jovem moura ficou uns momentos silenciosa. Parecia embaraçada. O rapaz tornou:
- Deves estar enganada.
- Talvez. Não penses mais nisso. Olha, está a anoitecer. Volta para a povoação, mas não te esqueças de vir aqui mais vezes!
O rapaz, um tanto perplexo, nem respondeu logo. Ela recomendou, levantando-se e encaminhando-se para o rochedo que estava perto:
- Não contes a ninguém o nosso encontro!
Ele sorriu:
- El-rei D. Afonso IV anda agora em guerra com a Espanha. Talvez te deixe viver lá em baixo.  
Ela desapareceu por detrás da rocha. António contornou-a — e nem o rastro da moura descobriu.
Desceu a serra pensativo. Chegou a casa já noite. Não ceou, não dormiu. Vendo-o assim, a mãe tentou saber a causa do que se passava. Mas António mantinha-se calado. Deixou de ir à pesca. Subia todas as tardes, com o Sol a pino, a serra de Monchique e só voltava à noite para casa. Os companheiros notaram a falta do António. Foram a casa dele. Mas a mãe do António não sabia senão chorar. Então eles prometeram-lhe que, no dia seguinte, dois dos pescadores seguiriam o António, para ver se descobriam o seu segredo. E se bem o prometeram, melhor o fizeram.
Quando António subia a serra, apressado, na ânsia de chegar perto daquela que já enchia toda a sua vida, mal sabia ele que era seguido de perto por dois companheiros de companha. Ao chegar perto da rocha encarniçada por onde a moura saía, António chamou:
- Zuleima!
Os companheiros esconderam-se, a coberto com o mato da serra. O nome que ele chamava era o de uma mulher, e moura! Mal tinham feito esta reflexão, os olhos arregalaram-se-lhes. Uma mulher muito bela, de rosto descoberto e envolta num manto branco que lhe pendia da cabeça, surgia por detrás da rocha onde o pescador havia parado. António tentou agarrá-la, mas ela impôs-lhe serenidade:
- Espera, António! Ainda não é tempo de desceres comigo ao meu palácio subterrâneo. Talvez amanhã. Antes, quero que me tragas um pedaço de terra onde está a tua casa. Outrora era aí uma mesquita.
Ele mostrou-se surpreendido:
- Como o sabes?
- Porque ia lá muitas vezes.
- Mas a minha avó já nasceu naquela casa!
- A tua avó deve saber o que me aconteceu. Pelo menos ouviu falar.
- E que te aconteceu?
- Meu pai, antes de chegarem os teus homens, trouxe-me para aqui e... encantou-me!
- Encantou-te? Então...
António estava perplexo. Só nesse momento compreendera que a jovem que via na sua frente não era como outra qualquer das moçoilas do seu lugar. Fez-se terrivelmente pálido. E declarou:
- Agora compreendo tudo quanto me tens dito! Tu és uma jovem moura encantada. E para que o teu encanto desapareça terei eu de perder a minha alma. É muito o que me pedes!
Ela ficou triste.
- António! Se vieres comigo para o meu palácio, serás poderoso como o meu pai e meus irmãos.
O pescador estava verdadeiramente amargurado. Um suor fino e frio tombava-lhe da fronte. Desculpou-se:
- Não poderei deixar a minha mãe, que é doente!
A moura animou-o.
- Sob esta pedra existe um caudal de água que fará curas maravilhosas! Se me trouxeres a terra, dirás à tua mãe que venha aqui depois de amanhã banhar-se na água que vir correr.
O jovem estava pensativo. Ela aproximou-se. Quase lhe tocava. A sua voz era cariciosa.
- Promete-me que voltarás aqui amanhã! Promete-me, pela vida de tua mãe!
Ele meneou a cabeça negativamente. Ela censurou-o:
- Afinal… não gostas de mim!
Foi pronta a resposta de António.
- Amo-te, bem o sabes. Contudo...
Zuleima voltou a interromper o rapaz:
- Não... não me amas! Vai-te, e outro jovem como tu há-de amar-me e será poderoso. Vai-te embora e não voltes mais!
O rapaz afligiu-se:
- Zuleima! Deixa-me provar-te o meu amor!
- Então jura-me pelo teu Deus que me trarás ainda hoje a terra que te pedi e hoje mesmo entrarás comigo no meu palácio subterrâneo.
Ele voltou a hesitar.
- E... se eu entrar... o teu encanto ficará desfeito?
Ela iludiu a resposta.
- Se entrares... serás o homem mais poderoso destas redondezas! Mas é preciso que jures...
- Zuleima eu...
Um grito forte cortou a palavra ao jovem António. Dois dos seus companheiros saíram por detrás dos arbustos. Um deles gritou:
- António! Não jures!
O pescador olhou-os com perplexidade. Mas, de súbito, um estampido enorme soou. O penedo junto do qual estava a moura encantada estalou e dele começou a sair uma água morna que escorria pela serra. Nesse mesmo instante Zuleima havia desaparecido. Então, um dos rapazes que haviam seguido o pescador falou-lhe como a despertá-lo da semi-inconsciência em que tinha ficado:
- Desperta, António! Ias perdendo para sempre a tua alma! Mas Deus salvou-te, inspirando-nos para te seguirmos até aqui!
O jovem passou as mãos pelo rosto.
- Parece-me tudo um sonho!
- Talvez! Mas foi um sonho mau, que acabou bem ao acordares!
- Pensam que se eu... tivesse jurado... perder-me-ia?
- Decerto! Ela está encantada há muitos anos e não voltará à vida normal. Levar-te-ia para o reino da treva!
António fechou os olhos. Depois, suspirando, disse apenas:
- Obrigado por terem vindo!
E reparando na água que escorria do penedo:
- E esta água? Ela disse que sob esta rocha estava água capaz de fazer curas maravilhosas!
- Talvez. Podemos experimentar. Mas agora ela já não poderá tentar-te mais!
António apertava a cabeça nas mãos. Tudo aquilo lhe parecia irreal. Os companheiros aproximaram-se.
- Vamos! Tua mãe espera-nos. Não voltes aqui sozinho! Nós te acompanharemos amanhã e traremos a tua mãe. Se a água a curar, faremos daqui umas termas para alívio dos doentes!
António começou descendo a serra, cabisbaixo. Depois murmurou:
- Que pena! Ela era tão linda! Tão linda! E evaporou-se como fumo!
- Mas deixou-te aquela fonte de água quente.
- Sim... deixou algo... que me obrigue a pensar nela... enquanto viver!”

 

Glória: - Gostei muito dessa lenda. E então contada pelo Tito, tem outro valor. Parabéns!

Iara: - Além de grande escritor, o Tito tem uma cadência de voz e dicção notáveis. Não dizes nada, Carlinhos? O nosso amigo ainda deve estar amuado comigo!

Carlos: - Não tenho palavras para elogiar a interpretação do amigo Tito. A ti Iara, nem te dou o prazer de minha resposta.

Glória: - Bem amigos, ainda temos de visitar duas igrejas antes de voltar para Portimão.

Carlos: - Para não ouvir mais piadas ou insinuações de parte de alguém aqui presente, vou recolher e deitar no contendor os lixos que fizemos. Posso também deitar este chapéu fora?

Iara: - NÃOOO!!! Ainda hoje mato você!

 

 

IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO, MONCHIQUE - PORTUGAL

 

 Glória: - Estamos a chegar à Igreja de São Sebastião. Parece-me que hoje está fechada… Mas eu vou fazer uma pequena narrativa do que é esta Igreja: “De notável, tem a imagem de Nossa Senhora do Desterro, proveniente do Convento de Nossa Senhora do Desterro. Bela escultura representando a Virgem com o Menino Jesus pela mão, é da metade do século XVII, pois, em “Santuário Mariano” diz que “…que se mandou fazer logo”, portanto em 1632, data da fundação. Supõe-se que a imagem fazia parte de um grupo escultórico. É de tradição que também veio do mesmo convento o grande baldaquino sustentado por duas caprichosamente fantasiadas, integrado no retábulo existente do templo.

Iara: - Que pena estar hoje fechada, pois gosto muito de visitar igrejas, museus, castelos, palácios, etc. É a história que nos transmite o que fomos para compreender o que somos…

Carlos: - Ai que a minha “alma está parva” com o que ouvi. A Iara tem me sempre dito que não gosta…

Iara: - Olha Carlos, estás sempre mal actualizado não só com as pessoas como até com situações, das quais fazes sempre grandes confusões.

Carlos: - Pois, pois, estou a entender…

Tito: - Vocês os dois parece que estão em campanha eleitoral. Até têm certo jeitinho para políticos que anseiam ao poder. Mas não deixam de ter certa graça.

Glória: - Tenho pena de não ter trazido a máquina de filmar, pois, estas conversas entre os amigos Carlos e Iara, dariam em belo CD! Temos que nos apressar para ver se encontramos a Igreja da Misericórdia, ainda aberta.

Carlos: - Ai, misericórdia.

Tito: - O Carlos está a sentir-se mal?

Carlos: - Não, a Iara é que me deu um beliscão no braço.

Iara: - Queixinhas!

Glória: - Parece que vamos apanhar a Igreja ainda aberta. Vamos entrar e reparem neste retábulo barroco, acrescentado em 1752 por um hábil artista. A tribuna dos mesários, assente sobre vigas de madeira pintada, de um marmoreado policromo, data de 1778. O púlpito, de talha vazada policromada, mais antigo, é decorado por aletas e folhagens, rodeando o centro da composição, constituída por flor estilizada. O entalhado prolonga-se pelos altares da porta e pelo baldaquino suspenso, no qual os mesmos elementos enquadram a pomba do Espírito Santo. E assim terminámos a visita à “minha” serra, vamos regressar a Portimão.

 

O regresso a Portimão correu muito bem, apesar de umas “simples” picardias entre as personagens do costume, ou seja, o Carlos e a Iara, como por exemplo: “O Carlos costuma ser sempre o cicerone em todos os passeios ou excursões, mas desta vez foi suplantado pelos amigos Gloriazinha e Tito. O Carlos encolheu os ombros e limitou-se a responder: “É que gosto de dar oportunidades aos novos”.

Foram jantar a um pequeno restaurante “A Ribeirinha” na rua da Barca. Preferiram peixe grelhado.

 

RESTAURANTE RIBEIRINHA, MONCHIQUE, ALGARVE - PORTUGAL

 

Já no átrio do hotel, fizeram as despedidas, pois o Carlos e a Iara tinham que apanhar o Expresso para Leiria, muito cedo.

Tito: - Foi um prazer conhecê-los pessoalmente e espero que façam boa viagem até à bela cidade de Leiria.

Glória: - Também gostei muito conhecê-los pessoalmente e espero que façam boa viagem, sem as picardias habituais.

Tito: - Espero que nenhum de vocês seja atirado pela janela fora!

Carlos: - Não vai haver esse perigo, pois eu vou-me sentar no último banco do Expresso.

Iara: - São testemunhas, o Carlos quer ser atirado do último banco, pela janela fora! kkk.

Despediram-se com grandes e prolongados abraços e prometeram que um dia ainda iriam visitar Faro.

Estavam cansados mas contentes, pensando naquele adágio popular:

- Para onde vais?

- Vou para a festa!!!

- De onde vens?

- Da festaaaa…

Subiram cada um em elevador diferente e chegados a seus quartos, desligaram os respectivos telefones.

Amanhã será outro dia…

 

Trabalho e pesquisa (várias fontes) de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

 

 

 

 

 

Webdesigner: Iara Melo

Foto topo da página, Glória Marreiros na Serra de

Monchique - Algarve - Portugal

Demais fotos, retiradas da internet (sem créditos)

Fundo Musical: Amália Rodrigues interpreta Uma Casa Portuguesa,

Composição: Reinaldo Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

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