Naquele Fim de Ano, a minha sogra
avisou-nos que, ao contrário do habitual,
não o passaria connosco pois tinha recebido
um convite de uma amiga do Algarve.
Simpaticamente, não se esqueceu de mandar
uns presentinhos ao neto (ainda era só um),
à filha e ao seu “querido genro” (que era
eu).
Quando minha esposa medisse que a mãe
(dela) me ia mandar um presente, confesso
que tive um “toque no coração” e logo
interroguei-me: “ Que se passará com aquela
querida sogrinha que me vai mandar uma
lembrança?”.
Quando os presentes chegaram,
naturalmente as embalagens foram logo
abertas. O meu presente tinha uma linda
embalagem e um lindo relógio de mostrador
azul lá dentro. Eu nem queria acreditar em
tal sorte. Tirei o dito cujo dentro da
embalagem e, como naquele tempo os relógios
trabalhavam a corda, comecei a rodar a
respectiva carrapeta, mas, por mais que o
rodasse, o relógio não trabalhava. Resolvi
telefonar para o Algarve para lhe perguntar
em que ourivesaria tinha ela comprado o
relógio para eu poder pedir a sua reparação
ou substituição. Ai que o ela me respondeu,
depois de dar sonora gargalhada:
- Meu querido genro, eu não comprei o
relógio em nenhuma ourivesaria, mas sim a
uns ciganos, na Praça da Figueira (Lisboa).
Se quiser, vá à procura dos ciganos e faça a
reclamação …
Ai o que eu tive vontade de lhe
responder, mas vá lá, só pensei…
No regresso ao jornal logo no Novo Ano,
prendi esse tal relógio no pulso direito (e
o normal no esquerdo). Para realçar mais o
tal relógio, até arregacei a manga da
camisa.
- Olhem malta, o Carlos tem um relógio
novo! – Chamou a atenção um colega.
Quase todos se levantaram das respectivas
cadeira para virem admirar a prenda da minha
sogra. Um deles reparou que a máquina não
trabalhava, o que eu logo respondi:
- Meus amigos, este relógio é só para
vocês o admirarem a sua beleza. Se quiserem
saber as horas, tenho aqui este no pulso
esquerdo!
A risada foi geral.
Ao saber do sucedido, uma colega
telefonista disse-me:
- Olha Carlos, os ciganos estavam a
vender esses relógios de fantasia, na
Estação do Rossio (comboios – trens) a 15
escudos…
Anos depois, minha esposa chamou-me a
atenção que meu filho mais velho tinha
ficado triste por o Pai Natal não lhe ter
oferecido um relógio. Quando o lhe
entreguei, a então criança chorou, deu pulos
e gritos, mas a certa altura parou com o seu
contentamento e encarou-me de frente,
perguntando-me:
- Papá, por acaso não compraste este
relógio aos ciganos, pois não?...
- Não meu filho, comprei-o numa
ourivesaria e tem garantia. Mas qual a
origem dessa tua pergunta?...
- É que tenho ouvido umas histórias de um
relógio que a avô tem deu …
Carlos Leite Ribeiro (um conto real)