A aparelhagem
sonora do hospital fez-se ouvir:
"Doutora Maria José, doutora Maria José, é favor dirigir-se ao bloco
operatório número dois, com a máxima urgência".
Maria José estava no bar a tomar a bica, depois de muitas horas de
intenso trabalho. Há dias em que os acidentes se sucedem a um ritmo
vertiginoso, e, este era um deles. Mas no dia seguinte, entraria de
férias e estaria trinta dias fora dos problemas do hospital.
Maria José acabou de beber apressadamente a bica e, dirigiu-se ao
bloco n. 2. Começou a sentir algo estranho, como uma angustia da
qual não encontrava explicação...
Subiu as escadas, empurrou várias portas e entrou no bloco
operatório. - "O que se passa, Maria do Carmo ?... tanta
urgência...". Não completou a frase, pois, a enfermeira-chefe logo a
informou: "Senhora doutora, chegou um caso muito grave, ou melhor,
mais grave do que aqueles que tivemos hoje".
-"Então o que é que aconteceu?..."
- "Outro acidentado num desastre de viação. Já está na "mesa". Estão
aqui as análises e as radiografias. É licenciado em Economia e
chama-se João Lacerda.."'
Maria José dirigiu-se então à mesa das operações, destapou o rosto
do paciente e, num misto de surpresa e de pena, exclamou:
- "Meu Deus, é o João !...".
O seu pensamento recuou alguns anos, ao tempo em que ainda era estudante
liceal. Foi quando conheceu o João - o seu primeiro amor.
Foi uma paixão intensa e até sublime, como não podia existir outra
igual. Acabaram o liceu ao mesmo tempo e, então deu-se o inevitável
afastamento. O João ficou em Lisboa a cursar Economia, enquanto ela foi
para Coimbra, onde os pais já residiam. Durante certo tempo ainda houve
trocas de telefonemas e de cartas, depois, o silêncio. Mais tarde veio a
saber que o João tinha casado, e, no Verão seguinte, também ela casou.
No seu sub-inconsciente, nos seus sonhos secretos, Maria José sempre
pensou nele. E era ele, o João Lacerda, que estava ali entre a vida e a
morte, à espera que ela o ajudasse a sobreviver...
- "Senhora Doutora, está tudo pronto para se começar a operar"-
lembrou-lhe a enfermeira-chefe, a Maria do Carmo.
A operação foi um êxito. Ao fim de seis horas, o doente podia
considerar-se fora do perigo.
Maria José dirigui-se novamente ao bar onde ia tomar a última "bica",
antes de partir para férias.
Faltavam poucos minutos para que o seu marido e os seus dois filhos a
viessem buscar, para então, todos os quatro começassem a gozar umas
merecidas férias. Sorriu. Lembrou-se do João Lacerda.
Voltou a sorrir e pensou:
"Ainda bem que consegui salvar o meu "príncipe encantado", o herói dos
meus sonhos secretos e dos momentos mais críticos que a vida nos reserva
..."