O Avô Guido de
Carlos Leite
Ribeiro
Nota do Autor: Esta novela “O Avô
Guido” é um testemunho do grande
apreço que o Portal CEN – “Cá
Estamos Nós” tem pelo trabalho
intenso e de categoria, de sua
Vice-Presidente, Iara Melo, na
passagem de mais um aniversário.
Carlos Leite Ribeiro
Apreciação de Tito
Olívio
Carlos Leite Ribeiro é um
escritor multifacetado, que se
dedica à criação literária em
diversos géneros, movendo-se com
facilidade entre a investigação
histórica e a comédia.
A obra presente, “O Avô”, é uma
gostosa comédia de teor revisteiro,
que vive de gagues e trocadilhos,
que se vão sucedendo de uma forma
tão natural, que mais parece o
desenvolvimento de uma narração de
factos reais. O humor é uma arte
difícil, sobretudo se não utiliza no
jogo peças de sucesso garantido, mas
susceptíveis de ofender alguém, como
a política, as instituições sociais
e administrativas, a moral vigente e
a religião maioritária.
O autor escolheu para este trabalho
a modalidade de teatro, que já
demonstrou dominar com naturalidade,
e os quadros apresentados atingem o
humor característico da revista à
portuguesa, sobre que assentarem
peças teatrais, detentoras de
sucesso nos palcos de outras décadas
passadas. “O Avô” é uma peça com
diversas personagens,
criteriosamente definidas e
intervenientes entre si na comédia.
Tito Olívio, poeta e escritor
Francisco Margarido Ribeiro, que
todos tratavam por “Guido”, depois
de ter terminado a instrução
primária, abandonou a sua aldeia
perto da cidade de Bragança, e foi
para casa de um tio que tinha uma
padaria em Lisboa. Foi aí que
aprendeu a arte de fazer pão.
Alguns anos depois, por sugestão de
outro tio, também industrial de
panificadora e que estava imigrado
já há anos no Brasil, Guido partiu
para terras do outro lado do
Atlântico.
E um dia, embarcou no navio Lima
que, depois de passar pelo Funchal e
por São Vicente (Cabo Verde), chegou
por fim a Salvador, onde um primo o
esperava. No dia seguinte, os primos
embarcaram em outro navio que os
transportou até à cidade do Recife.
Nos primeiros tempos na capital do
Estado de Pernambuco, trabalhou como
moço de fabricação de pão; mais
tarde o tio nomeou-o como
distribuidor e vendedor de pão em
bairros do Recife.
Numa casa de pessoas abastardas
desta cidade, conheceu um dia uma
jovem senhora, viúva de nome Maria
Mello, com um filho de tenra idade,
proprietária de uma indústria de
rapadura (*) na cidade de Triunfo.
Engraçaram um com o outro e um dia,
Guido aceitou o convite de Maria
Mello e ambos foram morar para
Triunfo. As coisas corriam bem entre
eles e o negócio de fabrico de
rapadura prosperava. O problema foi
a família da Maria, que nunca lhe
perdoou ela ter-se juntado com um
português e para mais padeiro.
Como a situação não era nada
agradável, ambos foram viver para a
cidade de Garanhuns, conhecida
também como a “cidade das flores”
onde se estabeleceram com o negócio
da rapadura e da panificação.
Pouco tempo depois de se
estabelecerem nesta cidade,
casaram-se na Igreja de Nossa
Senhora do Perpétuo Socorro, também
conhecida por Igreja de Cuscuz. Foi
uma festa familiar, pois só os
familiares do noivo estiveram
presentes.
Foi nesta festa que entre primos e
tios, combinaram em estenderem os
seus negócios pelas cidades do
Recife, Triunfo e Garanhuns.
Começaram por adquirirem postos de
abastecimento de combustível e, mais
tarde, supermercados nestas três
cidades.
Por essa altura, nasceu um filho de
ambos.
Com a idade a avançar e os filhos
criado, o casal Maria e Guido
visitaram várias vezes Portugal
passando férias perto de Bragança,
distrito de Trás-os-Montes, onde
compraram um velho e grande casarão
que aos poucos o foram recuperando.
Com a morte de Maria Mello e depois
de seus filhos, Guido regressou a
Portugal em companhia de seus dois
netos, um filho de seu filho natural
e outro de seu enteado.
(*) A rapadura é fabricada a partir
da fervura do caldo de cana, e em
seguida, é moldada e seca. Sua
fabricação iniciou-se no século XVI
nas Ilhas Canárias, território
espanhol. No mesmo século, teve
início a produção no Brasil, nos
primeiros engenhos de
cana-de-açúcar, servindo de alimento
para os escravos. Pela praticidade
de transporte e sabor agradável,
tornou-se parte da dieta alimentar
do sertanejo, e ainda hoje, é
considerada "comida de pobre”.
Fonte: Rogério Haruo Sakai
O Avô Guido
Novela de Carlos Leite Ribeiro
Aventuras! Bem-vindas sejam, sempre
que trouxerem à vida algum encanto,
alguma novidade, qualquer coisa que
saia da vulgaridade quotidiana!
Correspondendo ao seu desejo, surgiu
naquele instante, com a chegada do
imprevisto, a trocista resposta do
Destino...
Margarida, ouviu confusamente, o
ruído de uma chave na fechadura. E,
no espelho em que se mirava, viu,
cheia de surpresa, abrir-se a porta
de entrada e dar passagem a três
desconhecidos: um velho, um rapaz e
uma criança.
Com a boca aberta e um bocado de
creme na ponta do nariz, Margarida,
voltou-se muda de surpresa.
As três figuras avançavam para ela,
e a criança, um rapazito, apartou-se
dos outros, correndo a pendurar-se
ao pescoço.
- Sandro: – Mamã querida …
mamãzinha!
O espanto impediu-a de lutar contra
os seus intempestivos beijos. Quis
falar, mas a sua garganta não emitiu
qualquer som. Atrás da criança,
avançava o velho, murmurando
ternamente:
- Avô Guido: - A minha neta, a minha
netinha!
E, por último, a terceira personagem
adiantou-se, e, atraindo-a para si,
apresentou-a:
- Fernando: - Avôzinho, aqui tem a
minha mulherzinha!
Margarida, fechou os olhos. Estava
certa de que sonhava. Dentro de um
segundo, acordaria, encontrar-se-ia
na cama, ou, talvez no autocarro.
Apertou os dentes, procurando
despertar. Abriu outra vez os olhos.
Continuava em casa da sua amiga
Isabel. Não sonhava. Na sua frente,
estavam ainda o velho, o homem e a
criança, que lhe sorriam ternamente.
Avô Guido: - Filhinha, não dá um
beijo ao avô?... Desejava tanto
conhecer-te. O Fernando falou-me
muito de ti. Aproxima-te minha
querida. Os meus pobres olhos quase
já não vêem, mas, adivinho que és
muito linda...
Era o velho mais enrugado que a
jovem vira na sua vida. Não tinha um
único dente, e, muito pouco cabelo.
Parecia que o menor sopro de vento,
poderia deitá-lo por terra.
Sentia-se petrificada, e mal deu
pelo beijo que o velho lhe depôs na
sua fronte.
Fernando: - Passaram-te as dores de
cabeça, querida?... O avô lamentou
que a tua indisposição te impedisse
de nos acompanhar…
O pesadelo continua. Estariam loucos
os três?...deviam de estar, com
certeza! A começar pela feiíssima
criança que lhe chamava mamã, e a
acabar no jovem que lhe chamava sua
"mulherzinha". O jovem contaria uns
trinta anos e era muito alto e
também distinto. O cabelo castanho e
muito claro, contrastava com a sua
pele morena. Os olhos escuros e
expressivos, pousavam nela com
angustiosa insistência. Assustada,
passou a mão pela fronte,
retirando-a cheia de creme. A
convicção de que devia ter uma
aparência pouco atraente, aumentou o
seu mal-estar. Com um gesto brusco,
afastou o braço do jovem e
retrocedeu uns passos.
- Margarida: - Faça o favor de não
me tocar, ou, pedirei socorro!
- Fernando: - Que dizes, querida?
- Margarida: - Olhe que não sou sua
mulher, e, nem sequer o conheço!
Seguiu-se um minuto de silêncio,
interrompido por uma risada do
garoto, e pela voz aflautada do
velhote, que se deixara cair numa
cadeira...
- Avô Guido: - Que diz a pequena,
Fernando?... Dói-lhe ainda a cabeça?
- Fernando: - Já está melhorzinha.
Sente-se encantada por te ver,
Avôzinho. Olha lá, estás
confortavelmente instalado nessa
cadeira?
- Avô Guido - Eu, estou muito bem
assim, filho.
O denominado Fernando, voltou-se
depois para o pequeno, que mexia no
televisor, produzindo toda a sorte
de ruídos incómodos.
- Fernando: - Está quieto, Sandrito!
- Sandro: - Está bem,"papá"…
Em seguida, encarou Margarida,
dizendo-lhe em voz baixa:
- Fernando: - Queira explicar-me a
sua absurda atitude, menina. Isto
não é o que ficou combinado...
- Margarida: - O que ficou
combinado?... Mas eu não sei o que
ficou combinado...
- Fernando: - Não vai agora faltar à
sua palavra?... Comporte-se…
- Margarida: - Mas...
Alguém
toca a campainha da porta de
entrada…
- Fernando: - Vou abrir. Deve de ser
o Augusto, o criado do avô, vou
abrir a porta. entra, Augusto.
Encontraste tudo o que
precisávamos?... Leva estão tudo
para a cozinha.
- Avô Guido: - Estou muito cansado,
filhos, muito cansados mesmo. Não
devia ter vindo, pois, já não estou
para estas andanças. As viagens são
para gente mais nova. Mas o Augusto
tanto insistiu em que eu consultasse
esse especialista em Leiria, e tudo
para quê?... Para, no fim de contas,
me dizer que não tenho remédio senão
esperar a morte. Que eu morro de
velhice...
- Fernando: - Não sejas pessimista,
avô!...
- Avô Guido: - Mas não me importa
esta situação, podes acreditar.
Sabendo que és feliz, que tens
finalmente juízo e que possuis um
lar ditoso. Foi isso que me decidiu
na verdade a deixar o meu casarão em
Trás-os-Montes, e, vir até Leiria.
Queria vê-los, e conhecer a Márcia e
o meu bisneto... Augusto...mas onde
é que está o Augusto?... São horas
de tomar o remédio. Estou a ficar
muito fraco…
- Fernando: - O Augusto está a
preparar o teu café com leite.
Depois do jantar, acompanhar-te-ei
ao hotel, em São Pedro de Moel. É
pena que não possas ficar aqui, mas,
a casa é muito pequena…
- Avô Guido: - Não, não. Não quero
incomodá-los, demais, agora que
estão instalados de novo. Amanhã,
voltarei para a minha casa, e, já
não sairei mais de lá. Vocês irão
ver-me, não é verdade, Márcia, minha
filha?
- Fernando: - Márcia, não ouve o
avô?...
- Margarida: - Não me chamo Márcia.
Esta brincadeira começa a ser muito
desagradável, muito desagradável
mesmo...
- Fernando: - Claro que sim, claro
que iremos, avô. Iremos e até muitas
vezes. Mas, agora avô, vais
dispensar-nos por cinco minutos,
sim?...O Sandrito far-te-á
companhia... Mas onde está
ele?...há, estás aqui! … Faz
companhia ao Avôzinho, mas com muito
juízo!
- Sandro: - Sim,"papá"...
- Fernando: - Márcia, chega aqui à
cozinha, por favor...quero-lhe dizer
que o seu comportamento é
revoltante. Até parece que
enlouqueceu, ou se esqueceu...
- Margarida: - Os senhores são
completamente loucos!... Queira me
explicar o que se está a passar,
pois, julgo-me vítima de um
pesadelo, em que o senhor é a
principal personagem!
- Fernando: - Como?... Porventura a
senhora não é amiga da dona desta
casa?
- Margarida: - Claro que sou. Mas
não acho que isso tenha que ver
com...
- Fernando: - A Georgina disse-me
que chegara a acordo consigo.
- Margarida: - Georgina?! Quem é
essa, Georgina?
- Fernando: - É a dona da casa...
- Margarida: - A dona desta casa
chama-se Isabel, e foi ela que me
emprestou a casa, por esta noite.
- Fernando: - Mas a dona da casa,
chama-se Georgina...
- Margarida: - Georgina?... Agora,
compreendo. A Georgina, é a amiga da
Isabel.
- Fernando: - E a Isabel, quem é?...
- Margarida: - É a amiga da
Georgina!
- Fernando: - Calma, calma.
Esclareçamos isto. A menina diz que
a Isabel é ...
- Margarida: - A Isabel e a
Georgina, compartilham desta casa,
de que nós estamos a dispor com um
certo à vontade, pelo que vejo. Eu
sou amiga da Isabel...
- Fernando: - E eu, amigo da
Georgina.
- Margarida: - Muito me alegro, mas
isso não explica que o senhor me
chame sua "mulherzinha", e me
considere mãe desse horroroso rapaz
que...perdão!...esquecia-me de que é
seu filho…
- Fernando: - Não pude encontrar
outro melhor. Tem-me feito passar
umas horas insuportáveis. Cheguei ao
ponto de compreender a resolução de
Herodes…
- Margarida: - Ah, o Sandrito não é
seu filho?
- Fernando: - Não, não. Graças a
Deus que não é!
- Margarida: - Então, não estou a
compreender?...
- Margarida: - Contratei-o, tal como
contratei a si...
- Margarida: - Perdão, queira
repetir o que disse?....
- Fernando: - Disse o quê?...
- Margarida: - Isso do meu contrato.
Quero fazê-lo calar, dando-lhe um
grande bofetão e exigindo-lhe pedido
de desculpas.
- Fernando: - Como?!...
- Margarida: - O senhor é um
malcriado, um insolente, que está a
ofender-me. Eu não fui contratada
para...
- Fernando: -...para representar o
papel de digníssima esposa e mãe, o
qual, de resto, lhe foi paga com
generosidade!
- Margarida: - Decididamente, o
senhor está louco! o senhor, pagou a
mim, quando e como?
- Fernando: - Acaso, a Georgina se
esqueceu de dar-lhe os quinhentos
euros?
- Margarida: - Não conheço a
Georgina, nem nunca a vi, na minha
vida!
- Fernando: - Então, a menina, não é
a artista, companheira de Georgina
que, devia tirar-me destas
dificuldades?
- Margarida: - Não sou actriz, e,
nunca soube representar sequer
comédias de amadores.
- Fernando: - Mas que demónio é
você? Que Diabo?... Explique-se de
uma vez!
- Margarida: - Nada lhe explicarei,
se me falar nesse tom. Vou sair
imediatamente desta casa, para que o
senhor represente a sua farsa. Ou lá
o que é.
- Fernando: - Perdoe-me. Perdoe as
minhas palavras, mas estou
desesperado. Compreendo que deve
ter-se dado um equívoco. Georgina
prometeu-me que, quando eu chegasse
aqui, esta noite, me esperaria uma
sua amiga, que representaria o papel
de minha esposa. A própria Georgina
o teria interpretado, se não fosse a
sua partida para essa maldita
tournée. Entretanto, entregou-me a
chave da casa e...compreende a minha
surpresa ante a sua atitude.
- Margarida: - Mas que caso tão
intrincado…
- Fernando: - Volto a pedir-lhe que
me desculpe, menina, e agora, será
tão amável que me queira explicar…
- Margarida: - Vou explicar-lhe com
todo o prazer. Sou uma amiga da
Isabel cheguei há poucas horas a
Leiria. Embora natural desta cidade,
vivo desde muito nova em Lisboa.
Mas, voltando à questão, a Isabel
permitiu-me que passasse a noite em
sua casa. Nada mais lhe poderei
dizer.
- Fernando: - Terrível! Terrível! E
a outra, a amiga da Georgina?
- Margarida: - Quando cheguei, só cá
estava a Isabel, preparando-se para
seguir para a tournée.
- Fernando: - Será possível que a
Georgina se tenha esquecido? é uma
cabecinha de vento…
- Margarida: - Ignoro tudo quanto se
refere a Georgina, a si, ao seu avô,
e ao seu filho, senhor...senhor...
Caro senhor, agora faca o favor de
sair do quarto, para que eu mude de
roupa e me vá embora.
- Fernando: - Você vai-se embora?! E
que direi eu ao avô?!
- Margarida: - Como deve de
calcular, não me interessam os seus
problemas familiares. Tenha a
bondade de sair.
- Fernando: - Você diverte-se ao ver
um homem desesperado. Que coração o
seu!
- Margarida: - Não lhe permito que
duvide da bondade do meu coração. Se
você pudesse ver a figura que faz,
dando voltas e mais voltas, como
esses cães que tentam morder a
própria cauda!
- Fernando: - É muito impiedosa!
- Margarida: - Perdoe-me, mas quando
me assalta a vontade de rir, é
superior às minhas forcas. Na
escola, isso granjeou-me muitos
castigos. Mas adiante, Suponho que
não lhe interessarão as minhas
anedotas escolares. Leio nos seus
olhos, que o senhor não deve de
gostar muito de humor.
- Fernando: - Em troca, você deve
tê-lo em demasia.
- Margarida: - O humorismo é uma
arma defensiva, com que se escudam
os que têm excesso de
sensibilidade...Bravo!!! Que bonita
me saiu esta tirada! Sinto não poder
incluí-lo em algum artigo ou crónica…
- Fernando: - Ah, você é escritora?
- Margarida: Não o diga por troça.
Pode ser-se escritora e não ter
bigode, nem usar óculos e gravata.
Sou jornalista. Ou, antes, fui.
Agora sou secretária particular.
- Fernando: - Muito particular?
- Manuela: - Porquê?...
- Fernando: - É que não tem aspecto
de secretária.
- Margarida: O que lhe pareço,
então?
- Fernando: - Olhe, se quer que lhe
diga a verdade, uma menina...e
malcriada.
- Margarida: - É muito amável.
Começo a achá-lo simpatiquíssimo…
- Fernando: - Está a rir-se de mim,
sem ter em conta a minha situação.
Ria-se, ria-se à vontade. Tudo isto
acontece por eu ser um sentimental!
- Margarida: - Sentimental?! Que
enorme surpresa!
- Fernando: - Naturalmente. No fim
de contas, que lhe importa que o
velho sofra um desgosto ou que
morra?
- Margarida: - O velho? Refere-se ao
seu avô?
- Fernando: - Não é meu avô.
- Margarida: - Engraçadíssimo!!! O
senhor tem um filho que não é seu
filho; uma esposa que não é sua
esposa; um avô que não é seu avô...E
o criado? Por acaso o criado é
autêntico, ou será... algum príncipe
encantado?!
- Fernando: - Meu avô, não é meu
avô, embora quase o seja...
- Margarida: - Que originalidade!
Ter um "quase avô"!
- Fernando: - É avô do meu
meio-irmão... do Fernando...
- Margarida: - Fernando?!... Também
possui um nome...que não é seu
nome?...
- Fernando: - O meu nome é Josué.
Fernando era meu irmão...
- Margarida: - Era?!...
- Fernando: - Pois era. Morreu há
poucos meses, num brutal desastre.
- Margarida: - Cada vez o entendo
menos…
- Fernando: -E, contudo, é muito
fácil entender. O velho julga que eu
sou o Fernando. E eu deixo-o nessa
ilusão. Está meio cego, meio surdo,
e com a vida segura por um fio. Tem
quase noventa e cinco anos. A sua
cabeça já não está tão lúcida como
dantes. Nem o Augusto, nem eu, nos
atrevemos a participar-lhe a morte
do neto. Queria-lhe com loucura. Há
pouco tempo, esteve à morte, com um
ataque cardíaco. Fui a
Trás-os-Montes visitá-lo. Ao abrir
os olhos, tomou-me pelo Fernando,
julgando que ele regressara da
América.
- Margarida: - O seu irmão vivia na
América?
- Fernando: - Pois...pois...na
realidade, não vivia. Sinto que faça
má ideia de meu irmão. Era um pouco
desorientado, mas... e não, não
vivia na América. Mas o avô
julgava-o lá. Fui tudo por causa de
um caso bastante infeliz, que o avô
teve de resolver à força de
dinheiro. Disse que ia para a
América, a fim de regenerar-se…
- Margarida: - Mas, não foi?...
- Fernando: - Não. Dedicou-se a
passear pela Europa, gastando assim
a quantia que lhe deu para
empreender vida nova. Todavia, por
intermédio de um amigo, escrevia "da
América"para o avô. Custa-me um
pouco contar-lhe isto...
- Margarida: - Você, gostava do seu
meio-irmão?
- Fernando: - Eu gostava do meu
irmão, embora, só nos víssemos de
longe em longe.
- Margarida: - Então, o Fernando
nunca mais pediu dinheiro ao avô?
- Fernando: - Ah, pediu, pediu. Para
obter mais dinheiro do velhote.
Ocorreu-lhe dizer que se casara. Era
um bom estratagema. Imagine: as
despesas com as casas, os filhos, as
doenças destes, etc. Era um
verdadeiro achado. Assim, decorreram
sete anos, e assim passaria toda a
vida, se, entretanto, não tivesse
morrido...
- Margarida: - Naturalmente, que
isso do casamento, não era verdade?
- Fernando: - Não era não, por
felicidade!
- Margarida: - Começo a compreender
a situação.
- Fernando: - E assim, como o avô
não via nenhum de nós há muitos
anos, confundiu-nos. Fisicamente,
parecíamos extraordinariamente,
apesar de sermos apenas irmãos, por
parte da mãe.
- Margarida: - E por isso, o senhor
se converteu em Fernando?...
- Fernando: - Só para o avô, está
claro. Era muito fácil. Bastava
escrever-lhe e visitá-lo a miúdo.
Mas surgiu uma complicação, quando
melhorou dos seus achaques e
recobrou parte da sua lucidez…
- Margarida: - Lembrou-se então da
família, não é assim?
- Fernando: - Sim, e dos numerosos
filhos do Fernando…
- Margarida: - Então, quantos eram
eles?
- Fernando: - Muitos! Por
felicidade, o meu irmão tinha-os
"matado"um a um, afim de obter o
costumado auxílio para os
"funerais".Só lhe restava o mais
velhito…
- Margarida: - Adivinho o resto da
história: o senhor teve de contratar
uma família!
- Fernando: - O Augusto,
telefonou-me ontem, muito alarmado,
a avisar-me que o avô viria
consultar um especialista a Leiria
e, aproveitava para nos visitar.
Contei tudo à Georgina, que foi quem
me sugeriu esta farsa, decerto pelo
seu hábito de interpretar comédias.
O projecto parecia muito simples.
Para mais, o avô partirá amanhã, e,
não é provável que volte. O médico
deu-me esta tarde, poucas
esperanças. Os seus dias estão
contados…
- Margarida: - Pobre velho… E o
senhor estima muito esse avô, que
não é verdadeiramente, seu avô?
- Fernando: - Devo-lhe eterna
gratidão. Quando a nossa mãe morreu,
o avô recolheu o Fernando, que era
seu neto, e também a mim, que estava
sozinho no mundo, e, que nada lhe
era familiarmente. Custeou a minha
educação, deu-me uma carreira, e,
graças à sua ajuda, consegui
caminhar na vida. Agora, tenho o
ensejo de fazer alguma coisa por
ele, mas a fatalidade, quase o não
consente. Sim, é lamentável, mas
deve compreender que não tenho
culpa.
- Margarida: - Compreendo e avalio o
seu assombro, ao defrontar-se com
uma família caída do céu. Sobretudo
esse terrível garoto. Onde é que o
senhor o foi buscar?
- Fernando: - É filho da minha
empregada doméstica. Não consegui
encontrar outro melhor. É muito
descarado, mas representa muito bem,
não é verdade?
- Margarida: - Deu-me uns beijos tão
ferozes, que ainda estou aturdida.
Podia tê-lo escolhido mais engraçado
e mais meigo!
- Fernando: - É bem verdade que não
me posso orgulhar muito do meu
"rebento". Que desastre... E eu a
pensar que tudo parecia continuar a
correr bem … Ainda a senhora não
sabe o pior do caso…
- Margarida: - Ah... ainda mais
complicações?
- Fernando: - Muito mais. Não sei se
lhe disse o meu nome?...
- Margarida: - Ainda não disse, não…
- Fernando: - Desculpe-me, mas a
confusão tem sido tanta. Chamo-me
Josué Teixeira.
- Margarida: - Josué Teixeira?!...
Então o senhor é o célebre
compositor?
- Fernando: - Célebre, ainda não.
Agradeço-lhe o adjectivo. Por
enquanto, só compus músicas
modernas, que, felizmente tiveram
muita aceitação.
- Margarida: - Pelo menos,
tornaram-no popular.
- Fernando: - Talvez. Olhe, hoje vou
dirigir a orquestra na Marinha
Grande.
Não se recordava, precisamente, se
fora Josué Teixeira (o Fernando)
quem lhe pedira que continuasse a
farsa, ou se fora ela própria que se
resolvera, espontaneamente, a
persegui-la, reencarnando a suposta
esposa do desvairado e verdadeiro
Fernando, já falecido. Bom maroto
fora esse rapaz! Mas não devemos
falar mal dos mortos...
Pintou os lábios, e pintou os olhos.
Queria parecer bonita, pelo inato
desejo feminino do agradar, e para o
palco!
Ao abrir a porta do quarto, sentiu a
comoção da actriz que vê erguer-se o
pano da noite da sua estreia. Não
desejava aventuras?... Pois aí
estava a mais original que teria
podido sonhar. Só por umas horas, e
tudo isto pouco tempo depois de ter
descido do "Expresso"que a trouxera
de Lisboa.
O avô Guido dormitava na salita,
encolhido na mesma cadeira.
Margarida atravessou nas pontas dos
pés, e entrou na sala de jantar
atraída pelo ruído de loucas e de
vidros. A mesa apresentava um
soberbo aspecto, coberta com uma
toalha bordada, sobre a qual, se
destacava um centro de mesa, cheio
de rosas. O próprio Josué dispunha
tudo, ajudado pelo Augusto...
- Margarida: - Observo que o senhor
é um bom dono de casa...
- Fernando: - Acha?!... Olhe, quer
um Porto? Dar-lhe-á ânimo…
- Margarida: - Aceito, pelo nosso
"feliz lar"...
- Fernando: -Em honra da minha
desconhecida "esposa"! Augusto, está
tudo pronto e em ordem?
- Augusto: - Tudo pronto, senhor
Josué. Creio que podemos começar a
comer imediatamente, pois o senhor
seu avô, deve recolher cedo ao
hotel.
- Sandro: - Olhem lá, então, nesta
casa nunca mais se come? Tenho cá
uma fome...
-Augusto: - Cale-se menino, não seja
mal-educado. Vamos já começar a
jantar.
- Sandro: - Olhem lá, dão-me todas
essas coisas boas que estão na
cozinha?
- Fernando: - Se tiveres juízo,
damos de tudo.
- Sandro: - Ai que bom, que bom!!!
- Margarida: - Anda, vem ao quarto
de banho lavar as mãos, pois, vamos
já sentar-nos à mesa.
- Fernando: - Avô Guido, avô Guido,
acorde, venha jantar!
Avô Guido: - Já vou indo, já vou
indo... bonitas flores,
pequena...tens que ir à minha
quinta, lá em Trás-os-Montes, para
veres as flores bonitas que eu tenho
lá na estufa. Dantes, eu próprio
cuidava delas, mas agora, estão ao
cuidado do Augusto. Fernando, meu
filho, porque não deixas a Margarida
e o pequeno irem amanhã comigo, lá
para o Norte?
- Fernando: - Impossível, avô!
- Avô Guido: - Impossível, porquê?
- Fernando: - Por... por...
- Margarida: - Por causa do colégio
do Sandrito. Sabe, ele é muito
aplicado e não quer perder as
aulas... Até está a preparar-se para
passar de classe...
- Avô Guido: - Era só uns diazitos...
- Fernando: - Iremos todos nas
próximas férias. Agora, não posso
deixar os meus negócios, avô…e além
disso, não quero separar-me da minha
mulherzinha!
- Ave Guido: - Isso agrada-me, isso
agrada-me. Sinto-me feliz ao
sabe-los amigos um do outro. Tu,
minha filha, conseguiste torná-lo
ajuizado. Houve tempo que receei
que... Mas tudo isso passou. Agora,
és um chefe de família exemplar, um
marido modelo. A tua mulherzinha é
encantadora, e o Sandrito…
- Fernando: - O Sandrito é um anjo…
- Sandro – Socorro!!! Socorro!!! Ai,
que me afogo, que me afogo!!! Quem
me acode?!
Ao ouvir este apelo do pequeno, logo
Margarida e Josué se dirigiram ao
quarto de banho. O quadro que se
deparou, encheu-os de consternação:
Sandrito, amigo de mexer em tudo,
manobrara as torneiras do duche, e,
ficara literalmente encharcado. Até
pelos ouvidos deitava água.
- Avô Guido: - Que aconteceu ao meu
netinho?...
- Fernando: - Nada avô, nada de
importância. O Sandrito molhou-se um
"pouco".
-Avô Guido: - Então, mudem-lhe a
roupa rapidamente, não vá ele
engripar-se.
- Fernando: - Que pena ele
engripar-se. Maldito rapaz, que
fizeste para ficares neste
deplorável estado?
- Sandro: - Foi sem querer…
- Fernando: - Sem quer? És um
estúpido, isso é que és!
- Sandro: - Eu quero ir para minha
casa, eu quero a minha mãe!
- Fernando: - Querias... Querias a
tua mãe, mas não vais, nem por
sombras.
-Sandro: - Ai, isso é que vou!
vou... vou...
- Fernando: - Não grites, senão
afogo-te...
- Margarida: - Calma, calma, por
favor, eu tratarei do Sandrito...
- Sandrito: - O meu nome é Paulo.
Não quero chamar-me Sandrito. Nunca
mais. Vocês são maus e malucos. Eu
quero a minha mãe!
- Margarida: - Paulo, não grites
tanto, porque assim o avô
assusta-se, se te ouve....
- Sandro: - Esse velho não é meu
avô, nem você é minha mãe, nem
aquele é meu pai. Estou farto de
vocês, que são uns malucos. Não
quero jogar mais este jogo, quero ir
para casa de minha mãe!
- Margarida: - Deixe para mim as
questões diplomáticas, Josué. Ouve,
Sandrito querido, não te ponhas
assim zangado, pois, ainda nos
havemos de nos divertir muito.
Aconselho-te a não ires embora, sem
comeres aquelas coisas boas que
estão na mesa...
- Sandro: - Já comi um pudim, e,
ninguém viu…
- Margarida: - Ah sim? e, olha lá, o
pudim era bom?
- Sandro: - Se era bom, até lambi o
prato!
- Margarida: -- E o pudim era
de...baunilha, não era?
- Sandro: - Não. Era de chocolate…
- Margarida: - Que pena! os de
morango, são os melhores . Pelo
menos, eu gosto mais deles...
- Sandro: - E eu também…
- Margarida: - Pois não percas a
ocasião, palerma. Podes comer todos
quantos quiseres...
- Sandro: - Quantos? Pode ser quinze
pudins?
- Margarida: - Tantos, não. Até
podiam fazer-te mal.
- Sandro: - Não, não...se não me dás
quinze, vou-me embora, e, já...
- Margarida: - Quinze pudins?...
Isso é pudins a mais... Podias até
rebentar...
- Sandro: - E se eu rebentar, a
vocês não aconteceria o mesmo?
- Margarida: - Bem. Terás os quinze
pudins, mas tens de prometeres que
continuarás a representar o teu
papel de Sandrito, até o avô se ir
embora. De acordo?
- Sandro: - Está bem. Mas eu quero
os quinze pudins...
- Margarida: - À mesa, procura falar
o menos possível. Sabes, assim
poderás comer mais coisas boas.
- Sandro: - Isso tudo, estou de
acordo. Mas agora diga-me, que roupa
é que a "mamã"me vai vestir?
- Margarida: - Sei lá, olha,
enquanto a roupa seca, vais vestir
uma bata minha. Olha lá, mas que é
isto que tens aqui no braço?
- Sandro: - É a tatuagem das "Lobos
Maus", e eu sou o chefe!
- Margarida: - Sim?!... Deves ser
muito valente, e, por isso te
nomearam chefe!
- Sandro: - Lá no bairro, ninguém me
bate, e estão todos às minhas
ordens.
- Margarida: - Estás a ver que és um
homem importante. Fica aí quietinho
que já te trago a roupa... E depois
despacha-te para ir-mos para a mesa.
- Avô Guido: - Diz-me, Márcia,
adaptas-te bem à tua nova vida, não
tiveste pena de deixar a América?
- Margarida: - Em toda a parte se
pode estar bem, desde que o "nosso
querido marido” nos acompanhe…
- Avô Guido: - E tu, Sandrito? Não
passas aqui melhor do que na
América?
- Fernando: - O Sandrito gosta muito
de cá estar...
- Sandro: - Eu gostava mais de lá
estar …
- Avô Guido: - Ah, sim, então
porquê?
- Sandro: - Divertia-me mais. Andava
com o meu bando "Lobos Maus",e ia
para outras galáxias. Assim...
- Margarida: - Come Sandrito. Não
brinques. Queres mais um pedacinho
de fiambre?
- Sandro: - Sim,"mamã", e dá-me
também disso aí verde…
- Margarida: - Gelatina?
- Sandro: - Sim, mas que não se
desfaça, pois gosto de comê-la com
os dedos.
À roda daquela mesa, estavam
sentadas pessoas tão diferentes umas
das outras: o decrépito ancião, com
a sua reluzente careca; o atraente
Josué Teixeira; a linda jovem
Margarida; e o endiabrado rapazito,
que mantinha em sobressalto os
falsos pais.
A essa hora, á estaria Isabel em
algures na sua tournée. Quão longe
estaria ela de pensar que a sua casa
servia nesse momento de palco a uma
peça cómica...cómica? Analisando
melhor, também tinha os seus
aspectos trágicos.
A ignorada morte do verdadeiro
Fernando, a comovedora velhice do
avô, o empenho de um rapaz
agradecido, em evitar um grande
desgosto ao seu benfeitor…
- Avô Guido: - Augusto, o meu
remédio. Tu já te tinhas esquecido?
- Augusto: - Está aqui, senhor
Guido. Olhe que eu nunca me
esqueci...
- Avô Guido: - Sabes, minha filha,
não posso sair de casa sem levar
atrás de mim, uma farmácia. Este
maldito coração... Mas espero que
não dure muito...
- Margarida: - Não diga isso, avô.
Olhe que está com um óptimo aspecto!
- Avô Guido: - Ora, ora. Não te
aflijas, filha. Depois de vos ter
visto tão felizes e contentes, nada
mais me resta a fazer neste mundo.
Vivi muito e a vida também cansa.
Ir-me-ei tranquilamente, sabendo que
o Fernando escolheu uma boa
companheira. Toda esta favorável
mudança do meu neto, é obra tua,
Márcia, e, bendigo-te por ela.
- Margarida: - O Fernando sempre
teve bom coração.
- Avô Guido: - Sim. Disso, estou
certo, pois não desmente a minha
raça. Todos nós, na juventude, fomos
um pouco loucos, mas sem graves
consequências. E agora me lembro,
que é feito do teu irmão Josué?
- Fernando: - Josué?... Ah sim,
Josué. Pois continua a dar muitos
concertos no estrangeiro. Ele está
bem...
- Avô Guido: - Costuma escrever-me
pelo Natal. Há quanto tempo que não
o vejo. É um bom rapaz, o Josué!
- Fernando: - Pois, concordo, não há
melhor do que ele.
- Margarida: - Eu, pessoalmente,
acho-o um pouco presumido. Claro,
que só o conheço por carta...
- Avô Guido: - Presumido?! Talvez se
tenha tornado assim agora, depois
que compõe música. Ele continua com
a mesma mania da música, não
continua, Fernando?
- Fernando: - Creio que sim, avô. E
parece que ganha bastante dinheiro.
- Avô Guido: - Ora, tolices! Eu não
consigo compreender esta música
moderna. Para mim, é um chinfrim que
me ataca os nervos. Mas sejamos
justos com Josué, o único defeito
que ele tinha, era ser mais
sossegado, mais obediente e mais
aplicado do que tu, meu filho. Isto
não podia eu perdoar-lhe, quando
vocês eram pequenos. O meu
amor-próprio de avô sofria, embora
procurasse sempre dissimulá-lo.
- Fernando: - Ele estima-o muito,
avô!
- Avô Guido: - E eu a ele. Parece
que os estou a ver, quando tinham
quinze anos. Vocês eram tão
parecidos, que toda a gente os
confundia. Mas tu eras muito alegre
e brincalhão, ao passo que o Josué
era mais comedido. Tomava a vida
demasiadamente a sério. Punha tal
veemência nos seus afectos e nos
rancores, que me assustava...
- Margarida: - Muito interessante,
gostava de travar mais amistosas
relações com ele...
- Avô Guido: - Isso, também lhe
agradaria, tenho a certeza. Vocês
dar-se-iam muito bem.
- Margarida: - Talvez não,
assusta-me tal veemência...
- Avô Guido: - Ele continua
solteiro? Ouvi dizer que tinha
grandes êxitos junto das mulheres...
- Fernando: - Ora, não acredite,
avô. São só gabarolices!
- Avô Guido: - Gabarolices?! Mas tu
próprio me disseste repetidas vezes
que, as mulheres eram loucas por
ele.
- Fernando: - Disse-o por graça, por
troça...
- Avô Guido: - Nada disso. Lembro-me
perfeitamente daquela artista
brasileira, que esteve quase a
suicidar-se por causa dele; e
daquela milionária americana, que
não conseguiu que o Josué casasse
com ela, embora o seguisse por toda
a parte. E de tantas outras…
- Fernando: - Mas isso já foi há
muito tempo...
- Avô Guido: - Mas tu próprio me
contaste tudo isso. Teu irmão é um
conquistador como não há outro
igual!
- Margarida: - Safa! Que homem tão
perigoso, esse Josué!
- Sandro: - Mamã, só comi oito
pudins, e, tu prometeste-me quinze!
- Avô Guido - Quinze pudins?! Mas
isso é um disparate!
- Sandro: - Quero quinze pudins, já
disse e bato o pé!
- Margarida: - Obedece ao avô,
menino... (está calado, pois,
comerás os outros na cozinha, não
sejas palerma...)
- Avô Guido: - Conheci um menino que
morreu de indigestão, por ter comido
quinze pudins.
- Sandro: - Isso são histórias! E se
eu morrer, melhor para mim, pois, o
meu pai diz que eu sou "carne para
canhão”.
- Avô Guido: - "Carne para canhão",
que horror! Teu pai diz isso?
- Fernando: - Digo por brincadeira,
avô. Esse pequeno é um tontinho.
- Avô Guido: - Pois, é uma
brincadeira de muito mau gosto,
Fernando. Parece-me que vocês estão
a criar muito mal este menino.
Deviam mandá-lo para um colégio
interno...
- Margarida: - Tem muita razão,
avô...
Ia para acrescentar mais qualquer
coisa mas ficou em suspenso, ao
escutar o ruído de uma chave rodando
na fechadura.
Poucos segundos depois, dava entrada
na sala de jantar, uma nova
personagem…
- Clara: - Boas noites a todos!
Fizeram muito bem em sentarem-se à
mesa sem esperar por mim. A culpa do
meu atraso foi, a maldita modista.
Olá "maridinho", meu querido
Nandinho!...Olá "filhinho " querido,
luz dos meus olhos! Olá Avôzinho, um
beijo muito grande; Vá lá, outro
beijinho querido avozinho! Quantos
desejos tinha em conhecê-lo, mas
finalmente hoje, é o grande momento!
O Fernando estava sempre a falar-me
de si. Até começava a sentir ciúmes
do Avôzinho…
- Avô Guido: - Mas quem é esta
menina, Fernando?
- Fernando : - É...é...é... anda
querida, apresenta-a tu…
- Margarida: - Eu?!...eeeuuuu?!...
- Augusto: - Ponho outro talher para
a "irmã da senhora"?...
- Fernando: - Sim, sim...pois
claro... Avô, apresento-te a minha
cunhadinha. Vive aqui connosco…
- Margarida: - É minha irmã, a minha
irmã Clara! Ela desejava muito
conhecer o avô....senta-te, querida,
pois, estás muito cansadinha.
Trabalhas demasiado...
- Clara: - Não estou a perceber nada
disto… O criado só sabe falar por
meio de sinais, será que seja mudo?
- Augusto - A menina Clara, por
acaso não quer tirar o casaco?...
- Avô Guido: - Tua cunhada,
Fernando?! Então ela não tinha
morrido de uma pneumonia?....
- Clara: - Não diga isso! Lagarto,
lagarto, lagarto! Morrido, eu...,
belisquem-me por favor, para ter a
certeza de estar vivinha!
- Avô Guido: - Mas lembro-me que tu
escreveste a dizer-me que ela tinha
morrido, há cerca de três anos. Até
me lembro que te enviei, mil e
quinhentos euros para pagares o
hospital e despesas com o enterro. A
carta em que nos descrevias os seus
últimos angustiosos momentos fez-nos
chorar a mim e ao Augusto. Não é
assim, Augusto?
- Augusto: - É verdade, senhor
Guido. Mas tratava-se da morte da
irmã mais nova da senhora. Esta é a
irmã mais "velha"…
- Margarida: - Sim, é isso tudo, a
Clarita é a mais velha de todas. Foi
a nossa mãezinha, conseguiu
livrar-nos da miséria, com o seu
trabalho, quando ficámos órfãs. É
uma mulher exemplar...
- Fernando: - Um autêntico anjo de
bondade…
- Avô Guido: - Tudo isso a honra
muito. E em que trabalhas, minha
filha?...
- Clara: - Eu?! Eu... sou Corista e
Bailarina…
- Avô Guido: - Corista?... Em que
coro, minha filha?
- Margarida: - Sabe avô, a Clara tem
boa voz (e também dança muito bem),
é vocalista do...do...do Coro
Universal para Ajudar Pessoas
Carenciadas. É isso…
- Avô Guido: - Então, esse meritório
trabalho dá-lhe muitas horas de
ocupação?
- Clara: - Nem imagina! Todo o dia a
cantar e a dançar. Então, hoje, foi
demais. Por isso é que cheguei tão
atrasada!
- Fernando: - Pobrezinha! Essas
danças cansam-te tanto...
- Clara: - Lá isso é
verdade...maldito número desta
revista…
- Sandro: - Mamã, mamã, espero que
"esta"não coma agora os pudins
todos!
- Margarida: - Não querido “filho”,
bem sabes que a tia Clara, não gosta
nem pode comer doces...
- Avô Guido: - Pois estou muito
impressionada consigo, Clara. Mas
diga-me, em que consiste esse grupo
"Universal para Ajudar Pessoas
Carenciadas"?
- Clara: - Ah...dão
festas...cantam...dançam...
- Fernando: - Em benefício,
principalmente, das crianças
pobres...
- Avô Guido: - Sinto muito que a
minha surdez não me permita apreciar
o seu timbre de voz, mas gostava de
a ver dançar...
- Clara: - Se tem muito empenho
disso, dançarei.
- Sandro : - Dance...dance...Farça a
vontade ao « meu » avô !
- Fernando: - Basta, querida, não te
canses mais. O avô já apreciou tua
arte.
- Sandro: – Continue, continue,
"tiazinha", que essa dança é muito
gira!
- Margarida: - Não, não. A tia Clara
está fatigadíssima e, além disso, é
muito tarde para o avô. Não é
verdade, Augusto?...
- Augusto: - Tem razão, o senhor já
devia de estar a descansar.
Precisamos de voltar para o hotel,
senhor Gildo...
- Avô Guido: - Estás sempre a
enfastiar-me, maçador... Parece que
sou um menino irrequieto. Estava
agora a divertir-me bastante... em
outro dia dançará mais para mim,
filhinha. Hás-de ir a Trás-os-Montes,
quando os meus pequenos forem. Tive
muito prazer em conhecer-te.
Continua a trabalhar. Consentes que
te entregue um donativozinho para
esse Grupo, a que pertences?
- Clara: - Aceito e com muito
prazer!
- Avô Guido: - Augusto, dá duzentos
euros a esta menina. O Augusto é
quem traz sempre a minha carteira,
pois, estou muito velho, e perco
tudo…
- Augusto: - Tome lá, menina
Clara...
- Clara: - Mas estão aqui só cento e
cinquenta “amigo”, e o avô disse
para me dar duzentos. Caridade é
caridade...
- Augusto: - Tem razão, desculpe e
tome lá o resto.
- Avô Guido: - Não me vem
acompanhar, Márcia?
- Margarida: - Eu?! Sim, sim vou.
Preciso certificar-me de que o
senhor vai para a sua caminha. Não
lhe permito que vá para a pândega,
para a farra!
- Avô Guido: - És muito querida,
filhinha!
- Fernando: - Fica tu com o Sandro,
Clarinha. Voltaremos rapidamente...
onde se meteu o avô?
- Margarida: - Ele já vem, espere um
pouco.
- Fernando: - Sinto que se incomode,
acompanhando-nos. Ou prefere que a
desculpe junto ao avô, dizendo que
tem de deitar o Sandrito?
- Margarida: - Não, obrigado mas
irei com ele até ao hotel. Pobre
velhote! Cumprirei até ao fim a
minha missão.
- Fernando: - Você é a pessoa mais
encantadora que...
- Margarida: - Basta, por favor.
Deixe os cumprimentos para quando
tiver findado a comédia que, por
sorte, só tem um acto. Caso
contrário, o desastre seria
inevitável. As minhas aptidões
dramáticas, não chegariam para mais!
- Fernando: - Neste caso, todo o
êxito se deve à primeira actriz...
O ar fresco da noite, aliviou-lhe os
nervos, postos rudemente à prova.
Suspiraram ambos depois de terem
deixado o avô, instalado nos seus
aposentos, entregues aos cuidados do
Augusto.
- Margarida: - Até que enfim que
acabou esta comédia (suspirou
profundamente)
As despedidas tinham-se realizado
sem contratempo algum, e o ancião
contava com a promessa de que iriam
visitá-lo nas próximas férias. Até
lá. Josué, teria tempo de inventar
um pretexto qualquer, isto, no caso
da abalada saúde do velho, se manter
incólume. Mas, Josué tinha poucas
ilusões, pois, a vida do avô Guido,
parecia uma chama prestes a
apagar-se.
- Fernando: - Margarida, está
contente por tudo ter findado?
- Margarida: - Estou. E felizmente
com êxito. Mas, quer crer que me
comoveu a despedida do avozinho?
- Fernando: - Acredito que sim.
Nunca mais voltarei a pôr em dúvida
a bondade do seu coraçãozinho. Você
é a mais adorável criatura que...
Bom, não sei que dizer-lhe... estou
completamente desconcertado, além de
comovido.
- Margarida: - Porquê?
- Fernando: - Como poderei
agradecer-lhe quanto fez por mim?
- Margarida: - Não seja
presunçoso...
- Fernando: - Porquê presunçoso?...
- Margarida: - O que eu fiz, foi por
causa do avô. Os velhinhos
enternecem-me... adoro-os...
- Fernando: - Felizes os que têm a
barba branca...mas enfim, seja como
for, muito obrigado. Você tirou-me
de uma grande dificuldade e, quisera
que houvesse algum meio humano de
lhe manifestar a minha gratidão. Mas
não... não cometerei a tolice de lhe
enviar um ramo de flores ou uma
caixa de bombons. A única coisa que
posso lhe oferecer, é a minha
incondicional amizade...
- Margarida: - Bom, aprecio-o pelo
que vale. Mas não se mortifique
mais. Deixemos de lado as difíceis
manifestações de agradecimentos. E
agora, adeus e passe muito bem.
- Fernando: - Como?! Não a quer que
a leve a casa de carro a casa?
- Margarida: - Não é necessário.
Fica perto e, um passeio a pé,
aliviar-me á a cabeça ...
- Fernando: - Você é que sabe…
- Margarida: - Por outro lado, o
Josué tem os minutos contados, pois,
ainda terá que ir a casa vestir o
trajo de cerimónia, antes de começar
o concerto…
- Fernando: - Você revoluciona todas
as minhas anteriores opiniões a
respeito das mulheres. Jamais,
conheci outra que fosse tão
razoável. Mas, de qualquer modo, não
julgue que a deixarei ir sozinha.
Vá...suba para o meu carro...
- Margarida: - Você, ignora que eu
sou a teimosia personalizada. Não
perca mais tempo...Adeus, diremos
que, foi o fim da Comédia!
- Fernando: - Será capaz de
afastar-se sem ao menos me dizer o
seu verdadeiro nome?
- Margarida: - Para quê?...
Agrada-me isto de desaparecer da sua
vida, tal como nela me introduzi:
repentinamente!
- Fernando: - Mas é que, não posso
permitir…
- Margarida: - O que não é que pode
permitir?...
- Fernando: - Disse há pouco que
aceitava a minha amizade, e, agora,
pretende deixar-me sem a esperança
de tornar a vê-la. Não seja assim...
- Margarida: - É melhor assim. Pela
terceira vez, adeus, senhor Josué
Teixeira. Desejo-lhe um grande êxito
esta noite.
- Fernando: - Escute, porque não vem
ao meu concerto? …estou certo de que
me traria sorte.
- Margarida: - Agradeço-lhe, mas não
é possível. Lembre-se de que cheguei
de Lisboa ainda há poucas horas.
Devo de ir dormir, pois, amanhã
espera-me um dia de grandes
comoções...
- Fernando: - Que espécie de
comoções?
- Margarida: - É assunto privado…
- Fernando: - Perdão, já sei que não
tenho o direito de dirigir-lhe
perguntas. Bem...apesar de tudo, não
lhe digo adeus, mas sim até à vista.
Encontrar-nos-emos muito em breve,
asseguro-lhe…
- Margarida: - Quem sabe?... A vida
é uma surpresa contínua...
- Fernando: - Boas noites,
desconhecida "esposa". Que Deus a
abençoe pelo bem que me fez...
- Margarida: - Boas noites “esposo".
Que as Musas o coroem de louros!...
Ao afastar-se, Margarida começou a
trautear, em voz baixa, uma canção e
tratou de apagar do pensamento a
imagem de Josué Teixeira, como quem
passa uma esponja pelo quadro preto
de uma sala de aula. Contudo, ao
entrar de novo na confortável casa
de Isabel, a imagem voltou a
sair-lhe ao caminho. Mais precisa e
insistente do que nunca...
- Clara: - Já de volta?! Não a ouvi
entrar...
- Margarida: - Ah, é você... Não
toquei a campainha, porque a Isabel
emprestou-me uma chave. Já deixámos
o avô no hotel...
- Clara: - E o Josué Teixeira?
- Margarida: - Seguiu a toda a
pressa para o seu concerto...
- Clara: - É verdade, já nem me
lembrava. Bom, você quer explicar-me
o que aconteceu.?!... Suponho que,
por ter chegado um pouco tarde, não
vai reclamar os quinhentos euros?...
- Margarida: - Os quinhentos
euros?...oh, não. Não de preocupe,
pois, procedi desinteressadamente...
- Clara: - Agradeço-lhe muito que
não peça o dinheiro. Não pode
imaginar quanto preciso dele.
Trabalho numa companhia de Teatro.
Calcule a minha aflição, ao ver que
se fazia tarde...
- Margarida: - A sua “entrada”, é
que ia estragando tudo!
- Clara: - Compreendo que a minha
"entrada"foi bastante inoportuna.
Desculpe...
- Margarida: - Não tenha nada a
desculpar...
- Clara: - Por sorte, o velho deu-me
mais duzentos euros!
- Margarida: - O avô gostou de si.
- Clara: - Esse pobre avô é uma
calamidade! sentia pena ao
enganá-lo. Porque fará Josué
Teixeira, isso ao velhote, será por
causa da herança?
- Margarida: - Por causa da
herança?... Não! Bem, lamento
deixá-la sozinha, mas vou deitar-me,
pois, tenho de me levantar cedo.
- Clara: - Ouça, ouça, não se vá
ainda...que vamos fazer com o "demónio”?
- Margarida: - Com o "Demónio"?
- Clara: - Sim, esse endemoninhado
rapaz...
- Margarida: - O Paulo (ou o
Sandro)?... É verdade. Tinha-me
esquecido dele. Onde é que ele está?
- Clara: - Na cozinha. Estragou o
aparelho da televisão, e, agora
procura fazer o mesmo ao
frigorífico. Não consigo que ele me
obedeça…
- Margarida: - Vamos ver o que o "demónio",
como você diz, está a fazer?...
- Sandro: - Já chegou?... Que há?...
Não olhe assim para mim que me põe
nervoso…
- Margarida: - Nada...larga já esses
bolos, e, Também não me olhes com
essa cara!
- Sandro: - Que tem a minha cara,
que é tão lindinha? Além disso não
tenho outra.
- Margarida: - O que é uma pena…
- Sandro: - Que rica "mamã", que
você me saiu!
- Margarida: - Manchaste-me a bata.
Está cheia de nódoas. És um
verdadeiro"demónio"!
- Sandro: - Melhor para mim, eu até
me considero um “demónio”!
- Margarida: - Parece-me que vou
dar-te uma bofetada…
- Sandro: - Se me bater, mordo-te
toda...Toda… Toda… Todinha!
- Margarida: - Você, Clara, devia
levá-lo a casa. É filho da empregada
do Josué…
- Clara: - E aonde mora o Josué
Teixeira?
- Margarida: - Não sei!
- Clara: - Também não sei. Onde
moras tu, Paulo?
- Sandro: - Não te digo. Não vou
sair daqui sem ordem do senhor
Josué…
- Margarida: - O senhor Josué, não
virá esta noite…
- Sandro: - Nesse caso, ficarei aqui
até ele aparecer. Ainda há muitos
doces!
- Margarida: - Desinteresso-me deste
assunto. Você é que ganhou o
dinheiro, portanto, tome conta deste
"anjinho". Boas noites.
- Clara: - Está bem, deixe-o comigo.
Esta noite não tenho espectáculo. Se
este "demónio"se tornar
demasiadamente intratável, meto-o no
frigorífico, ou mesmo na arca
frigorífica!
- Margarida: - E guarde-me o que
restar da minha bata!
Ao entrar no quarto que a sua amiga
lhe tinha emprestado, Margarida,
lembrou-se que se encontrava na
cidade de Leiria, não em viagem de
recreio, mas sim com uma missão da
agência de que era funcionária.
A sua missão era acompanhar um casal
de americanos, que desejavam passar
férias na Rota do Sol. Ligou então
para o Hotel do Parque, e de lá lhe
disseram que o avião em que viajava
o casal americano, ainda não tinha
aterrado em Monte Real.
Ainda tinha umas horas de descanso,
que as ia aproveitar…
Foi quando a campainha do telefone
tocou, e, do outro lado do fio,
apareceu-lhe a voz aflita do
Augusto, o criado do avô Guido...
- Augusto: - Ah, é a menina, ainda
bem. O menino Josué, por acaso por
está aí?
- Margarida: - Não, não está,
Augusto. O senhor Josué Teixeira,
ainda deve de estar no Conserto. Mas
o que se passa, Augusto?... Passa-se
alguma coisa com o avô Guido?
- Augusto: - Pois é, o senhor Guido
quer regressar a esta hora, a casa
em Trás-os-Montes. Já tentei
telefonar para o teatro, onde está a
actuar o menino Josué, mas ninguém
atende o telefone...Se a menina
pudesse vir cá ter connosco…
- Margarida: - Mas o avô, a mim, não
deve atender. Sabe...
- Augusto: - Por aquilo que conheço
do senhor Guido, estou convencido
que a ia atender muito bem, pois,
pois ele gostou muito, mas muito da
menina.
- Margarida: - Então, vou tentar ir
para aí...o mais rápido possível...
- Augusto: - Muito obrigado...!!!...
Sabia que podia contar consigo...
Voltou a vestir-se, lançando um
triste olhar para a cama...
Guardou, precipitadamente as suas
coisas, e, fechou a mala de viagem.
Na cozinha encontrou o Sandro (o
terrível Paulo) a dormir de bruços
sobre a mesa, enquanto a Clara
saboreava, entusiasmada, o resto dos
bolos. Esbugalhou os grandes olhos
pintados, e...
- Clara: - Vai-se já embora?!
- Margarida: - Não tenho outro
remédio. Acabam de avisar-me pelo
telefone, que o avô Guido não está a
passar muito bem…
- Clara: - Mas...mas vai deixar-me
aqui sozinha com esta "fera"?
- Margarida: - Mas que posso eu
fazer? Procure não o contrariar. Se
ele voltar a portar-se mal, telefone
para o senhor Josué Teixeira, para o
teatro. Ele dar-lhe-á instruções. Eu
vou a São Pedro de Moel, ter com o
avô Guido. Boa Noite!
Sem esperar pelo ascensor, desceu a
dois a dois os degraus da escada.
Viu-se outra vez junto do portão, e,
daí chamou um táxi.
- Margarida: - Hotel São Pedro de
Moel…
- Margarida: - Como?... Mas o avô
não está doente?
- Avô Guido: - Olá, minha querida
filha, que faz você aqui a estas
horas?... Augusto, estão a tocar
novamente à campainha, vai abrir…
- Augusto: - É o menino
Fernando!
- Fernando: - O avô, Augusto?... Que
se passa, Augusto?!...
- Avô Guido: - Tu também vieste, meu
filho?!
- Fernando: - Naturalmente que vim
logo que pude, logo que terminei o
Conserto. O Augusto telefonou-me, a
dizer que…
- Margarida: - A mim também me
telefonou a dizer que o avô estava
doente…
- Avô Guido: - Com que então,
doente?! Isto é tudo obra deste
desmiolado Augusto, que está sempre
com as suas manias... Eu, doente?...
Lá por eu ter adormecido numa
cadeira, já imaginava que tinha
perdido os sentidos. Não velho
impertinente, ainda não te darei o
prazer de morrer, pois, tu hás-de
morrer primeiro. És capaz de alarmar
toda a gente, sem o menor motivo.
Mas, eu não estou doente…
- Augusto: - Acalme-se, senhor
Guido, não se excite.
- Avô Guido: - Estou nervoso, porque
não posso dormir nesta maldita cama
de hotel. Dei mil voltas e, tive que
me levantar, cheio de dores nos
rins. Porque motivo hei-de ser
obrigado a passar a noite em claro,
em vez de ir para casa, dormir na
minha cama?!
- Fernando: - Mas é só esta noite,
avô. Amanhã já vai para sua casa.
- Avô Guido: - Há mais de quinze
anos seguidos, que durmo na mesma
cama, e, não posso descansar noutra.
Vou, vou agora mesmo para a minha
casa, e está tudo dito!
- Fernando: - Mas, avô, não podemos
permitir que vás por essas estradas
fora, a estas horas da noite!
- Avô Guido: - Permitir-me?! Julgas
que vou te pedir autorização para
voltar para minha casa?... Já sou de
maioridade e, posso dispor de mim,
como melhor me parecer!
- Margarida: - Mas isso seria um
verdadeiro disparate. Daqui até a
Trás-os-Montes, são mais de três
horas de caminho...
- Avô Guido: - E isso que tem?... Se
ficar aqui, não passarei apenas um
par de horas mal, mas muitas mais.
Augusto, vai buscar o automóvel a
fim de partirmos.
- Fernando: - Se persistes em te
ires nessa louca aventura,
acompanhar-te-ei. Não ficarei
tranquilo de outra maneira.
- Avô Guido: - Não é preciso que te
incomodes, meu filho. As estradas
estão boas e, o Augusto conduz muito
bem. É das poucas coisas que ele
sabe fazer (mais ou menos) bem…
- Fernando: - É inútil teimares,
avô. Irei contigo.
- Avô Guido: - Muito bem, faz como
quiseres. E tu vens também, Márcia?
- Margarida: - Não…Não me é possível
acompanhar o avô...Sabe, tenho que
ficar com o Sandrito…
- Fernando: - Levá-la-ei a casa em
cinco minutos e, voltarei para te
acompanhar, avô. Espera-me, está
bem?...
- Avô Guido: - está bem, está bem...
tu já viste o que fizeste, Augusto?
Hás-de ser sempre um mexeriqueiro.
Que necessidade tinhas tu de
incomodá-los a estas horas?!...
Adeus, Márcia, gostei muito de ti;
hás-de ir visitar-me, o mais breve
possível, sim? Muito em breve, não
te esqueças!
- Margarida: - Assim que for
possível, irei logo ter com o avô.
Não me esquecerei, não.
- Avô Guido: - Não te demores,
Fernando... Estou ansioso de me ver
na minha cama, com os meus três
colchões e almofadas de penas. Vão
indo, vão indo...o Augusto
acompanhar-vos-á à porta...vão
indo...
- Margarida: - Que estranho o avô
querer ir a estas hora da noite para
Trás-os-Montes!
- Fernando: - Caprichos de velho.
Acompanhá-la-ei até à casa da
Georgina... Mas, olhe quem está
aqui?!... Que fazes tu aqui Paulo
(Sandro) à porta do hotel, não me
dizes?...
- Margarida: - Como é que viste para
São Pedro de Moel?
- Sandro: -
Olá,"mamã"!...Olá,"papá"! Estou
aqui!... Esperava-os ansiosamente.
- Fernando: - E quem te autorizou a
vires aqui!
- Sandro. - A “querida tia Teresa”
trouxe-me de táxi e, depois foi-se
embora…
- Fernando: - Foi-se embora?! Isso
não, não é possível!
- Margarida: - E olha lá Sandro, o
que é que tu lhe fizeste, para ela
se zangar tanto contigo?
- Sandro: - Ela excedeu-se, e eu
tive que me defender!
- Margarida: - Vamos, Paulo
(Sandro), conta toda a verdade: que
lhe fizeste?
- Sandro: - Não lhe fiz nada de
especial. Foi ela que me bateu...e
eu...então mordi-lhe num braço…
- Fernando: - E o que lhe fizeste
para ela te bater?
- Sandro: - Nada... Ela é uma
estúpida…
- Fernando: - Que maneira é essa de
falares da tua "tia"? Parece-te bem
o que fizeste ao mordê-la?
- Margarida: - Com que então
"mordeste"à tia Clara e, ela foi-se
embora. Bonito rapaz.
- Sandro: - Pois mordi! Ela ficou
tão furiosa que, até disse que nem
por outros quinhentos euros, me
aturaria nem mais um minuto sequer.
- Fernando: - E porque não foste
para tua casa? A tua mãe está à tua
espera.
- Sandro: - Porque me dói muito a
barriga. Os doces fizeram-me muito
mal.
- Margarida: - Eu bem te avisei…
- Sandro: - E a "tia"Clara, ia fazer
queixa à minha mãe…
- Margarida: - O que seria muito bem
feito!
- Sandro: - Além disso, o
"papá"ainda não deu cá ao
"filhinho",o dinheiro que prometeu.
Não se esqueceu, pois não?...
- Margarida: - Pobre pequeno, na
verdade, e bem no fundo, até é
engraçado...
- Fernando: - Sim, é muito
divertido, mas este diabo está
sempre a arranjar-me sarilhos.
- Sandro: - Que vamos fazer agora?
Para onde vamos?...
- Fernando: - O melhor é esperares
aqui, sossegadinho, enquanto eu vou
pôr a "mamã"a casa. Depois, eu
próprio, te levarei a tua casa. Mas
toma atenção, não te mexas deste
sítio, nem um metro sequer.
- Sandro: - Está bem, eu prometo
tudo ao “papá”…
- Fernando: - Se não me obedeceres,
esfolo-te vivo. Sabes ou imaginas o
que é ser esfolado vivo?
- Sandro: - Se sei, é a lei dos
"Lobos Maus"!
- Fernando: - Pois, se te moveres
desse maple até eu chegar, será
aplicada a lei daqui, ou seja a lei
do Oeste!
Novamente, em casa da sua amiga
Isabel, Margarida, preparava-se,
pela terceira vez para se deitar.
Toda a casa se encontrava em
desalinho, pois, com a precipitação
de levar o Sandrito a São Pedro de
Moel, Teresa não fizera nenhuma
arrumação à casa.
Já se encontrava na cama, quando a
campainha da porta tocou
repetidamente. Levantou-se e…
- Margarida: - Quem é?... Quem está
a bater a estas horas à porta?...
- Fernando: - Sou eu, o Fernando ou
o Josué; já nem sei quem sou. Abra
por favor…
- Margarida: - Mas então não
acompanhou o avô a Trás-os-Montes?
- Fernando: - Pois não. No regresso
a São Pedro de Moel, tive um furo
num pneu, o que me atrasou um pouco.
Quando cheguei ao hotel, já o avô
tinha-se ido embora…
- Margarida: - Ai que pena, fico
bastante preocupada…
- Fernando: - Mas o pior, foi o avô
ter levado aquele "terrorista"do
Sandrito (ou Paulo...) ou lá o que
é…
- Margarida: - Aquele miúdo só nos
tem dado problemas. E agora, ele é
bem capaz de contar tudo ao avô
Guido…
- Fernando: - Por esse motivo vim cá
pedir-lhe que me acompanhe a
Trás-os-Montes, a casa do avô Guido…
- Margarida: - Mas...eu não o posso
acompanhar. Estou aqui em Leiria, em
missão profissional, por isso não
posso ausentar-me... o telefone está
a tocar, pode ser o Augusto. O
senhor Josué não se importar,
atenda; o telefone que está aí no
corredor...
- Fernando: - Com todo o prazer...
...Sim, estou...É sim, é esse
número... a Margarida?...E stá,
está, mas está a descansar …
Digo-lhe, sim... Estou a
compreender...O casal de turistas
americanos, anularam a
viagem...muito bem, muito
bem...dar-lhe-ei o recado. Boa
noite...
- Fernando: - O telefonema era para
mim?
- Fernando: - Era sim. Até que enfim
que consegui saber o seu nome:
Margarida! É um nome bonito, como
aliás a dona...
- Margarida: - E de quem era o
telefonema?
- Fernando: - Era da agência
"Turismo ao Alcance de Todos", para
a avisar que o casal de turistas
americanos, anulou a viagem à última
hora.
- Margarida: - Sendo assim, tenho de
regressar imediatamente a Lisboa...
- Fernando: - Impossível!... Tem de
me acompanhar a casa do avô Guido...
Sabe, estou muito preocupado com o
que lhe teria dito aquele endiabrado
miúdo. Por favor, não me deixe
sozinho nesta altura!
- Margarida: - Mas tem de
compreender, se o acompanhar, fico
em risco de perder o meu emprego…
- Fernando: - Há muito tempo que
preciso de uma secretária e, a
Margarida vem mesmo a propósito!
- Margarida: - Eu, sua secretária?
- Fernando: - A Margarida sabe
escrever música?
- Margarida: - Infelizmente não sei…
- Fernando: - Que pena! mas...mas
sabe escrever no computador?...
- Margarida: - Não percebo mesmo
nada…
- Fernando: - Línguas?...
- Margarida: - Só sei dizer em
francês, Bonjour ...E em inglês,
Yes…
- Fernando: - Nada mais?!
- Margarida: - Nada...mesmo nada!
- Fernando: - Pelo menos, terá boa
letra?
- Margarida: - É detestável! Até a
minha assinatura é ilegível!
- Fernando: - Estupendo! Você tem
todas as condições desejáveis. É
justamente aquilo que necessito, uma
secretária que não saiba fazer nada.
Enfastiam-me as secretárias
eficientes! Não acha que são
insuportáveis?
- Margarida: - Sim, concordo... Bem
tentei que não me contrata-se como
sua secretária, mas não tive êxito!
- Fernando: - Enquanto a Margarida
acaba de se arranjar, vou meter
gasolina no carro e, ver a pressão
dos pneus e o óleo. Durante a
viagem, continuaremos a falar.
- Margarida: - Então até já. Não se
esqueça de fechar a porta…
- Fernando: - Margarida, somos
amigos, não é verdade?...
- Margarida: - Claro que sim!
Já amanhecia, quando iniciaram a
viagem rumo a Trás-os-Montes e,
quando chegaram a casa do avô Guido,
o Sol já tinha nascido.
Josué Teixeira, parou o carro diante
do grande portão e, fez ressoar por
duas vezes a volumosa aldraba de
bronze, a qual produziu um atroador
ruído, ali naquele vetusto casarão,
a que não faltava certa beleza.
- Augusto: - Ah, é o menino Josué,
estava à sua espera. O senhor Guido,
ainda está deitado e, parece que
está calmo.
- Fernando: - Augusto, quem vos
meteu na cabeça, trazerem o Sandro?
- Augusto: - O senhor Guido não quis
esperar. Apenas os senhores saíram
dos seus aposentos, teimou em
partir, dizendo que não queria
incomodá-lo, obrigando a
acompanhá-lo. Quando descemos para o
hall, encontra-mos o rapaz que se
aproximou de nós. O senhor Guido
convidou-o a vir com ele, e ele
aceitou logo o convite. Resultado,
tivemos mesmo que trazer o garoto.
- Fernando: - Mas esta embrulhada
nunca mais acaba?...
- Augusto: - Receio bem que não,
senhor Josué. Quer subir?... estão
os dois no quarto do avô, a tomar o
pequeno almoço.
Subiu os degraus em dois pulos,
acariciando, ao passar, as faces da
velha Elisa, a mulher do Augusto,
que lhe dava as boas-vindas.
Ao entrar no quarto do ancião,
acalmou momentaneamente o seu
nervosismo. Ele estava sentado na
sua esplêndida e tão chorada cama de
colunas, de mogno escuro. Com a
cabeça recostada nas suas almofadas
de penas, o Avôzinho tomava café com
leite e torradas. Numa mesita
instalada junto do leito, Sandrito
fazia o mesmo.
O rapazito ostentava no lábio
superior uns magníficos bigodes de
café com leite, que lhe davam um
aspecto cómico.
- Fernando: - Bom dia e bom apetite!
- Sandro: - Olá,"papazinho"!... Bom
dia, não quer café com leite?
- Avô Guido: - Vocês são muito
teimosos, mas confesso que estava à
vossa espera, pois, com certeza que
não iam abandonar o vosso querido
filhinho, estou certo?
- Sandro: - "Mamãzinha", dá-me mais
café com leite e mais torradas, está
bem?
- Margarida: - Não comas muito, olha
que ficas com dores de barriga...
- Sandro: - Já não tenho dores de
barriga!
- Augusto: - Com a precipitação da
partida, o senhor Guido deixou os
medicamentos, no Hotel, em São Pedro
de Moel.
- Avô Guido: - Vocês têm de me darem
razão, confio eu num velho tonto
como o Augusto, e depois acontece-me
destas. Ele, quer ver se eu morro
primeiro do que ele, mas não vai ter
esse prazer!
- Fernando: - Não diga isso avô,
pois, o Augusto é um verdadeiro
amigo que tu tens. Não é um criado,
é um amigo!
- Avô Guido: - Lérias, lérias...Ele
quer é que eu morra primeiro do que
ele.
- Fernando: - Não se preocupe com os
medicamentos, pois, tenho que ir
hoje a Bragança assinar um contrato
e trago-lhe os medicamentos.
- Augusto: - Parece-me que esses
medicamentos, só se encontram em
Lisboa ou no Porto…
- Fernando: - Talvez não seja assim
como dizes, Augusto. Avô não se
preocupe, pois, hoje à noite, terá
cá os medicamentos.
- Avô Guido: - Podes ir Fernando,
mas vais sozinho, pois, a tua esposa
e o teu filho, ficam aqui ao pé de
mim.
- Fernando: - Mas...mas avô, a
Márcia…
- Margarida: - Podes ir, querido
"maridinho", pois, eu ficarei com o
nosso querido "filhinho". Depois,
regressaremos ambos a Leiria. Como
sabes, o Sandrito, anda na escola e
não quer perder o ano...
- Sandro: - O que tem, se eu perder
mais um ano?... O meu pai diz que eu
sou estúpido por feitio e natureza!
- Avô Guido: - Oh Fernando, tu dizes
isso ao teu filho?...
- Fernando: - Sim...
Sim, eu digo-lhe isso... mas é só às
vezes e por brincadeira. Todos nós
sabemos que o Sandrito é muito
inteligente, e muito aplicado na
escola.
- Margarida: - É um dos melhores
alunos da escola onde anda.
- Avô Guido: - Tu, Fernando, tens
que ter muito cuidado com essas
considerações que dizes ao garoto,
pois, não podes nem deves
desmoralizar o teu filho. O vosso
filho, não é, querida Márcia.
- Margarida: - Sim, sim avô, eu, até
já tenho chamado a atenção do
Fernando, para certos termos que ele
usa para com o menino.
- Avô Guido: - E, não se esqueçam
que ele é o único filho que vos
resta, pois, os outros morreram
todos…
- Margarida: - Morreram todos?!
- Fernando: - Pois... os outros
morreram todos. Até parece que não
te lembras dessas tragédias, Márcia?
- Margarida: - Eu lembrar-me?... Ah,
pois...Pois morreram todos…
- Fernando: - Coitadinhos, ficamos
sempre muito constrangidos quando
pensamos neles. Não chores Márcia,
senão também eu começarei a chorar…
- Avô Guido: - E, por cada funeral,
paguei cerca de mil euros, fora as
flores e os arranjos das campas.
- Margarida: - Pois...pois foi assim
mesmo. Mas não quero recordar esses
momentos dramáticos.
- Fernando: - Nós temos sofrido
muito, Avôzinho... foram desgostos
em cima de desgostos…
- Sandro: - Mas eu já tive irmãos?!
Não me lembro.
- Margarida: - É que nós, eu e o
Fernando, procurámos sempre esconder
estes tristes factos do Sandrito…
- Fernando: - Bem, como se costuma
dizer "barco parado, não segue
viagem...", e eu ainda tenho que ir
a Bragança e, depois possivelmente
ao Porto.
- Sandro: - Posso ir contigo,"papá"?
- Margarida: - Não,"filhinho", tu
ficas aqui ao pé da "mamã", pois, o
"papá" tem muitas voltas a dar e
muito trabalho a fazer.
- Sandro: - Os "papás"são todos a
mesma coisa!
- Avô Guido: - Sandrito, vai brincar
para o pátio, mas com muito juízo...
- Fernando: - E eu, vou indo. Adeus
minha querida "mulherzinha"!
- Fernando: - Adeus,"amor" e boa
viagem. Encontrar-nos-emos em Leiria.
Um beijo!
Já era noite quando Josué Teixeira
regressou a casa do avô, naquela
pequena aldeia transmontana. Tocou a
albarda de bronze da porta e, o
velho criado Augusto, veio
abrir-lhe. Ao entrar no grande salão
do vetusto casarão, teve uma grande
surpresa…
- Avô Guido: - Olha Márcia, o teu
querido esposo já chegou!
- Fernando: - Mas, Márcia, ainda não
regressou a Leiria?!
- Avô Gildo: - Desculpa, filho, mas
eu é que tive a culpa, pois,
consegui convencer a tua esposa a
ficar. Não te zangues comigo. Também
seria inútil regressar, pois, a
Márcia está aqui muito a seu gosto,
não é verdade, filhinha?
- Margarida: - Assim é, avô…
- Avô Guido: - E até mais,
prometeu-me que ficará alguns dias
aqui, junto de mim...
- Margarida: - Fizeste boa
viagem,"querido"Fernando? Espero que
não estejas muito zangado comigo,
por me encontrar ainda aqui...
- Fernando: - Como sabes, ou deves
de calcular, até estou muito
contente por te encontrar aqui,
junto ao avô.
- Margarida: - Sabes,"amor",
necessitava de um pouco de repouso
para os nervos e, esta tranquilidade
aldeã, far-me-á bem. Amanhã, mando
vir roupas, pois, não posso andar
muito tempo com esta. Embora este
trajo azul, me fique bem, não é
verdade, querido “maridinho”?
- Fernando: - Qualquer coisa, te
fica maravilhosamente bem, meu
"amor"!
- Margarida: - No outro dia,
disseste-me que te enlouqueço,
quando visto este azul. Claro que
dizes sempre coisas parecidas, qual
for o vestido e a cor que
envergue... olha, "querido", queres
um cafezinho?...faz tanto frio lá
fora na estrada, que o café,
decerto, saber-te-á bem…
- Avô Guido: - Estou a gostar muito
de os ouvir. Fico muito contente que
sejas carinhoso com a tua mulher,
não posso com os matrimónios que se
tratam friamente sem calor e sem
amor.
- Margarida - O Fernando sempre foi
muito carinhoso. Está sempre a
chamar-me diminutivos ternos, como:
queridinha, amorzinho, fofinha,
etc.…
- Fernando: - Bem!... Creio que o
avô deve descansar. Os seus
medicamentos estão aqui. Agora, é
conveniente ir para a cama
descansar.
- Avô Guido: - Eu vou já, vou já. O
Sandro dormirá aqui ao lado, e a
Elisa já preparou o quarto lá de
baixo, para vocês e espero que
fiquem lá muito bem. A cama é muito
boa.
- Fernando: - Muito bem, avô,
ficaremos lá, perfeitamente e
quentinhos...
- Avô Guido: - Escuta lá, Fernando,
prometes que ficarão cá uns dias?...
- Fernando: - Não sei... Não sei se
os meus afazeres profissionais o
permitirão…
- Avô Guido: - Se te for impossível
pelo menos, deixa-me a Márcia e o
Sandrito. Tu podes vir de vez em
quando, ver-nos…
- Fernando: - Oh avô, amanhã
decidiremos...Agora, dorme tranquilo,
pois, bem precisas de descansar.
- Margarida: - Mas. Aonde está o
Sandrito?... Já há um bom par de
horas que não lhe ponho os olhos em
cima…
- Avô Guido: - Não te preocupes,
minha filha, pois vamos já saber...
Augusto...oh Augusto, onde estás?
- Augusto: - Estou aqui, senhor
Guido... Quer os seus medicamentos?
- Avô Guido: - Não, não quero ainda
os medicamentos, mas sim saber, onde
se encontra o pequeno Sandrito?
- Augusto: - Deve de estar... deve
de estar...ou está...
- Avô Guido: - Que mistério é esse?
Onde está o rapaz?
- Augusto: - O rapaz estava a brincar
no pátio, e depois...o senhor Guido
sabe daquela gaiola... a gaiola dos
pássaros...
- Avô Guido: - Claro que sei, a
gaiola que tem dezenas de pássaros…
- Augusto: -Pois...que tinha dezena
de pássaros, mas, o Sandrito
abriu-lhes a porta da gaiola e eles
fugiram…
- Fernando: - Ai, aquele diabo de
rapaz!...
- Avô Guido: - E Augusto, onde está
agora o Sandrito?
- Augusto: - Bem, como os pássaros
fugiram todos, como já lhe
disse...fugiram todos... eu, meti o
Sandrito dentro da gaiola!
- Avô Guido: - Como assim, tu
fizeste isso?!
- Augusto: - Se abrir aquela janela,
ouvirá decerto, o berreiro que ele
está lá a fazer dentro da gaiola.
- Avô Guido: - Olha lá, mas porque é
que tu meteste o rapaz dentro da
gaiola?... Não me digas que estás à
espera que ele cante. Traz-mo já cá
imediatamente.
- Fernando: - Mas o Avôzinho,
precisa de se deitar, para
descansar…
- Avô Guido: - Não tentem disfarçar
e aliviar a vossa culpa, pois, vocês
os dois é que deviam de estar dentro
daquela gaiola. Imaginem bem a
qualidade de educação que têm dado
ao vosso filho! Vão, vão-se deitar,
que eu próprio falarei com o miúdo.
Vão indo, vão indo…
- Margarida: - Então, até amanhã,
avô. Com sua licença vou me vou
retirar para o meu quarto…
- Fernando: - Margarida, agora que
estamos sós, posso saber porque
motivo ainda continua nesta casa, e
não regressou a Leiria?
- Margarida: - Se me fala nesse tom,
não lhe responderei. Procure ser um
pouco mais simpático, o que nem lhe
deve ser muito difícil…
- Fernando: - Perdoe-me, Margarida,
mas confesso que estou um pouco
desorientado. Ocorreram tantas
coisas ao mesmo tempo, e este miúdo
dá-me cabo dos nervos. Sinto-me
responsável por tal escolha, melhor,
por toda esta situação.
- Margarida: - Eu só fiquei cá, para
não deixar o Sandrito sozinho, pois,
o avô fez questão que ele ficasse e,
assim, talvez acabasse por
comprometer, irremediavelmente esta
estranha situação, ao contar ao avô,
certas coisas…
- Fernando: - Já estou a compreender
tudo, mil agradecimentos e mil
perdões, pela minha conduta de há
pouco. Estou a ficar refém daquilo
que projectei na tentativa em dar ao
avô Guido, um fim tranquilo…
- Margarida: - Por favor, não se
esforce para se mostrar agradecido.
Eu também tenho uma certa quota do
que aconteceu e ainda está a
acontecer. Sejamos sensatos.
- Fernando: - Não pretendo
mostrar-me grato, pois, estou-o na
realidade. Mas, sobretudo, sinto-me
confuso, porque tenho a impressão de
que, no fundo, você está aborrecida
comigo, por a ter arrastado para
esta situação tão bizarra.
- Margarida: - Não estou, não contra
sua. Não vê que me sinto
contentíssima, por ter podido ser
útil neste processo, sobretudo, ao
avô Guido?
- Fernando: - Quer dizer que só
entrou nesta estória em atenção à
situação do avô? É de agradecer a
sua nobre actuação.
- Margarida: - Parece-me que estou a
ler certas dúvidas no seu olhar…
- Fernando: - A Margarida, não pode
ler nada no meu olhar!
- Margarida: - Engana-se Josué...
- Fernando: - Então, como é tão boa
em ler nos meus olhos, deve ler
também outras coisas, não é assim?
- Margarida: - Talvez....deixe-me
rir!
- Fernando: - Como, por exemplo, que
a achei encantadora, desde o
primeiro momento em que a vi...
- Margarida: - Talvez.... Não sou
feia de todo (segundo dizem) e, já
percebi que o seu coração estremece
com facilidade, perante os encantos
femininos. E o avô confirmou,
digamos, essa sua faculdade.
- Fernando: - Você se diverte
enraivecendo-me, mas não consegue,
pois, não conto zangar-me consigo de
maneira nenhuma. Sabe, não há um só
"teimoso"… E eu não quero ser
teimoso. Adivinha que...
- Margarida: - Desculpe pois, tenho
a imaginação muito fatigada pelos
últimos acontecimentos, por isso,
não posso dedicar-me às suas
adivinhas. Vou para o meu quarto,
pois, estou a cair de sono…
Margarida despediu-se do Josué com
um seco “boa noite”, e penetrou no
amplo quarto, mobilado à antiga, mas
tão acolhedor e confortável, que
parecia dar-lhe as boas-vindas.
Ao centro, viam-se duas camas
iguais, cobertas com grossas colchas
de seda, já um pouco desbotadas.
Riu-se e pensou alto: “Gosto desta
casa, pois, é um verdadeiro lar. Ao
entrar, recordei logo a minha. Não é
que se assemelhem em nada, mas por
causa do ambiente, qualquer coisa de
"inde finível", que flutua e
constitui o espírito das habitações.
A cama é macia, mas, mesmo que fosse
dura, não daria por isso.
Alguém bate à porta do quarto…
- Elisa: - Dão-me licença, posso
entrar?
- Margarita : - Entre, entre Elisa
...
- Elisa: - Tomei a liberdade de lhe
trazer uma das minhas camisas de
dormir. As noites aqui em
Trás-os-Montes, são muito frias, e ,
embora a flanela seja muito grossa,
talvez a senhora não veja
inconveniente em…
- Margarida: - Pois claro que a
vestirei, e vou ficar até muito
quentinha. Muito obrigado Elisa!
- Elisa: - Trouxe também, uma bata e
umas chinelas e, também coloquei uma
botija de água quente na cama. Terá
cobertores suficientes?
- Margarida: - Creio que sim.
Dormirei formidavelmente, como uma
princesa!
- Elisa: - Não tenha pressa de se
levantar cedo, pois, trazer-lhe-ei o
pequeno-almoço aqui à cama.
- Margarida: - Que luxo! Muito
obrigado, Elisa!
Depois de bater à porta, Fernando
(Josué) entrou no quarto para lhe
desejar uma boa noite…
- Fernando: Eu vou também fazer
soninho. Procure sonhar comigo,
Margarida, está bem?...
- Margarida: - Procurarei sonhar
consigo e com esta situação. Espero
que não se transforme em pesadelo…
- Fernando: - Então, boa
noite...querida!
- Margarida: - Que disse...
Querida?!
- Fernando: - Como ouviu muito bem.
Eu disse "querida", e não retiro uma
só letra sequer! Até amanhã e boa
noite!
Passados breves minutos, novamente
bateram à porta…
- Fernando: - Márcia, Márcia!...
- Fernando: - Quem está a bater à
porta?...
- Fernando: - Sou eu... o
Fernando... abra a porta por favor!
- Margarida: - O Fernando?! Mas o
que é que você quer?!
- Fernando: - Ora...o que hei-de
querer, querida “esposa”?... entrar
no nosso quarto para me deitar…
Ela saltou da cama, compreendendo
logo que ocorria, qualquer coisa
fora do vulgar. Embrulhou-se na
enorme bata que a Elisa lhe tinha
emprestado e abriu a porta. No
limiar, apareceram à sua frente, o
Fernando, terrivelmente confuso,
igualmente vestido com um roupão e
um pijama e, atrás dele, o avô
Guido, com a sua inseparável bengala
e um olhar trocista…
- Avô Guido: - Queria convencer-me
de que vocês estão bem instalados, e
assim, desci em pessoa, para
verificar com os meus olhos... Só
não compreendo que faz este maroto,
que ainda não se deitou, ao lado da
sua bela esposa?...
- Fernando: - Ia, deitar-me...agora
mesmo, avô...
- Avô Guido: - Anda, deita-te e fica
caladinho. Mete-te já na cama, pois,
quero aconchegar-te a roupa, como
fazia quando eras pequeno...
- Fernando: - Mas, avô... Eu ainda
tenho que fazer ginástica junto à
lareira…
- Avô Guido: - Ginástica, a estas
horas e junto à lareira?...
- Fernando: - Sim, sim...é um hábito
já muito antigo, sabe?... Faço-o
sempre antes de deitar-me…
- Avô Guido: - Palhaçadas!...
Deixa-te de tolices e, vai já para a
cama, vá que já é muito tarde e está
muito frio…
- Fernando : - Mas...Avô, tente me
compreender…
- Avô Guido: - Não estou a
compreender mesmo nada. Tira o
roupão…Assim... gora mete-te debaixo
da roupa. Gosto muito que ainda
sejas obediente. Agora,
aconchegar-te-ei e ficarei mais
tranquilo, e depois, mando o Augusto
retirar a cama que não vai ficar
ocupada. … Augusto e Elisa, retirem
esta cama para a arrecadação!
- Fernando: - Pronto, pronto
avozinho, já estou na caminha junto
à minha querida esposa...já se pode
ir embora descansado...
- Avô Guido: - Estou a ver, estou a
ver… boas noites, meus filhos. Levo
a chave, para os deixar fechados,
caso contrário, estou certo de que
amanhã, quando eu me levantasse, a
"gaiola"estaria vazia. Bons sonhos,
meu filhos queridos filhos!...
- Fernando: - Avô!...não feche a
porta...Avô...Avô...Avô!...
- Margarida: - Augusto!...Elisa!...
por favor, abram esta porta!
- Fernando: - Augusto!...demónio de
homem parece que é surdo!...
Augusto!...Vou dar um pontapé nesta
porta...ai..ai..ai...que magoei o
meu pé...
- Margarida: - Isto é completamente
absurdo! É ridículo! Como eu fui
capaz de me meter numa trapalhada
destas!
- Avô Guido: - Não gritem, nem batam
mais na porta. Que grandes idiotas
que vocês são! Pensavam assim poder
enganar o avô, sem vergonha nenhuma!
Vou abrir a porta para podermos
falar…
- Fernando - Avô, engana-lo como?...
Sinto-me envergonhado…
- Avô Guido: - Naturalmente ser
velho, não quer dizer que seja
idiota. Vejo muito mal, estou muito
surdo, mas nunca confundiria o meu
neto verdadeiro com o seu
meio-irmão. Que farsa vocês urdiram,
pensado em enganar-me…
- Fernando: - Então quer dizer
que?...
- Avô Guido: - Que, se te confundi
por momentos…isso foi de curta
duração, e apenas enquanto a minha
cabeça não regulava bem, logo a
seguir ao ataque do coração...depois
comecei a compreender tudo o que me
estavam a fazer, ou seja, a
armarem-me em parvo. Comecei a
averiguar a grandeza da minha
desgraça. Logo que regressei a casa
o meu advogado avisou-me o meu neto
tinha morrido.
- Fernando: - Avô, tente
compreender, eu queria evitar-te um
grande desgosto…
- Avô Guido: - Bem sei, Josué, nunca
deixaste de me querer muito. Desde
muito pequeno, que foste sempre o
meu verdadeiro neto. Fui a Leiria,
impulsionado pela curiosidade e,
também para te criar dificuldades e
divertir-me um pouco, assim, como
também ao idiota do Augusto. Perdoa
esta travessura de velho, mas vocês
são uns cretinos... querem
enganar-me, a mim, a mim, o Guido
Ribeiro, transmontano dos quatro
costado!
- Augusto: - Senhor Guido, não se
excite assim, deve ir deitar-se e
procurar descansar....
- Avô Guido: - Cala-te, mentecapto.
Tu és o pior de todos! Julgavas-te
mais esperto do que eu?! Pois,
saíram-te as coisas ao contrário,
cabeça de pardal! Julgavas tu que eu
não reconhecia o menino Josué?...
Como vês, de nada serviu armarem
esta comédia grotesca. Isto também é
contigo, pequena linda…
- Margarida: - Perdoe-me, senhor
Gildo. Encontrei-me metida neste
caso sem ainda compreender como e
porquê.
- Avô Guido – Cala-te, cala-te, pois
não preciso de explicações. Não me
enternecerás com a tua cara bonita e
a tua voz de rolinha mansa. Ora, não
te armes em "mosca morta", pois nem
merece a pena.
- Fernando: - Escuta, avô a
Margarida é…
- Avô Guido – Ah, se chama Margarida
e não Márcia! E esse tão "bonitinho"
rapaz (como é o nome dele?) onde é
que o arranjaste?...
- Fernando: - É filho da…
- Avô Guido: - Compreendo. E aquela
engraçada “cunhadita” que dançava
tão desajeitadamente?...
- Fernando: - É, a...
- Avô Guido: - Muito me ri...ri de
vocês! Sobretudo de ti e da tua
linda noiva, Josué. Suponho que seja
tua noiva... não o podem negar,
pois, até parecem mesmo uns
pombinhos... comem-se um ao outro,
com os olhos…
- Margarida: - Nada disso, senhor
Guido, nada disso!
- Fernando: - Ainda...não é minha
noiva.
- Avô Guido: - Ainda não é?... Então
do que estás tu à espera? Não me
digas que ainda não te declaras a
ela. Porquê, meu filho, estás com
medo de seres recusado ou com
vergonha?
- Fernando: - É que não me atrevo a…
- Avô Guido: - Pois, atreve-te
grande tolo me saíste...Não vês que
ela não deseja outra coisa. Que te
ama?...
- Fernando: - Avô, compreende... A
Margarida é a melhor pequena que eu
conheci... prontificou-se a
ajudar-me, simplesmente por bondade.
Nunca conheci outra como ela. Mas o
caso é que...Margarida é... seria...
enfim, a definitiva!
- Margarida: - Josué, por favor, não
faca mais confusão na minha cabeça.
- Avô Guido: - Ai...o meu remédio,
Augusto... Sofri muito, estes dias.
Mas, agradeço-te, filho, pois embora
não sejas o Fernando, quero-te como
se o fosses.
- Margarida : - Sente-se mal, avô?
- Avô Guido: - Não pequena, só estou
um pouco cansado…
- Augusto: - Vou chamar o já médico!
- Avô Guido: - Não...não é
preciso...já está a passar. Sofri
muito com a morte do meu neto, mas,
foi Deus que assim o quis. Não te
assustes, pequena, pois, em breve
estarei melhor... Margarida, é um
nome bonito e, tu és muito bonita...
olha lá porque estás a choras? Olha
filha, limpa esses belos olhos.
Mereces ser feliz, porque tens bom
corarão, e o Josué também, aliás,
sempre o teve desde criança. Hão-de
ser muitos felizes e terão filhos
bonitos. Mais bonitos do que esse "demónio",
que está para aí; como é que se
chama esse "ranhoso"?... Quero saber
o nome verdadeiro.
- Margarida: - Chama-se Paulo…
- Avô Guido: Ele é muito esperto
(embora não seja inteligente) pelo
caminho, contou-me histórias muito
divertidas. Gostaria que ele ficasse
aqui mais uns dias... faz-me
rir...Eu... Eu…
- Fernando: - Olhe, o avô adormeceu.
É o melhor que nos podia ter
acontecido. Está esgotado, coitado
do avô Guido, vou pôr-lhe uma manta
por cima...
- Margarida: - Vou aproveitar o
facto do avô estar a dormir, para me
ir embora. Embora me custe bastante,
não me despedir dele. É tão bondoso!
- Fernando: - Se é esse o teu
desejo, Margarida…
- Avô Guido: - Mas qual desejo...
Mas qual desejo, qual carapuça.
Estou mesmo a ver que já não se pode
descansar um pouco... Seus
finórios... Augusto, Augusto...Dá-me
a minha bengala…
- Margarida: - A bengala, avô?...
- Avô Guido: - Sim, a bengala. Era o
que vocês precisavam, apanhar ambos
com ela. Não têm vergonha de gozarem
e fazerem pouco de um pobre velho?
- Fernando: - Mas, avô compreenda
por favor.... Avô Guido: - Cala-te!... Augusto,
ajuda-me a levantar...Agora, dá-me
aquelas chaves do quarto…
- Margarida: - Mas o avô vai-nos
fechar novamente, aqui dentro do
quarto?... Nem quero acreditar.
- Fernando: - Mas, avô escute-me por
favor!
- Avô Guido: - Calem-se, calem-se
por favor. Olha que apanham mesmo
com a bengala. Ficam aqui fechados
até se declararem um ao outro, e não
demorem muito. Deitem-se, deitem-se
já, pois, a noite é, e têm muito
tempo de falarem do que me tramaram.
Boa noite e acordem muito bem
dispostos e com as consciências
limpas. Não preciso de mais
desculpas de vossa parte.
Ao sair do quarto depois de fechar a
porta à chave, encontrou o Sandro no
corredor…
- Sandro: - Olá avozinho, andava
mesmo à sua procura, pois a cozinha
está fechada à chave…
- Avô Guido: - Olha "netinho"…Vai
mas é chamar avô a outro!...
FIM