von Trina
 
 

 


 
  Poucas vezes vamos à nossa terra natal – Lisboa. Mas quando lá vamos sempre encontramos alguém que nos é querido ou por quem temos muita consideração. Foi o que nos aconteceu um dia destes quando passeavamos despreocupadamente pela “Baixa” lisboeta.  –Olá Carlos ! – a voz não nos era desconhecida mas só ao virar a cabeça é que identificámos o Ângelo Rodrigues acompanhado de uma alta e imponente figura masculina: o Von Trina. O nosso amigo Ângelo continuou: - Você conhece o Von Trina (que por acaso até é Fernando) ?. Sorrimos e recordámos que o tínhamos conhecido aquando do lançamento do livro do Leonino. Mas você pode definir este nosso amigo – convidámos nós. - Então Carlos, vá tomando nota, concordou o Ângelo: “Poeta é aquele que resiste, que interroga, que luta, que se inquieta, que se revolta, que subverte o instituído, que diz Não (1). Eis um poeta-vidente, profeta, anunciador, avisador, inconformista-radical, idealístico, insatisfeito, crítico de ortodoxias e de alguma deferências, desbravador e caminheiro de sentidos, de diferenças, ousadias, adorador da Beleza deste mundo e dos outros (acessível aos criadores-artistas). Von Trina é um humanista por excelência, um cidadão do mundo, um homem com alma-grande, proporcional ao seu (enorme) peso, “bom garfo”, ou se não fosse o Homem espírito e corpo (e o corpo de Von Trina não se alimenta apenas com uma sopinha de letras); ao ler os poemas de Von Trina, dá vontade de gritar (alto e bom som) estes famosos versos da saudosa poetisa Natália Correia: “Ó subalimentados do sonho, a poesia é para se comer)... – Amigo Ângelo, tenha calma ! Se não se importa, somos nós agora a conduzir a entrevista ! – Von Trina, onde mora ... ?: - “São Marcos, Sintra, Lisboa, Portugal e Porto Salvo, Oeiras, Lisboa, Portugal - (de facto o "cara” é bem um cidadão de Lisboa e arredores – pensámos nós) –
São Marcos – Sintra, é um novo bairro (com todos os problemas inerentes) situado na confluência de três concelhos dos arredores de Lisboa (Sintra, Oeiras e Cascais); concebido para servir de zona residencial ao Tagus Park – Parque da Ciência e Tecnologia (projecto de fixacção das empresas com forte componente e inovação e investigação científica e sua ligação à área do ensino – nomeadamente já estão aqui integradas na totalidade ou com alguns departamentos a Universidade católica, a Universidade Atlântica e o Instituto Superior Técnico, além de rodeado por muitas outras escolas de grau inferior). Fica “encostado” a uma das maiores, mais antigas e melhores preservadas estações arqueológicas da Europa e de Leceira e muito perto de um dos últimos “Edens” do velho continente Sintra com seu castelos, palácios e belezas naturais (a serra, as praias e o parque natural), museus e outros monumentos, não esquecendo claro, que fica a poucos quilómetros do ponto mais ocidental do continente europeu, o Cabo da Roca. Aqui está também em funcionamento um dos cafés que o poeta usa como escritório com direito a mesa “reservada” – o “Pão da Jú” – o outro é o Central de Gouveia (Serra da Estrela)  - terra do escritor Virgílio Ferreira. Porto Salvo (Oeiras), é uma velha aldeia agrícola (hoje sem terra para cultivar), vizinha da auto-estrada com mais movimento da Europa, a Lisboa – Cascais, fronteira ao maravilhoso Tejo e às cosmopolitas praias da linha do Estoril, além de quase tocar, três polos empresariais muito importantes (Quinta da Fonte, Estrada de Paço de Arcos e Tagus Park) e um mega centro comercial (Shopping da Linha – Oeiras), não mencionando outros mais pequenos. Beneficia ainda, da proximidade do Estádio Nacional (com o seu pluri-disciplinar centro de estágio desportivo) e matas adjacentes. Amigo Carlos, não posso também, deixar de mencionar, pela identificação e por amor, o mítico Clube Desportivo de Paços de Arcos, sedeado aqui pertinho onde jogaram alguns dos melhores praticantes de hóquei em patins mundial (quem não de lembra do Jesus Correia e de seu primo Correia dos Santos ?), e que hoje continua um dos símbolos do desporto português, quer pela sua competitividade, quer por ser responsável, pela formação (e são gerações atrás de gerações) de boa parte dos hoquistas em actividade na primeira divisão portuguesa (e não só). O município de Oeiras, aliás como o de Sintra, são espaços verdadeiramente lusófonos e universais “germinados” como não já sei quantas cidades da língua portuguesa (e outras), habitados por grandes comunidades de cidadãos de toda a C.P.L.P, e outras, representativas de quase todos os outros países do mundo, onde se desenvolve intensa actividade cultural, de todo o tipo de artes, o que deixa perceber algum carinho e apoio à criatividade, de cujo expoente máximo, são os órgãos de comunicação locais e regionais, “fáceis” na divulgação dos eventos. Em Oeiras, podemos ainda encontrar o Palácio Marquês de Pombal (e 1º Conde de Oeiras) um dos maiores vultos da História de Portugal...
Estávamos encantados com a fluidez verbal deste nosso inesperado entrevistado. Ou fosse pela sua “soltura linguística”  ou por se aproximar a hora do almoço, o certo é que estávamos com uma “fome de lobo”. Dirigimo-nos a um a conhecido restaurante-marisqueira na Rua Tomé de Barros, bem perto do Martim Moniz Centro de Lisboa). Estávamos encantados por nos ter calhado nesse dia um entrevistado como o Von Trina e admirados ficámos quando o vimos encomendar. –“Uma sopa de Cação – um Cozido à Portuguesa e para terminar uma Açorda de Marisco ... Ao ver a nossa admiração, o Ângelo Rodrigues atirou enorme gargalhada ao dizer: - Carlos, e só por vergonha, é que o amigo Von Trina não encomenda também um Bacalhau à Lagareiro, Salsichas Enroladas em Lombardo, Rodovalho Grelhado, um Arroz de Moreia, etc ! (claro, que isto é um exagero!). Enquanto o Von Trina foi “lavar as mãos”, o Ângelo foi-nos dizendo: - “O poema é, para Von Trina, uma arma que espicaça as consciências algo adormecidas, uma arma para lutar contra as ideias-feitas, o tudo-pronto, o tudo-dado, o já-pensado, os marasmos quotidianos. A poesia de Von Trina é, assim, um campo de batalha, o inimigo é a excessiva normalidade do Homem: “Arrelia-me a prepotência / Incomoda-me a deferência / Arreporra para a normalidade” – Eis, o Von Trina !. Durante o almoço continuámos com a entrevista: - Como é que o Von Trina se auto-define ... ?: - “Poeta, lutando contra gigantes (ou moinhos de vento – sem ser uma personagem de Cervantes)”. – Qual a sua melhor qualidade e seu maior defeito ... ?: - “Generosidade / Teimosia”.  – Qual a qualidade que mais aprecia em si, e, nos outros ... ?: - “A lealdade às amizades / A solidariedade”.  – Quando era criança ... ?: - “Era tímido e nunca mais crescia”.  – Seus passatempos preferidos ... ?: - “Escrever”.  – Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ... ?: - “Ser pai”.  – De que mais se orgulha ... ?: - “Não desistir (embora admita adiar”.  – Qual a personagem que mais admira ... ?: - “O Homem comum”. – Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ... ?: - “Pôncio Pilatos, lavando as mãos”.  – Como vai de amores ... ?: - “Quem não se apaixona, ou reapaixona, vive pouco, mal e sem esperança”. – Que género de filme daria a sua vida ... ?: - “Romântico, de acção (e sem adivinhar o fim).  Já a caminho da Rua Luz Soriano (Bairro Alto), onde ficam as instalações da Editorial Minerva, no carro do Ângelo, entre uma outra observação a alguns “modelos femininos” que passavam, continuámos: - Que influência tem em você a queda da folha e a chegada do frio ... ?: - “Num primeiro impulso, fugir para onde o calor aqueça a alma. Depois, o cérebro adapta-a, com a ajuda das memórias, da minha lareira e dos rendilhados dos ramos das árvores nús, de beleza selvagem e inquestionável. Finalmente estimula-me e alegram-me, as imagens das correntes tumultuosas dos rios e da neve provocadora de intimidades, na minha Serra da estrela, ou o humor variável do meus Rio Tejo”.  – O dia começa bem se ... ?: - “ ... Consumar o amor, ou não estiver atrasado, ou se tiver algo que goste para fazer, ou ainda e melhor, tudo junto”. Mudando de tema: o que é para você o termo Esoterismo ... ?: - Mensagem secreta aos iniciados. Literariamente “escrever para os amigos e ou outros que se lixem”. Ou “escrever em circuito fechado”. Acredita na reencarnação ... ?: - “Sim, se for a reencarnação, do Fernando Pessoa ou do D. João ll, ou alguns outros, dogénero. Noutro caso não !”.  – Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo” ... ?: - “Claro, sou poeta e a minha “entidade metafísica privada”, ou “espírito”, ou “fantasma perturbador”, ou ainda “génio inspirador”, está sempre a dizer-me que se chama “Paci” e que eu sou a sua “metade”, ou “entidade física”. – O imaginário será um sonho da realidade ... ?: - “Pode ser, mas prefiro, no entanto, pensar que é um estado de real lucidez, constituído por memórias, afectos e projectos, catapultados e potênciados, por essa arma poderosa ( a mais poderosa ao dispor da humaninade), que é o sonho. Como é possível constatar, é fácil complicar, a simplicidade e a genialidade”.  – O Von Trina acredita em histórias fantásticas ... ?: - “Sim. De facto alguns entre nós, possuem asas e são imortais”.  – Deus existe ... ?: - Como diz o Júlio Roberto «Para mim é tão evidente, que nunca pensei nisso”. A última parte desta entrevista foi feita nas instalações da Minerva, no gabinete do Ângelo Rodrigues, que, embora muito atarefado com o seu trabalho, não perdia pitada desta entrevista. – Amigo Von Trina, para você, a cultura será uma botija de oxigénio ... ?: -“Talvez seja mais, um movimento ecologista”. – Que livro anda a ler ...?: - “Ando a ler dois: “Baldios”, de José Tolentino Mendonça e “Canto de Mim Mesmo” (edição bilingue), de Walt Whitman”.  – Autores e livros preferidos ... ?:  _”Autores: Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, Fernando Pessoa, Hermann Hesse, José Saramago e Júlio Roberto.  Livros: “Paris é Uma Festa”, de E. Hemingway – “Confesso que Vivi – Memórias”, de Pablo Neruda – “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera – “Clepsidra”, de Camilo Pessanha – e tantos outros !”.  – Música e autores preferidos ... ?: - “Aqui sim é verdadeiramente impossível sintetizar, mas omitindo tantos e tantos alguns por falta de memória ... aqui vai: (old) Jazz, Blues, Fado de Coimbra e Pop / Rock.  Charlie Parker; Duke Ellington, Louis Armstrong, Fats Domino, John Lee Hooker; Muddy Waters, George Gershwin, Billy Haley, Bryan ferry, Dire Straits, G.N.R, Simon & Garfunker, Talking Heads, Tom Waists, UB 40, ª Menano, ª Góis, Fernando Machado Soares e Manuel Branquinho”. – O Filme comercial que você mais gostou ... ?: - “Voando Sobre um Ninho de Cucos”.  – Para terminar, fale-nos um pouco da sua obra literária ... ?: -  “Digamos ... poesia descontínua dispersa, com diferentes pseudónimos, por vários jornais e revistas, desde os doze anos. A partir de 1996, iniciei publicação regular de poesia (antologias, da «Poesia lV» - 1996 – 1996 da «Poesia Vlll» - 1997 da Editorial Minerva e “Poetas do Concelho de Gouveia ll» - 1998, de António de Matos). Ainda em 1998, vi vários poemas meus serem apresentados no espectáculo «Noite de Poesia», do grupo “Escola Velha – Teatro de Gouveia”. Em 1999, fui incluído no CD de poesia «Assim se diz», da Editorial Minerva, ano em que também, me vi representado no reportório do “Jograis Orpheu”. Finalmente, no mítico ano 2000, publiquei o meu livro «A Dávida Astúciosa dos Deuses» (poesia) com a chancela da Editorial Minerva”.
E assim falámos de: VON  TRINA
Que profissionalmente nos disse que era: “algo entre o vendedor e o relações públicas, na área de embalagens de cartão CANELADO / ONDELADO”, além de umas coisas mais que lhe davam para de quando em vez, beber uns copos...


Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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