"Lá na leal cidade,
donde teve / Origem
– como é fama – o
nome eterno / De
Portugal ..." (Camões).
Embora seja um "mouro"
de Lisboa, é sempre
com enorme prazer
que visito o Porto.
Combinámos a
entrevista com a
MARIA MANUEL SALAZAR
GUEDES da SILVA (nome
literário MARIA
BULAC) , perto do
Estádio do Boavista,
inesperadamente
campeão português de
futebol da época
2000 / 2001. Depois
do encontro, fomos
até aos jardins do
Palácio do Freixo,
onde o arquitecto
Nicolau Nasoni
imprimiu um notável
dinamismo a este
palácio estilo
barroco. E admirando
os pináculos,
balaustradas e
frontões recortados,
começámos a
entrevista: - Maria
Bulac, quando você
era criança ... : -"Olha
Carlos, no meu álbum
de fotografias a mãe-coruja
escreveu "meiguinha
e muito teimosa".
Lembro-me de ser
pouco sociável e
individualista, o
meu pai chamava-me
"bicho do mato" e os
meus colegas "gata
brava do monte". – E
hoje, como é que
você se auto-define
... ?: -"Reservada,
bem-humorada,
solitária, boa
ouvinte,
disparatada,
equilibrada, serena,
lutadora, tolerante,
muito exigente,
contraditória ...".
– Qual a
característica que
mais aprecia em si,
e, nos outros ... ?:
-"Em ambos os casos
a autenticidade". –
E a sua melhor
qualidade, e, seu
maior defeito ... ?:
-"Qualidade, a
lealdade; defeito, a
ironia". – Quais os
seus passatempos
preferidos ... ?:
-"Um ficheiro de
Excel, ler, escrever,
e o silêncio (sozinha
ou bem acompanhada).
– Como vai a Maria
de amores ... ?: -"Há
alguém especial de
quem gosto muito,
mas pouco – muito em
quantidade e
qualidade, pouco em
"tempo que me
disponho partilhar".
(Felizmente "o
paciente" é tão
solitário e
independente como eu
...!)". – Qual foi o
maior desafio que
aceitou até hoje ...
?: -"Ter filhos". –
De que mais se
orgulha ... ?: -"Do
relacionamento que
tenho com os meus
filhos (a Teresa,
com 10 anos, e o
Manuel com 09)". –
Que género de filme
daria sua vida ...
?: -"Introspectivo
de final aberto". –
Para a Maria, qual o
cúmulo da beleza, e,
da fealdade ... ?:
-"Beleza, o
amanhecer no campo,
com neblina, e o
anoitecer com nuvens
à beira-mar;
feladade, lixeiras a
céu aberto". – O
arrependimento mata
... ?: -"Arrependimento
não mata ..., mas
dói!". – Uma imagem
do passado que não
quer esquecer no
futuro ... ?: -"The
day after". – As
piadas às louras são
injustas ... ?: -"Tão
injustas como as
piadas sexistas, a
alentejanos, ou
portugueses (há
muitas, contadas por
brasileiros). Uma
"piada" não tem que
ser justa, basta que
tenha realmente
piada". – Que vício
gostaria de não ter
... ?: -"São dois:
tabaco e cepticismo".
– Qual a personagem
que mais admira ...
?: -"Todas as que se
consagram
incondicionalmente
àquilo em que
acreditam, como D.
Afonso Henriques (1º
rei de Portugal),
Andy Warhol,
Asterix, Freude,
Caím, Gandhi,
Humberto Delgado,
Dr. Jekill, Jesus,
Marie Curie,
Pinicchio, Romeu e
Julieta, Xanana, Zé
do Telhado, etc.": -
O dia começa bem se
... ?: -"...
acordamos. Viver é
Bom !!!". – Que
influência tem na
Maria a queda da
folha e a chegada do
frio ... ?:
-"Tranquiliza-me. O
Outono é a minha
estação preferida".
– Estou a olhar para
aquela linda roda
vermelha. A
propósito, esse, de
repente lhe
oferecerem flores,
isso é ... ?: - ...
uma grande
demonstração de
ternura”. – Tenho
muito prazer em
oferecê-la. Agora
mudando de tema: O
que é para você o
Esoterismo ... ?: -
“É a essência que se
obtém por extracção,
a quente, de uma
amálgama de fantasia,
certezas e fé”. –
Acredita na
reencarnação ... ?:
-“Não”. – Acredita
em fantasmas ou em
“almas do outro
mundo” ...?: -“Em
fantasmas não. Em
almas do outro
mundo, espíritos e
afins, a minha razão
diz que também não,
mas ... sinto-os.
Sinto a presença dos
“meus mortos” com
alguma frequência,
velando por mim
...”. – O Imaginário
será um sonho da
realidade ... ?:
-“... ou isso, ou a
realidade dos sonhos
...”. – Acredita em
histórias
fantásticas ... ?:
-“Acredito, às vezes
com mais facilidade
do que em histórias
muito “certinhas”. É
evidente que depende
muito de quem as
conta e, mais ainda,
de como são
contadas”. – Para a
Maria, Deus existe
... ?: -
“Sinceramente não
sei”.
Mas o certo naquele
momento era que
tinha chegado a hora
do almoço e nossos
estômagos já
começavam “a dar
horas”. Fomos até à
zona ribeirinha do
Porto, e num
restaurante típico,
encomendámos
“caldeirada de peixe”,
e excepcionalmente
para a nossa
convidada,
acompanhada por
vinho da região do
Douro. Enquanto
esperávamos pela
refeição, a nossa
simpática convidada
perguntar se podia
“divagar um pouco
pela cidade do
Porto”. Respondemos
que teríamos grande
prazer em ouvi-la.
Com os olhos fixos
no Rio Douro, a
Maria começou a
divagar: - “Há três
situações que
particularmente me
estimulam nesta
cidade: 01º - A
vista de minha casa,
focalizada na
estátua da Rotunda
da Boavista ... “Foi
até à varanda e
espreguiçou os olhos
em frente. A estátua
central da praça
atraiu-lhe o olhar,
erguendo-se ao longe,
e não pôde evitar um
sorriso, “a águia
napoleónica esmagada
pelo leão ibérico”
... (com o auxílio
dos ingleses, é
certo!).
Esteticamente
constituía uma visão
linda! Uma coluna de
granito de porte
distinto, esbelta e
bem lançada aos céus,
encimada por uma
escultura em bronze,
àquela distância
difícil de
particularizar. A
iluminação
ascendente realçava-lhe
o movimento, a
agitação, o alvoroço.
A névoa sinuosa
avançava, ganhando
forma com autoridade
e subtileza,
coroando-a com
surrealismo” -;- 02º
- A praia do molhe
... “Pelo carreiro
junto ao mar, por
trás do jardim.
Estava a escurecer,
uma névoa ligeira
avançava desde o
horizonte ao seu
encontro trazendo
consigo um
inebriante cheiro de
maresia e iodo.
Parou, bem de frente
para o Sol, agora
avermelhado, fraco,
uma bandeira içada a
meia haste, e abriu
os braços para se
entregar àquela
paisagem aromática
que de tanto prazer
a inundava. Por
momentos sentiu-se
parte dela, talvez
uma daquelas nuvens
rosadas que tinham o
privilégio de se
interporem entre o
sol e a terra ...
Entrou no
restaurante do
largo, junto à praia,
e escolheu uma mesa
junto às janelas
para poder apreciar
as ondas. Lamentava
a moda destes locais
servirem também
música ambiente, que
se sobreponha ao
restolhar das ondas
... Do local onde se
instalara via dois
vultos no fundo do
paredão, onde o mar
dá a volta e,
enfurecido, cospe
salitre ais céus”
-;- 03º - A marginal
do Douro ...
“Decidiu fazer um
desvio pela marginal
para poder apreciar
a sua própria
companhia naquele
fim de tarde com a
auréola de epílogo.
O rio Douro visto
assim, de frente
para o Sol quase
posto, deslizando
docilmente para o
mar, podia
simbolizar a
representação
artística do
destino: venham
tempestades ou
bonanças, claridade
ou trevas, o rio
segue
indispensavelmente o
seu curso, agora
conformado,
tranquilo, sereno
... A luminosidade
fugidia do céu nas
suas nuances de
azul-cinza e rosa-fogo
apadrinha toda a
versatilidade do rio,
variações do ouro,
do fogo e da cinza
deslizando
irrevogavelmente
para o mar, unindo-se
a ele em total
harmonia. O rio
caprichoso perde
assim a sua
identidade por uma
causa global e
imutável, caminhando
inexoravelmente para
um fim grandioso,
singular,
envolvente”.
A nossa convidada
tem os dotes
oratórios notáveis !
Durante a refeição
ainda colocámos duas
questões à Maria: -
Que livro anda você
a ler ... ?: -“Leio
sempre dois livros
em paralelo. Neste
momento “Rosa do
Mundo”, da Assírio &
Alvim, e “Viver
Todos os Dias
Cansa”, do Pedro
Paixão”. – A Cultura
será uma botija de
oxigénio ... ?: -“Não,
é o oxigénio
enquanto componente
da atmosfera, e que
existe em diferentes
proporções consoante
a “altitude” e a “poluição”.
Atravessámos a ponte
e fomos tomar o café
à Serra do Pilar
donde se avista uma
linda panorâmica da
cidade do Porto. Foi
aí que fizemos a
parte final da
entrevista. – Maria,
quais os seus
autores e livros
preferidos ... : -
“Autores: Isabel
Allende, Eça de
Queirós, Flobela
Espanca, Al Berto,
Lobo Antunes e
Dostoievki. Livros:
“Como Água para
Chocolate”, de Laura
Esquivel – “O
Anatomista” de ...
falha-me agora o
autor... – “A Vida
depois de Deus”, de
Douglas Coupland –
“800 anos de Poesia
Portuguesa”,
antologia, por
Orlando Neves e
Serafim Ferreira – e
outros”. – E música
e autores preferidos
... ?: -“Música: o
género de música que
escolho depende
muito do estado de
espírito. Autores:
Maria Bethânia, GNR,
Chutos e Pontapés,
Rui Veloso, Dvorak e
Pedro Burmester”. –
O filme comercial
que mais gostou ...
?: -“Eduardo – Mãos
de Tesoura” (Tim
Burton)”. – Para
terminar, pedimos à
Maria que nos fale
da sua obra
literária ... ?: -“Bom,
... andei
recentemente em
arrumações e
descobri escritos de
1978, contos e
histórias algo
ingénuas. Algum
tempo depois tive um
poema e um conto
meus publicados numa
revista actualmente
já extinta.
Continuei escrevendo
(para a gaveta)
poesia e contos, e a
10 de Novembro
(2001) vai ser a
apresentação do meu
primeiro livro,
publicado pela
Editorial Minerva –
“Contos e
Sentimentos”, sob o
pseudónimo Maria
Bulac”.
E assim falámos de:
MARIA MANUEL SALAZAR
GUEDES da SILVA «»
Sémen, o elemento
proscrito
Madalena perdera
Henrique. Perdeu-o
triplamente: como
amante, como homem,
como ser.
Faseadamente: na
paixão, na
intimidade, agora no
rasto. Amargamente:
com raiva, com
sofrimento, com
agonia. Madalena
amara Henrique
sofregamente, com
loucura, devoção,
ansiedade. Ele amou-a
em desespero e
contradição,
avidamente,
incompreensivelmente.
Atormentado e
errante amou-a com
surpresa e assombro,
de forma intensa e
excessiva.
Madalena e Henrique
amaram-se muito para
além do próprio
Amor, dolorosamente,
com paixão e
despeito, cobiça e
repulsa, carinho e
raiva, desejo, fome,
sede, lascívia,
ímpeto, obstinação...
e porque a violência
de um tal amor se
tornou insustentável
esquivaram-se-lhe.
Evitaram-no.
Distanciaram-se
inapta e
irremediavelmente.
Madalena nega-se a
encontrar Henrique
em algum outro homem.
Henrique procura
Madalena em cada
mulher. O ar gélido
da serra adquiria
identidade,
personalidade, como
se cristalizado na
pureza do Inverno. A
neve que caíra
durante a noite dava-se
ares de soberana
ante os primeiros
raios de sol, um sol
distante e frio,
enérgico,
indiferente,
intáctil. Grossas
meias e camisolas,
botas forradas a
pelo de ovelha,
gorro, luvas e
cachecol não
impediam Madalena de
sentir uma frialdade
sadia que se lhe
apossava dos ossos a
partir dos artelhos
e entranhava o peito,
veiculada pelo ar
inspirado. Caminhava
montanha acima
desfrutando
saborosamente a
tranquilidade dos
caminhos desertos
àquela hora da manhã,
sabendo que dentro
de apenas algumas
horas o ambiente se
tornaria
efervescente,
centenas de turistas
em ebulição na ânsia
afrodisíaca de se
espojarem na neve.
Restava-lhe pouco
tempo para se
consagrar, unir,
imolar, restava-lhe
mesmo muito pouco
tempo para se deixar
possuir pelo ar que
cheirava a sémen e
pulsava de desejo. À
medida que progredia
em direcção ao topo
o percurso era
dificultado pelos
pedregulhos que
geravam gelo, a
vegetação rasteira
semi-sepultada pela
neve, as árvores e
arbustos alquebrados
pelo peso alvo e
persistente que se
lhes apoderara da
folhagem - Madalena
seleccionara sempre,
a cada encruzilhada,
o trilho mais
abrolhoso. A pressa
de chegar ao topo
amalgamada com o
prazer de se
embrenhar na
natureza abstrusa,
onde o ar era mais
completo, íntegro,
virginal... - e a
subida tornava-se
quase dolorosa, e
Madalena corria,
escorregando,
desequilibrando-se,
resvalando, erguendo-se,
correndo, correndo,
correndo. O cume! Os
pés finalmente
quentes. Os joelhos
trémulos. O coração
acelerado. A
respiração ofegante.
Os olhos luminosos
humedecidos pelo
vento cortante. A
visão meio turva.
Uma zoeira nos
ouvidos. O espírito
cambaleante,
dormente... Do ar
corporizou-se
Henrique. Susteve-a
docemente e levou-a
consigo para além da
nebulosidade esparsa
que vigiava a serra.
O ar tornava- se
cada vez mais
rarefeito, assim se
tornando as afeições,
leves e serenas
debruadas a destino
tranquilo. O olhar
dele, confiante e
terno, cobria-a de
beijos amorosos,
deambulando por
aquele corpo tão seu,
celebrando cada
momento de prazer
extremo e uno vivido
a dois. Madalena a
custo sustinha a
intensidade da
ternura no olhar de
Henrique, a
veemência do desejo
no auge do bem-e-muito-querer...
Enlaçou-o fortemente
pelo pescoço
tresloucada de
paixão, ele refreou
- lhe o ímpeto num
gesto categórico,
mas com doçura,
suavidade, prendeu -
lhe os pulsos numa
mão apenas, para lhe
poder envolver a
cintura com a outra,
imobilizando-a para
melhor a poder
namorar nos olhos.
Ela escondeu o rosto
no seu ombro, perdeu
algumas lágrimas, -
na serra chuviscou -
e ele mordeu-a na
clavícula, no
pescoço, na orelha,
imprimindo o recorte
dos seus dentes a
vermelho aceso,
fazendo-a gemer, com
o próprio queixo fê-la
levantar para si o
rosto, num roçar de
testa e nariz e boca
todo ternura, fixou-lhe
as profundezas da
alma, aproximou os
lábios dos dela, ela
podia apenas mover
as pernas, e com uma
o prendeu e a outra
o provocou, leve,
imponderável,
sentindo-se quase
volatilizar no odor
quente que dele
emanava, dissolver-se-lhe
na pele, unir-se-lhe
na carne. Os dois
num só corpo
percorreram toda a
serra lá do alto,
autenticados pelo
domínio do ar,
apreciando a beleza
volúvel da sombra
das nuvens na
paisagem de fogosas
encostas manchadas
de verdes e neve,
salpicadas de
preciosas pedras
graníticas cujas
partículas de sílica
ofuscavam o próprio
sol. Começou a
anoitecer. As nuvens
multiplicaram-se e
as sombras escuras
na serra alastravam
e adensavam-se,
movendo-se pelo
vento que começara a
soprar forte. O sol,
recatado, espreitava
o próprio reflexo
numa lagoa perdida,
e Henrique e
Madalena acreditaram
ser o próprio Deus
alongando-se desde o
céu ao abismo do
vale mais ermo em
braços de fogo
abençoando a terra,
o ar por eles
atravessado
purificado,
depurando de dor
cada auto de amor.
De repente o vento
assanhado redobrou
em fúrias, revolveu
a natureza
surpreendida, e era
a lagoa que erguia
aos céus braços
revoltados cansados
da vida, o ar
enfraqueceu
dispersado pelo
ciúme da terra, o
vento atravessou as
nuvens que acoitam
amantes e amputou-os
com violência,
arremessando-os ao
solo para bem longe
um do outro. Fez-se
noite cerrada. Numa
escuridão total
Madalena tacteou um
deserto de terra
ressequida cheirando
a poeira, quase
duvidando da
veracidade daquela
negrura devoradora.
Desorientada
deambulou à toa,
arrastando os pés já
que não podia ver
onde pisava. Assim
que uma luz ténue e
muito difusa
anunciou a alvorada
grossas gotas de
chuva desceram para
libertar dos torrões
de terra o seu
cheiro quente,
pastoso e fecundo.
Embatiam no solo
salpicando em redor,
e deixavam a
superfície, agora
fumegante, da terra,
adornada de relevos
lunares, para
pararem assim que,
em toda a sua
extensão, a cor
castanho barrento
original renascia.
Olhou em redor:
encontrava-se no
meio de uma imensa
planície abandonada
e estéril. Focando a
visão em direcção ao
nascer do sol
parecia-lhe haver um
vulto sombrio no
contra-luz dos raios
dourados, iniciando
uma longa caminhada
nessa direcção - só
poderia ser Henrique!
Aproximou-se
sorrateiramente.
Discretamente. (Ele
encontrava - se
recostado numa
poltrona de terra
macia e compacta que
a chuva não se
atrevera a tocar.)
Acocorou-se-lhe
junto aos pés e
começou a massajar-lhos
displicentemente,
como se as chispas
que lhe saltavam dos
olhos lhe fossem
alheias. Como se o
único propósito da
jornada de todo
aquele dia fosse
mesmo massajar-lhe
os pés. (Começara a
escurecer, e,
estranhamente, o sol
punha-se no local
exacto de onde se
erguera, iluminando
a fogo o vulto dele.)
Tocava-lhe com
doçura passando os
dedos pelo peito do
pé em direcção a
cada um dos dedos,
pressionando através
das peúgas com uma
sabedoria que
evitava o reflexo de
fuga à cócega,
apenas o fazendo
adivinhar a sua
presença. Sacou-lhe
as peúgas e delas se
desfez em pó, fê-lo
sentir a sua
presença pele-na-pele.
Os olhos dele
mantinham-se
corridos, o rosto
inexpressivo, os
dela, ardentes, cada
vez mais para além
da roupa. Assim como
lhe podia apreciar o
pé esguio de unhas
quadradas, o
tornozelo magro
prenunciando a perna
peluda, via também o
joelho ossudo, a
coxa firme alongada
pela ganga negra, o
volume anormal sob
os botões de prego
das calças... O
cheiro retinto a
terra recém -
molhada embriagava-os.
Ele abriu os olhos
no momento em que os
dela os procuraram.
Penetraram-se.
Irresistivelmente.
Intensa e longamente
penetraram-se
pupila-na-pupila, e
enquanto durou a
cópula dos olhares
ela desapertou-lhe o
cinto de cabedal
coçado, ele
desabotoou as calças,
impaciente mas
lentamente, as mãos
de um atrapalhando
os dedos meio
trémulos do outro,
desceu-as até meia-coxa
e ela livrou-o delas
com a facilidade de
quem tira a própria
T-shirt. Foi então
que o fitou com a
ternura de quem revê
um velho amigo,
ambos estáticos por
arrastados segundos.
Ela beijou-o
suavemente nas faces
rosadas; ele babou-lhe
o rosto com firmeza
e determinação; ela
quis que fosse seu,
emoldurou -o com as
mãos em prece e
tocou-lhe,
brincando, com o
nariz empertigado;
ele empertigou-se e
quis apossar-se dela;
ela deixou; apossou-se
ela dele todo - os
seus lábios
conheciam-lhe a pele
macia melhor que à
das próprias mãos,
conheciam-lhe a
linha da vida, a do
desejo, a do prazer.
Cerrou os olhos
vendo-a assim
deleitada. Henrique
cerrou os olhos e
contemplou-a
deliciando-se no
Prazer com a certeza
de quem ama...
Madalena apreciava-lhe
agora a expressão de
entrega sabendo - o
infinitamente seu,
e, assim que ele
entreabriu as
portadas para a sua
escura e densa alma
ela concentrou-se
toda na satisfação
de ambos, queria
sentir pelos dois,
viver a duplicar um
climax emocional
elevado ao quadrado,
a vinte, a duzentos,
sobreviver intacta a
um orgasmo quase
físico multiplicado
por tudo e elevado
ao infinito. Um
vento brando e
quente, secando a
terra, fazia erguer
do solo um manto de
poeira virgem para
os resguardar.
Henrique filou-lhe
os ombros e puxou-a
para si fazendo-a
voar na sua direcção,
quase a penetrando.
Madalena sentiu-o
mais uma vez, agora
a boca-na-boca,
completando-se
irremediável e
eternamente.
Possuído por uma
energia estranha,
divina e demoníaca,
ele subjugou-a sob o
seu peso, quis
dar-se a possuir até
à exaustão, penetrá-la
até ao útero e para
além da alma. Ela
amou-lhe a língua,
lambuzou-lhe os
lábios, violou-lhe
cada narina com a
impiedade de uma
boca esfaimada, ele
desviou o rosto, ela
sugou-lhe os
tímpanos, quis
percorrer cada prega
do seu labirinto
auricular com a
ponta de uma língua
astuta e perversa. A
terra amoleceu
subjugada pelo fardo
de tanta Paixão, o
solo afastou - se
radialmente numa
circunferência que
os tinha como
centro, dando origem
a um pântano de
lamas movediças.
Henrique e Madalena
aperceberam-se em
simultâneo do abraço
macio que os engolia,
e logo depois da
inutilidade de
resistir. Ao
tentarem alcançar a
margem, debatendo-se,
a terra dissolvia-se-lhes
nos dedos e o
pântano crescia uma
mão travessa, os
seus corpos
afundavam-se um
palmo, arrastados
numa corrente
inexplicável directa
ao pôr-do-sol. O rio
nascia mesmo ali,
onde o sol se
recolhe dentro do
pote de ouro que
existe no final de
cada arco-íris. Uma
água risonha surgia
do nada por entre o
granito fecundo,
grandes moles de
granito agreste
polinizado por
musgos sempre jovens.
Madalena quedou-se
em observação atenta
às miríades de
microscópicos arco-íris
que saltaricavam por
entre a água.
Enamorando-se de um
deles iniciou uma
deliciosa caminhada
em sua perseguição,
acompanhando o
percurso do ribeiro
pela margem
solarenga. Largos
quilómetros mais
abaixo apercebeu-se
de que era seguida,
por um ramo que se
partia com algum
atraso em relação
aos seus passos,
pela folhagem
rufando para dar
passagem a outro
corpo que não o seu,
por um hálito humano
trazido pela aragem...
Mas os seus olhos
não podiam
desviar-se do arco-íris
rio abaixo.
Subitamente o sol
encobriu-se e, acto
contínuo, ela voltou-se
para trás - o rio
perdera a cor - a
tempo de se ver
fortemente enlaçada
pelos braços de
Henrique que se
acelerara para ela.
Aperceberam-se de
que haviam sido
ambos demolhados em
líquido amniótico,
ensebados qual recém-nascido
ainda ligado à
eternidade pelo
cordão umbilical.
Penetraram, ainda
abraçados, na
candura do curso de
água para se lavarem.
O jovem ribeiro
contornava-lhes os
corpos com uma
alegria infantil que
demonstrava através
dos salpicos em seu
redor, das folhas
caídas das árvores,
que os ultrapassavam,
do fundo macio e
sedoso, dos godos
coloridos arrastados
algumas voltas pela
corrente. Lavaram-se
mutuamente como um
felino lambe a cria
ou uma fêmea de
gorila cata o seu
macho, com a mesma
devoção e o mesmo
prazer, com a
inevitabilidade com
que a chuva banha as
vidraças ou os
ventos depuram o
solo, ou como o mar
lambe a terra e ela
se lhe dá inteira,
fatalmente. Então
imaculados seguiram
rio abaixo. As
margens de elevadas
serras acompanharam-nos
serenamente,
descendo até eles
por discretos
socalcos já gastos,
orgulhosas do
arvoredo que exibiam,
da folhagem de todos
os verdes, amarelos
e ocres, e vermelhos,
e castanhos... O sol
se pondo reflectia
na água esses mesmos
verdes, amarelos,
ocres, vermelhos e
castanhos, e rio
abaixo foi
anoitecendo, os
cinzentos apossando-se
das águas, os corpos
radiantes emanando
uma luminosidade
feita de todas as
cores - a água
aquecia amorosamente
para os acobertar -
e anoiteceu em negro
azeviche. Henrique e
Madalena encontraram
uma baía de areias
finas onde se
dispunham ancorar
para passar a noite,
mas subitamente uma
forte corrente os
arrastou rio abaixo,
atabalhoadamente,
fazendo-os gemer na
pele arranhada, nos
ossos esforçados, na
carne violentada, e
depois galgando a
margem, a água em
crostas de lava,
aquecendo, trepando
serra acima,
ondulante e firme em
direcção ao cume
deixando um trilho
de destruição
fumegante. O rio,
agora de lava
incandescente,
deixava-se sugar por
um vulcão faminto,
com ele arrastando
os amantes feridos.
Um baque surdo, e
cego também, e dois
corpos maltratados
caíram no centro de
um poço
incandescente onde
lava se sumia.
Inanimados. Uma
massa única de pele
e sangue. As paredes
do poço
multiplicavam-se em
labaredas que
ansiavam o alto, se
fragmentavam,
renasciam, pariam
outras labaredas que
aspiravam aos céus.
Henrique abriu os
olhos e de imediato
as chamas se
reflectiram no negro
terroso da sua íris.
Nos de Madalena
havia memórias de ar
e água entre azuis e
verdes esforçados, o
ar que alimenta o
fogo, a água que
fertiliza a terra...
Fatalmente siameses
escalaram as chamas
paulatinamente, numa
conjugação de
esforços e vontades
atingindo a
perfeição, numa
valentia amorosa
cobiçada pelos
Deuses, numa
tranquilidade
consciente da
imensidão sempiterna
do espaço e do
tempo. Eram um só
quando atingiram o
cimo, imateriais
como o fogo,
intangíveis como o
ar, como a terra
perpétuos e
absolutos como a
água. Era uma quase-madrugada
de Outono semelhante
a milhares de outras.
O Sol erguia-se a
custo, impreciso...
O Outono das almas
em folhas raptadas
pelos ventos, em
rodopios de tons
quentes,
prenunciavam os
frios de Invernos
inanimados. O mesmo
banco de jardim. A
mesma velha senhora
fitando o rio. Dias
a fio. Semanas.
Desde o solestício
deste Outono que ali
gastava os dias à
espera, uma espera
amarrada à convicção
de alcançar. O
azul-verde esforçado
dos seus olhos
perdia-se na
contemplação da
paisagem
interrompida, do
leito do rio que
corria em ouro e
prata incansáveis
para o mar. O Mundo
acabaria, para ela
acabaria, quando,
mas só quando!, a
espera terminasse. A
Serenidade habitava-a.
Tranqilidade e Paz.
Certeza. Alguma
força não
identificada
arrancou-o à cama
bem cedo naquela
manhã tardia. Gasto,
esgotado,
insatisfeito. Dias e
dias perdidos
naquela cama,
naquele quarto,
naquela sua vida.
Teve vontade de se
escanhoar, havia
tanto tempo que não
o fazia... Caminhou
arrastado até ao
velho banco de
jardim sobranceiro
ao rio. O Sol
erguendo-se a custo,
impreciso... Viu-a
jovem revendo-se no
rio, e muitos outros
jovens inexistentes
àquela hora da manhã.
Ficou paralisado de
emoção, trôpego das
ideias, eufórico e
amedrontado, queria
correr para ela,
pegar-lhe ao colo
num rodopio de
ternura, mas quedou-se
extático com um nó
na garganta, um
aperto no peito,
lágrimas fáceis.
Lentamente ela
voltou-se. Todos os
outros jovens de
algumas gerações
atrás se esfumaram
nos caminhos de
nevoeiro gerados no
rio. Ele foi olhado
pela primeira vez
pela milésima vez.
Foi reinventado por
ela, e ela por ele.
Fitaram-se com os
olhos apaixonados de
todas as gerações e
não se esfumaram nos
caminhos tortuosos
do destino. Gerações
atrás aqueles dois
jovens voluptuosos
fitaram-se realmente
pela primeira vez
para jamais se
desfitarem, e
inventar o Amor. À
sobreposse.
Incapazes de o
alimentar, de
conviver com a
própria invenção,
envelheceram
distantes, unidos
apenas nos quatro
elementos,
consagrando-se
apenas e sempre que
a terra e a água, o
ar e o fogo, se
completaram. Unidos
para sempre a uma
distância
devastadora. Lado a
lado viram então o
rio esgotar-se, o
Sol esvair-se, o
Outono finar-se,
viram a instalação
do Inverno naquele
banco de jardim,
agora acossado pelo
vento e
inconciliável com o
nevoeiro. Um no
outro, dois num só,
o Amor, a Eternidade,
a bonança das almas
enfim apaziguadas.
Aprenderam-no
finalmente, muito no
finzinho do Inverno,
quando a última
folha outonal, já
ressequida, teimosa,
descorada, se
desprendeu da última
árvore que ainda
alimentava uma
derradeira vida,
sentindo ainda uma
felicidade de
folhinha gerada na
Primavera passada...
( Setembro 200)