Maria Bulac
 
 

 

 
"Lá na leal cidade, donde teve / Origem – como é fama – o nome eterno / De Portugal ..." (Camões).
Embora seja um "mouro" de Lisboa, é sempre com enorme prazer que visito o Porto. Combinámos a entrevista com a MARIA MANUEL SALAZAR GUEDES da SILVA (nome literário MARIA BULAC)  , perto do Estádio do Boavista, inesperadamente campeão português de futebol da época 2000 / 2001. Depois do encontro, fomos até aos jardins do Palácio do Freixo, onde o arquitecto Nicolau Nasoni imprimiu um notável dinamismo a este palácio estilo barroco. E admirando os pináculos, balaustradas e frontões recortados, começámos a entrevista: - Maria Bulac, quando você era criança ... : -"Olha Carlos, no meu álbum de fotografias a mãe-coruja escreveu "meiguinha e muito teimosa". Lembro-me de ser pouco sociável e individualista, o meu pai chamava-me "bicho do mato" e os meus colegas "gata brava do monte". – E hoje, como é que você se auto-define ... ?: -"Reservada, bem-humorada, solitária, boa ouvinte, disparatada, equilibrada, serena, lutadora, tolerante, muito exigente, contraditória ...". – Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros ... ?: -"Em ambos os casos a autenticidade". – E a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito ... ?: -"Qualidade, a lealdade; defeito, a ironia". – Quais os seus passatempos preferidos ... ?: -"Um ficheiro de Excel, ler, escrever, e o silêncio (sozinha ou bem acompanhada). – Como vai a Maria de amores ... ?: -"Há alguém especial de quem gosto muito, mas pouco – muito em quantidade e qualidade, pouco em "tempo que me disponho partilhar". (Felizmente "o paciente" é tão solitário e independente como eu ...!)". – Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ... ?: -"Ter filhos". – De que mais se orgulha ... ?: -"Do relacionamento que tenho com os meus filhos (a Teresa, com 10 anos, e o Manuel com 09)". – Que género de filme daria sua vida ... ?: -"Introspectivo de final aberto". – Para a Maria, qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade ... ?: -"Beleza, o amanhecer no campo, com neblina, e o anoitecer com nuvens à beira-mar; feladade, lixeiras a céu aberto". – O arrependimento mata ... ?: -"Arrependimento não mata ..., mas dói!". – Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ... ?: -"The day after". – As piadas às louras são injustas ... ?: -"Tão injustas como as piadas sexistas, a alentejanos, ou portugueses (há muitas, contadas por brasileiros). Uma "piada" não tem que ser justa, basta que tenha realmente piada". – Que vício gostaria de não ter ... ?: -"São dois: tabaco e cepticismo". – Qual a personagem que mais admira ... ?: -"Todas as que se consagram incondicionalmente àquilo em que acreditam, como D. Afonso Henriques (1º rei de Portugal), Andy Warhol, Asterix, Freude, Caím, Gandhi, Humberto Delgado, Dr. Jekill, Jesus, Marie Curie, Pinicchio, Romeu e Julieta, Xanana, Zé do Telhado, etc.": - O dia começa bem se ... ?: -"... acordamos. Viver é Bom !!!". – Que influência tem na Maria a queda da folha e a chegada do frio ... ?: -"Tranquiliza-me. O Outono é a minha estação preferida". – Estou a olhar para aquela linda roda vermelha. A propósito, esse, de repente lhe oferecerem flores, isso é ... ?: - ... uma grande demonstração de ternura”. – Tenho muito prazer em oferecê-la. Agora mudando de tema: O que é para você o Esoterismo ... ?: - “É a essência que se obtém por extracção, a quente, de uma amálgama de fantasia, certezas e fé”. – Acredita na reencarnação ... ?: -“Não”. – Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo” ...?: -“Em fantasmas não. Em almas do outro mundo, espíritos e afins, a minha razão diz que também não, mas ... sinto-os. Sinto a presença dos “meus mortos” com alguma frequência, velando por mim ...”. – O Imaginário será um sonho da realidade ... ?: -“... ou isso, ou a realidade dos sonhos ...”. – Acredita em histórias fantásticas ... ?: -“Acredito, às vezes com mais facilidade do que em histórias muito “certinhas”. É evidente que depende muito de quem as conta e, mais ainda, de como são contadas”. – Para a Maria, Deus existe ... ?: - “Sinceramente não sei”.
Mas o certo naquele momento era que tinha chegado a hora do almoço e nossos estômagos já começavam “a dar horas”. Fomos até à zona ribeirinha do Porto, e num restaurante típico, encomendámos “caldeirada de peixe”, e excepcionalmente para a nossa convidada, acompanhada por vinho da região do Douro. Enquanto esperávamos pela refeição, a nossa simpática convidada perguntar se podia “divagar um pouco pela cidade do Porto”. Respondemos que teríamos grande prazer em ouvi-la. Com os olhos fixos no Rio Douro, a Maria começou a divagar: - “Há três situações que particularmente me estimulam nesta cidade: 01º - A vista de minha casa, focalizada na estátua da Rotunda da Boavista ... “Foi até à varanda e espreguiçou os olhos em frente. A estátua central da praça atraiu-lhe o olhar, erguendo-se ao longe, e não pôde evitar um sorriso, “a águia napoleónica esmagada pelo leão ibérico” ... (com o auxílio dos ingleses, é certo!). Esteticamente constituía uma visão linda! Uma coluna de granito de porte distinto, esbelta e bem lançada aos céus, encimada por uma escultura em bronze, àquela distância difícil de particularizar. A iluminação ascendente realçava-lhe o movimento, a agitação, o alvoroço. A névoa sinuosa avançava, ganhando forma com autoridade e subtileza, coroando-a com surrealismo” -;- 02º - A praia do molhe ... “Pelo carreiro junto ao mar, por trás do jardim. Estava a escurecer, uma névoa ligeira avançava desde o horizonte ao seu encontro trazendo consigo um inebriante cheiro de maresia e iodo. Parou, bem de frente para o Sol, agora avermelhado, fraco, uma bandeira içada a meia haste, e abriu os braços para se entregar àquela paisagem aromática que de tanto prazer a inundava. Por momentos sentiu-se parte dela, talvez uma daquelas nuvens rosadas que tinham o privilégio de se interporem entre o sol e a terra ... Entrou no restaurante do largo, junto à praia, e escolheu uma mesa junto às janelas para poder apreciar as ondas. Lamentava a moda destes locais servirem também música ambiente, que se sobreponha ao restolhar das ondas ... Do local onde se instalara via dois vultos no fundo do paredão, onde o mar dá a volta e, enfurecido, cospe salitre ais céus” -;- 03º - A marginal do Douro ... “Decidiu fazer um desvio pela marginal para poder apreciar a sua própria companhia naquele fim de tarde com a auréola de epílogo. O rio Douro visto assim, de frente para o Sol quase posto, deslizando docilmente para o mar, podia simbolizar a representação artística do destino: venham tempestades ou bonanças, claridade ou trevas, o rio segue indispensavelmente o seu curso, agora conformado, tranquilo, sereno ... A luminosidade fugidia do céu nas suas nuances de azul-cinza e rosa-fogo apadrinha toda a versatilidade do rio, variações do ouro, do fogo e da cinza deslizando irrevogavelmente para o mar, unindo-se a ele em total harmonia. O rio caprichoso perde assim a sua identidade por uma causa global e imutável, caminhando inexoravelmente para um fim grandioso, singular, envolvente”.
A nossa convidada tem os dotes oratórios notáveis ! Durante a refeição ainda colocámos duas questões à Maria: - Que livro anda você a ler ... ?: -“Leio sempre dois livros em paralelo. Neste momento “Rosa do Mundo”, da Assírio & Alvim, e “Viver Todos os Dias Cansa”, do Pedro Paixão”. – A Cultura será uma botija de oxigénio ... ?: -“Não, é o oxigénio enquanto componente da atmosfera, e que existe em diferentes proporções consoante a “altitude” e a “poluição”.
Atravessámos a ponte e fomos tomar o café à Serra do Pilar donde se avista uma linda panorâmica da cidade do Porto. Foi aí que fizemos a parte final da entrevista. – Maria, quais os seus autores e livros preferidos ... : - “Autores: Isabel Allende, Eça de Queirós, Flobela Espanca, Al Berto, Lobo Antunes e Dostoievki. Livros: “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquivel – “O Anatomista” de ... falha-me agora o autor... – “A Vida depois de Deus”, de Douglas Coupland – “800 anos de Poesia Portuguesa”, antologia, por Orlando Neves e Serafim Ferreira – e outros”. – E música e autores preferidos ... ?: -“Música: o género de música que escolho depende muito do estado de espírito. Autores: Maria Bethânia, GNR, Chutos e Pontapés, Rui Veloso, Dvorak e Pedro Burmester”. – O filme comercial que mais gostou ... ?: -“Eduardo – Mãos de Tesoura” (Tim Burton)”. – Para terminar, pedimos à Maria que nos fale da sua obra literária ... ?: -“Bom, ... andei recentemente em arrumações e descobri escritos de 1978, contos e histórias algo ingénuas. Algum tempo depois tive um poema e um conto meus publicados numa revista actualmente já extinta. Continuei escrevendo (para a gaveta) poesia e contos, e a 10 de Novembro (2001) vai ser a apresentação do meu primeiro livro, publicado pela Editorial Minerva – “Contos e Sentimentos”, sob o pseudónimo Maria Bulac”.
E assim falámos de: MARIA MANUEL SALAZAR GUEDES da SILVA «»
Sémen, o elemento proscrito
Madalena perdera Henrique. Perdeu-o triplamente: como amante, como homem, como ser. Faseadamente: na paixão, na intimidade, agora no rasto. Amargamente: com raiva, com sofrimento, com agonia. Madalena amara Henrique sofregamente, com loucura, devoção, ansiedade. Ele amou-a em desespero e contradição, avidamente, incompreensivelmente. Atormentado e errante amou-a com surpresa e assombro, de forma intensa e excessiva.
Madalena e Henrique amaram-se muito para além do próprio Amor, dolorosamente, com paixão e despeito, cobiça e repulsa, carinho e raiva, desejo, fome, sede, lascívia, ímpeto, obstinação... e porque a violência de um tal amor se tornou insustentável esquivaram-se-lhe. Evitaram-no. Distanciaram-se inapta e irremediavelmente.
Madalena nega-se a encontrar Henrique em algum outro homem. Henrique procura Madalena em cada mulher. O ar gélido da serra adquiria identidade, personalidade, como se cristalizado na pureza do Inverno. A neve que caíra durante a noite dava-se ares de soberana ante os primeiros raios de sol, um sol distante e frio, enérgico, indiferente, intáctil. Grossas meias e camisolas, botas forradas a pelo de ovelha, gorro, luvas e cachecol não impediam Madalena de sentir uma frialdade sadia que se lhe apossava dos ossos a partir dos artelhos e entranhava o peito, veiculada pelo ar inspirado. Caminhava montanha acima desfrutando saborosamente a tranquilidade dos caminhos desertos àquela hora da manhã, sabendo que dentro de apenas algumas horas o ambiente se tornaria efervescente, centenas de turistas em ebulição na ânsia afrodisíaca de se espojarem na neve. Restava-lhe pouco tempo para se consagrar, unir, imolar, restava-lhe mesmo muito pouco tempo para se deixar possuir pelo ar que cheirava a sémen e pulsava de desejo. À medida que progredia em direcção ao topo o percurso era dificultado pelos pedregulhos que geravam gelo, a vegetação rasteira semi-sepultada pela neve, as árvores e arbustos alquebrados pelo peso alvo e persistente que se lhes apoderara da folhagem - Madalena seleccionara sempre, a cada encruzilhada, o trilho mais abrolhoso. A pressa de chegar ao topo amalgamada com o prazer de se embrenhar na natureza abstrusa, onde o ar era mais completo, íntegro, virginal... - e a subida tornava-se quase dolorosa, e Madalena corria, escorregando, desequilibrando-se, resvalando, erguendo-se, correndo, correndo, correndo. O cume! Os pés finalmente quentes. Os joelhos trémulos. O coração acelerado. A respiração ofegante. Os olhos luminosos humedecidos pelo vento cortante. A visão meio turva. Uma zoeira nos ouvidos. O espírito cambaleante, dormente... Do ar corporizou-se Henrique. Susteve-a docemente e levou-a consigo para além da nebulosidade esparsa que vigiava a serra. O ar tornava- se cada vez mais rarefeito, assim se tornando as afeições, leves e serenas debruadas a destino tranquilo. O olhar dele, confiante e terno, cobria-a de beijos amorosos, deambulando por aquele corpo tão seu, celebrando cada momento de prazer extremo e uno vivido a dois. Madalena a custo sustinha a intensidade da ternura no olhar de Henrique, a veemência do desejo no auge do bem-e-muito-querer... Enlaçou-o fortemente pelo pescoço tresloucada de paixão, ele refreou - lhe o ímpeto num gesto categórico, mas com doçura, suavidade, prendeu - lhe os pulsos numa mão apenas, para lhe poder envolver a cintura com a outra, imobilizando-a para melhor a poder namorar nos olhos. Ela escondeu o rosto no seu ombro, perdeu algumas lágrimas, - na serra chuviscou - e ele mordeu-a na clavícula, no pescoço, na orelha, imprimindo o recorte dos seus dentes a vermelho aceso, fazendo-a gemer, com o próprio queixo fê-la levantar para si o rosto, num roçar de testa e nariz e boca todo ternura, fixou-lhe as profundezas da alma, aproximou os lábios dos dela, ela podia apenas mover as pernas, e com uma o prendeu e a outra o provocou, leve, imponderável, sentindo-se quase volatilizar no odor quente que dele emanava, dissolver-se-lhe na pele, unir-se-lhe na carne. Os dois num só corpo percorreram toda a serra lá do alto, autenticados pelo domínio do ar, apreciando a beleza volúvel da sombra das nuvens na paisagem de fogosas encostas manchadas de verdes e neve, salpicadas de preciosas pedras graníticas cujas partículas de sílica ofuscavam o próprio sol. Começou a anoitecer. As nuvens multiplicaram-se e as sombras escuras na serra alastravam e adensavam-se, movendo-se pelo vento que começara a soprar forte. O sol, recatado, espreitava o próprio reflexo numa lagoa perdida, e Henrique e Madalena acreditaram ser o próprio Deus alongando-se desde o céu ao abismo do vale mais ermo em braços de fogo abençoando a terra, o ar por eles atravessado purificado, depurando de dor cada auto de amor. De repente o vento assanhado redobrou em fúrias, revolveu a natureza surpreendida, e era a lagoa que erguia aos céus braços revoltados cansados da vida, o ar enfraqueceu dispersado pelo ciúme da terra, o vento atravessou as nuvens que acoitam amantes e amputou-os com violência, arremessando-os ao solo para bem longe um do outro. Fez-se noite cerrada. Numa escuridão total Madalena tacteou um deserto de terra ressequida cheirando a poeira, quase duvidando da veracidade daquela negrura devoradora. Desorientada deambulou à toa, arrastando os pés já que não podia ver onde pisava. Assim que uma luz ténue e muito difusa anunciou a alvorada grossas gotas de chuva desceram para libertar dos torrões de terra o seu cheiro quente, pastoso e fecundo. Embatiam no solo salpicando em redor, e deixavam a superfície, agora fumegante, da terra, adornada de relevos lunares, para pararem assim que, em toda a sua extensão, a cor castanho barrento original renascia. Olhou em redor: encontrava-se no meio de uma imensa planície abandonada e estéril. Focando a visão em direcção ao nascer do sol parecia-lhe haver um vulto sombrio no contra-luz dos raios dourados, iniciando uma longa caminhada nessa direcção - só poderia ser Henrique! Aproximou-se sorrateiramente. Discretamente. (Ele encontrava - se recostado numa poltrona de terra macia e compacta que a chuva não se atrevera a tocar.) Acocorou-se-lhe junto aos pés e começou a massajar-lhos displicentemente, como se as chispas que lhe saltavam dos olhos lhe fossem alheias. Como se o único propósito da jornada de todo aquele dia fosse mesmo massajar-lhe os pés. (Começara a escurecer, e, estranhamente, o sol punha-se no local exacto de onde se erguera, iluminando a fogo o vulto dele.) Tocava-lhe com doçura passando os dedos pelo peito do pé em direcção a cada um dos dedos, pressionando através das peúgas com uma sabedoria que evitava o reflexo de fuga à cócega, apenas o fazendo adivinhar a sua presença. Sacou-lhe as peúgas e delas se desfez em pó, fê-lo sentir a sua presença pele-na-pele. Os olhos dele mantinham-se corridos, o rosto inexpressivo, os dela, ardentes, cada vez mais para além da roupa. Assim como lhe podia apreciar o pé esguio de unhas quadradas, o tornozelo magro prenunciando a perna peluda, via também o joelho ossudo, a coxa firme alongada pela ganga negra, o volume anormal sob os botões de prego das calças... O cheiro retinto a terra recém - molhada embriagava-os. Ele abriu os olhos no momento em que os dela os procuraram. Penetraram-se. Irresistivelmente. Intensa e longamente penetraram-se pupila-na-pupila, e enquanto durou a cópula dos olhares ela desapertou-lhe o cinto de cabedal coçado, ele desabotoou as calças, impaciente mas lentamente, as mãos de um atrapalhando os dedos meio trémulos do outro, desceu-as até meia-coxa e ela livrou-o delas com a facilidade de quem tira a própria T-shirt. Foi então que o fitou com a ternura de quem revê um velho amigo, ambos estáticos por arrastados segundos. Ela beijou-o suavemente nas faces rosadas; ele babou-lhe o rosto com firmeza e determinação; ela quis que fosse seu, emoldurou -o com as mãos em prece e tocou-lhe, brincando, com o nariz empertigado; ele empertigou-se e quis apossar-se dela; ela deixou; apossou-se ela dele todo - os seus lábios conheciam-lhe a pele macia melhor que à das próprias mãos, conheciam-lhe a linha da vida, a do desejo, a do prazer. Cerrou os olhos vendo-a assim deleitada. Henrique cerrou os olhos e contemplou-a deliciando-se no Prazer com a certeza de quem ama... Madalena apreciava-lhe agora a expressão de entrega sabendo - o infinitamente seu, e, assim que ele entreabriu as portadas para a sua escura e densa alma ela concentrou-se toda na satisfação de ambos, queria sentir pelos dois, viver a duplicar um climax emocional elevado ao quadrado, a vinte, a duzentos, sobreviver intacta a um orgasmo quase físico multiplicado por tudo e elevado ao infinito. Um vento brando e quente, secando a terra, fazia erguer do solo um manto de poeira virgem para os resguardar. Henrique filou-lhe os ombros e puxou-a para si fazendo-a voar na sua direcção, quase a penetrando. Madalena sentiu-o mais uma vez, agora a boca-na-boca, completando-se irremediável e eternamente. Possuído por uma energia estranha, divina e demoníaca, ele subjugou-a sob o seu peso, quis dar-se a possuir até à exaustão, penetrá-la até ao útero e para além da alma. Ela amou-lhe a língua, lambuzou-lhe os lábios, violou-lhe cada narina com a impiedade de uma boca esfaimada, ele desviou o rosto, ela sugou-lhe os tímpanos, quis percorrer cada prega do seu labirinto auricular com a ponta de uma língua astuta e perversa. A terra amoleceu subjugada pelo fardo de tanta Paixão, o solo afastou - se radialmente numa circunferência que os tinha como centro, dando origem a um pântano de lamas movediças. Henrique e Madalena aperceberam-se em simultâneo do abraço macio que os engolia, e logo depois da inutilidade de resistir. Ao tentarem alcançar a margem, debatendo-se, a terra dissolvia-se-lhes nos dedos e o pântano crescia uma mão travessa, os seus corpos afundavam-se um palmo, arrastados numa corrente inexplicável directa ao pôr-do-sol. O rio nascia mesmo ali, onde o sol se recolhe dentro do pote de ouro que existe no final de cada arco-íris. Uma água risonha surgia do nada por entre o granito fecundo, grandes moles de granito agreste polinizado por musgos sempre jovens. Madalena quedou-se em observação atenta às miríades de microscópicos arco-íris que saltaricavam por entre a água. Enamorando-se de um deles iniciou uma deliciosa caminhada em sua perseguição, acompanhando o percurso do ribeiro pela margem solarenga. Largos quilómetros mais abaixo apercebeu-se de que era seguida, por um ramo que se partia com algum atraso em relação aos seus passos, pela folhagem rufando para dar passagem a outro corpo que não o seu, por um hálito humano trazido pela aragem... Mas os seus olhos não podiam desviar-se do arco-íris rio abaixo. Subitamente o sol encobriu-se e, acto contínuo, ela voltou-se para trás - o rio perdera a cor - a tempo de se ver fortemente enlaçada pelos braços de Henrique que se acelerara para ela. Aperceberam-se de que haviam sido ambos demolhados em líquido amniótico, ensebados qual recém-nascido ainda ligado à eternidade pelo cordão umbilical. Penetraram, ainda abraçados, na candura do curso de água para se lavarem. O jovem ribeiro contornava-lhes os corpos com uma alegria infantil que demonstrava através dos salpicos em seu redor, das folhas caídas das árvores, que os ultrapassavam, do fundo macio e sedoso, dos godos coloridos arrastados algumas voltas pela corrente. Lavaram-se mutuamente como um felino lambe a cria ou uma fêmea de gorila cata o seu macho, com a mesma devoção e o mesmo prazer, com a inevitabilidade com que a chuva banha as vidraças ou os ventos depuram o solo, ou como o mar lambe a terra e ela se lhe dá inteira, fatalmente. Então imaculados seguiram rio abaixo. As margens de elevadas serras acompanharam-nos serenamente, descendo até eles por discretos socalcos já gastos, orgulhosas do arvoredo que exibiam, da folhagem de todos os verdes, amarelos e ocres, e vermelhos, e castanhos... O sol se pondo reflectia na água esses mesmos verdes, amarelos, ocres, vermelhos e castanhos, e rio abaixo foi anoitecendo, os cinzentos apossando-se das águas, os corpos radiantes emanando uma luminosidade feita de todas as cores - a água aquecia amorosamente para os acobertar - e anoiteceu em negro azeviche. Henrique e Madalena encontraram uma baía de areias finas onde se dispunham ancorar para passar a noite, mas subitamente uma forte corrente os arrastou rio abaixo, atabalhoadamente, fazendo-os gemer na pele arranhada, nos ossos esforçados, na carne violentada, e depois galgando a margem, a água em crostas de lava, aquecendo, trepando serra acima, ondulante e firme em direcção ao cume deixando um trilho de destruição fumegante. O rio, agora de lava incandescente, deixava-se sugar por um vulcão faminto, com ele arrastando os amantes feridos. Um baque surdo, e cego também, e dois corpos maltratados caíram no centro de um poço incandescente onde lava se sumia. Inanimados. Uma massa única de pele e sangue. As paredes do poço multiplicavam-se em labaredas que ansiavam o alto, se fragmentavam, renasciam, pariam outras labaredas que aspiravam aos céus. Henrique abriu os olhos e de imediato as chamas se reflectiram no negro terroso da sua íris. Nos de Madalena havia memórias de ar e água entre azuis e verdes esforçados, o ar que alimenta o fogo, a água que fertiliza a terra... Fatalmente siameses escalaram as chamas paulatinamente, numa conjugação de esforços e vontades atingindo a perfeição, numa valentia amorosa cobiçada pelos Deuses, numa tranquilidade consciente da imensidão sempiterna do espaço e do tempo. Eram um só quando atingiram o cimo, imateriais como o fogo, intangíveis como o ar, como a terra perpétuos e absolutos como a água. Era uma quase-madrugada de Outono semelhante a milhares de outras. O Sol erguia-se a custo, impreciso... O Outono das almas em folhas raptadas pelos ventos, em rodopios de tons quentes, prenunciavam os frios de Invernos inanimados. O mesmo banco de jardim. A mesma velha senhora fitando o rio. Dias a fio. Semanas. Desde o solestício deste Outono que ali gastava os dias à espera, uma espera amarrada à convicção de alcançar. O azul-verde esforçado dos seus olhos perdia-se na contemplação da paisagem interrompida, do leito do rio que corria em ouro e prata incansáveis para o mar. O Mundo acabaria, para ela acabaria, quando, mas só quando!, a espera terminasse. A Serenidade habitava-a. Tranqilidade e Paz. Certeza. Alguma força não identificada arrancou-o à cama bem cedo naquela manhã tardia. Gasto, esgotado, insatisfeito. Dias e dias perdidos naquela cama, naquele quarto, naquela sua vida. Teve vontade de se escanhoar, havia tanto tempo que não o fazia... Caminhou arrastado até ao velho banco de jardim sobranceiro ao rio. O Sol erguendo-se a custo, impreciso... Viu-a jovem revendo-se no rio, e muitos outros jovens inexistentes àquela hora da manhã. Ficou paralisado de emoção, trôpego das ideias, eufórico e amedrontado, queria correr para ela, pegar-lhe ao colo num rodopio de ternura, mas quedou-se extático com um nó na garganta, um aperto no peito, lágrimas fáceis. Lentamente ela voltou-se. Todos os outros jovens de algumas gerações atrás se esfumaram nos caminhos de nevoeiro gerados no rio. Ele foi olhado pela primeira vez pela milésima vez. Foi reinventado por ela, e ela por ele. Fitaram-se com os olhos apaixonados de todas as gerações e não se esfumaram nos caminhos tortuosos do destino. Gerações atrás aqueles dois jovens voluptuosos fitaram-se realmente pela primeira vez para jamais se desfitarem, e inventar o Amor. À sobreposse. Incapazes de o alimentar, de conviver com a própria invenção, envelheceram distantes, unidos apenas nos quatro elementos, consagrando-se apenas e sempre que a terra e a água, o ar e o fogo, se completaram. Unidos para sempre a uma distância devastadora. Lado a lado viram então o rio esgotar-se, o Sol esvair-se, o Outono finar-se, viram a instalação do Inverno naquele banco de jardim, agora acossado pelo vento e inconciliável com o nevoeiro. Um no outro, dois num só, o Amor, a Eternidade, a bonança das almas enfim apaziguadas. Aprenderam-no finalmente, muito no finzinho do Inverno, quando a última folha outonal, já ressequida, teimosa, descorada, se desprendeu da última árvore que ainda alimentava uma derradeira vida, sentindo ainda uma felicidade de folhinha gerada na Primavera passada...
( Setembro 200)


Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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