MARCIA LEE - SMITH
É sempre grande
prazer voltar (embora
virtualmente) ao Estado de
Espírito Santo (Brasil),
nomeadamente, a Vitória.
Quando o avião pousou, no
Aeroporto Santos Dumont, já
a nossa querida amiga e
Autora do CEN, a MARCIA LEE-
SMITH, nos esperava na gare,
para nos transportar. Já no
carro, perguntei à nossa
entrevistada qual o vício
que ela gostaria de não ter,
o que logo respondeu: - "Olha
Carlos, o de fumar !".
Pensámos logo: Uma viagem
com dois fumadores, oxalá
que o carro tenha uma
chaminé !.
Enquanto o vício
não tomava conta de nós,
perguntei à Marcia, onde ela
morava : "Olha Carlos, Moro
em Serra, uma das cidades
que formam a grande Vitória,
capital do estado do
Espírito Santo. Toda a
região fica no sudoeste
brasileiro, e é banhada pelo
Oceano Atlântico. Portanto
falemos de Vitória, uma
cidade com quase 500 anos,
umas das primeiras fundadas
pelos portugueses, e cheia
de monumentos belíssimos,
escadarias antigas, museus,
palácios, igrejas que
serviram de fortes,
protegendo a entrada da Baía
de Vitória ( um dos lugares
mais lindos que conheço). A
cidade tem atualmente sua
parte nova, que em nada fica
a dever às grandes
metrópoles, com uma
urbanização maravilhosa. A
uns poucos quilômetros da
metrópole encontramos a
região serrana, com
florestas cheias de
orquídeas e colibrís,
cascatas e pousadas
encantadoras, e cidades que
parecem ter saído de um
conto de fadas, resultantes
das colonizações italianas e
alemã no estado".
Já em Serra, fomos
para um bar no meio da urbe,
onde começámos,
verdadeiramente, a
entrevista: - Marcia, qual o
seu maior defeito, e, sua
maior virtude ... ?: -"Olha,
defeito (que aliás, todos
nós temos defeitos) é a
timidez, quando estou fora
do meu ambiente (o Carlos
ainda não notou que eu estou
tímida ao pé de você?); e
também não gostar de acordar
cedo sob nenhum pretexto;
Qualidade, a sinceridade e a
simplicidade". – Qual foi o
maior desafio que aceitou
até hoje ...?: -"Viver ! A
vida é o maior desafio que
existe !". – Qual a
personagem que mais admira
... ?: -"São várias: Madre
Tereza, Ghandy, Luther King
e outros". – Uma imagem do
passado que não quer
esquecer no futuro ... ?:
-"Todas as imagens da
guerra". – Que influência
tem em si a queda da folha e
a chegada do frio ... ?: -"Não
gosto. Climas frios me
deprimem". – O dia começa
bem para a Marcia, se ...?:
-"Não ficou nada a ser
resolvido no dia anterior,
se sinto-me em sintonia com
o mundo, e se é mais de meio-dia
!". – De que mais se orgulha
... ?: -"De ter lutado por
todos os meus ideais". –
Para você, o arrependimento
mata ... ?: -"Não sei
Carlos, nunca me arrependi
de nada". – Qual o cúmulo da
beleza, e, da fealdade ...
?: -"Beleza, o mar; Fealdade,
uma criança com fome". – As
piadas às louras são
injustas ... ?: -"São
injustas, si,". – Qual a
característica que mais
aprecia em si, e, nos outros
... ?: -"Em mim, a seriedade
em tudo que faço; nos outros,
a mesma coisa. Gosto de
pessoas confiáveis". – Como
vai a Marcia de amores ...
?: -"Muito bem ! Quem não
for bem de amores, não achou
a pessoa certa. Parta para
outra !". Quais os seus
passatempos preferidos ...
?: -"Um joguinho de cartas,
um bom papo com amigos,
escrever poesia, ficar
olhando o mar, sem nenhum
compromisso, bebendo uma
caipivodka". – Quando você
era criança ... ?: -"Fui a
criança mais feliz do mundo,
o defeito é que fui um
adulto precoce, e não
aproveitei bastante !". E
agora, como se auto-define
... ?: -"Romântica, mística,
otimista, alegre". – Que
género de filme daria sua
vida ... ?: -"Tragicômico".
– Mudando de tema: A Marcia
acredita em Deus ... ?:
-"Existe, mas não na forma
como a maioria das pessoas
pensa nele". – O que é para
você o termo Esoterismo ...
?: -"É o conhecimento
arcano, infelizmente
deturpado nos dias atuais".
– Acredita na reencarnação
... ?: -"Sim, com certeza
!". – Acredita em fantasmas
ou em "almas do outro mundo"
... ?: -"Acredito que as
pessoas depois da morte
encontram seus outros planos
de existência, mas têm mais
o que fazer do que vir aqui
assombrar os pobres viventes".
– O Imaginário será um sonho
da realidade ... ?:
-"Acredito que o Imaginário
tem vida própria, à
semelhança do Inconsciente,
e acho que na maior parte
das vezes o contrário seria
verdade". – Acredita em
histórias fantásticas ... ?:
-"Algumas sim ...". – A
última pergunta, antes do
almoço: Marcia, e se, de
repente, lhe oferecerem
flores, isso é ... ?: -"Uma
das coisas que mais me deixa
encabulada ... eu fico
vermelhinha ! Por falar em
flores, o Carlos costuma ser
tão gentil com as
entrevistadas, oferecendo-lhes
sempre uma linda flor, mas a
mim ... Será um
vingançazinha de sua parte,
por eu ainda não lhe ter
feito o mapa astral ?...".
Claro que não tem
nada a ver uma coisa com
outra: simplesmente, não
tinha encontrado nenhuma
florista.
Fomos a um
restaurante não muito longe
do bar onde tínhamos
começado a entrevista. Ali
comemos uma saborosa Moqueca
de Camarão, salada mista,
vinho para o cavalheiro e
batido de H2o para a dama.
Ali, fizemos a última parte
da entrevista: - "Marcia,
para você, a cultura será
uma botija de oxigénio ...
?: -"Sim, e extremamente
necessária !". – Que livro
anda a ler ... ?: -"O Homem
e seus Símbolos", de Carl
Jung". – Autores e livros
preferidos ... ?: -" Aí fica
até difícil dizer. Gosto de
Balzac, de Eça de Queiroz,
de Jorge Amado, Érico
Veríssimo, e de alguns
autores americanos e russos.
Fica até difícil dizer mesmo
... Meu livro preferido é
sempre aquele que estou
lendo no momento; se estou
lendo é porque ele está me
prendendo a atenção". –
Música e autores preferidos
... ?: -"Como música popular
fico com Tropicália,
movimento brasileiro de
alguns anos atrás. Gosto de
Chico Buarque, Caetano e
Gil. Na música clássica,
Mozart e Benthoven". – O
filme comercial que mais
gostou ... ?: -"O Sexto
Sentido" – "O Julgamento em
Nuremberg" – "Acima de
Qualquer Suspeita" – entre
muitos outros". – Para
finalizar, vamos falar na
sua obra literária ... ?: -"Acabei
de editar em e-book, no CEN,
o romance Santa Rosa, e
tenho prontos mais dois
livros de contos, e talvez 3
de poemas. Espero editar
todos ainda este ano, visto
que já me encontro começando
outro romance de longo
porte".
E assim falámos de
: MARCIA LEE – SMITH
Nascida num lindo
dia 7 de Dezembro.
Profissionalmente, é
tradutora (inglês-português),
astróloga, escritora e
psicanalista em formação.
Arroio do Padre
Eles eram três
casais quase pobres, na
década de sessenta, antes da
famigerada revolução. As
três esposas eram
professoras primárias, ou
seja, do ensino de primeira
à quarta séries. Os maridos,
eram sargentos do exército.
Era raro que todos
os três tivessem folga ao
mesmo tempo, mas sempre que
isto acontecia eles saíam
juntos com as mulheres e as
crianças.
A cidade era no Rio
Grande do Sul, não conto
qual, mas quem reconhecer o
título desta história saberá
de onde estou falando.
Apesar de terem
praia, nem sempre o programa
era este. Muitas vezes eles
optavam por um piquenique,
coisa muito fora de moda
hoje em dia, num localzinho
chamado Arroio do Padre,
dentro de uma propriedade
particular, o que não
preocupava ninguém.
Geralmente o carro
era emprestado pelo pai de
um dos três, um Gordini ou
Dauphine, se é que vocês já
ouviram falar nisso , e os
seis, mais cinco piás se
apertavam lá, e iam
aproveitar o domingo.
As mulheres se
combinavam sobre o que levar
de comida, os maridos
compravam cervejas e
refrigerantes, e nunca
faltava a melancia.
Quando eu digo que
eles eram quase pobres, eu
fico pensando...
Eles tinham
dinheiro para comer do bom e
do melhor, as crianças
estavam em bons colégios,
mas todos pagavam aluguel,
exceto o Wilsinho e a Nena,
que moravam com a mãe dela.
Além disso nunca tiveram
dinheiro, naqueles tempos,
para comprar uma geladeira
de isopor. Portanto as
bebidas iam acomodadas no
gelo, numa caixa de madeira.
Estranhos tempos
aqueles, eles pouco tinham,
mas muito se divertiam.
Talvez a juventude fosse a
causa da felicidade.
Este lugar, o
Arroio do Padre, era um
riozinho de merda, onde a
água, nos pontos mais fundos
dava mais ou menos uns três
palmos, lugar que as
crianças eram advertidas
para não ir.
O carro tinha de
parar na estrada, e depois
era uma descida forte,
passando por debaixo de uma
cerca de arame farpado, que
lá se chama alambrado, e
pronto, era o paraíso.
Geninho tinha um
rádio de pilha tamanho
gigante, portanto a música
estava garantida.
A melancia era
enterrada dentro do arroio,
e era a última coisa a ser
comida.
As comidas de sal
ficavam expostas ao sol,
para ficarem quentes, e as
bebidas, logicamente à
sombra.
E nisso ia o dia
todo, entre deitar-se dentro
da água fresca e
transparente, comer, beber,
jogar cartas, ouvir música,
improvisando muitas vezes um
forrozinho, e principalmente
contar piadas.
As crianças
pareciam estar no céu, eram
quase todos da mesma idade,
todos com menos de quatro
anos.
Geninho gostava de
ficar olhando quem passava
no alto da ponte, que dava
para ver do ponto em que
ficavam. Era uma ponte muito
antiga, pequena, de pedra,
feita há mais de três
séculos.
Era só passar um
gaúcho pilchado, e o Geninho
gritava, acenando com a mão
para cima:
E as guampas?
O infeliz pensava,
não era possível ouvir, dada
a distância e o marulhar do
arroio, que ele estava
perguntando algo do tipo:
Como le vá?
E respondia
sorridente, tocando o chapéu,
ao que Geninho gritava:
Bom tamanho !
Todos caíam nas
gargalhadas. Que desrespeito
!
E com isso, todos
eram como crianças...
Esqueci de
apresentar todo mundo. O
Wilsinho era marido da
Nena, o Geninho era marido
da Janda , o Ricardo era o
marido da Rita.
Quando alguém
queria fazer alguma
necessidade fisiológica,
comunicava ao grupo, e se
afastava, entrando pelo mato
a dentro. Os meninos faziam
por alí mesmo.
Um dia, aconteceu
que ao entrar por baixo do
alambrado, um peão da
propriedade advertiu que não
queria bagunça, e que iria
ficar de olho.
Nunca tinha
acontecido isso, eles já
haviam ido lá umas doze
vezes, e o lugar era sempre
deserto, mas provavelmente o
dono já tinha descoberto as
invasões dominicais.
Isto foi mais que
suficiente para dar um chá
de rolha em todos, ninguém
quis fazer mais que um
inocente xixi... menos Rita,
coitada...
Para simplificar a
vida, todos deixavam as
roupas no carro e desciam
com roupas de banho, e a
Rita estava de biquini.
Neste abençoado dia,
a Rita resolveu ter um baita
piriri, e teve medo de
entrar pelo mato, com medo
do peão.
Mais ainda, se o
Ricardo fosse junto, o peão,
que devia estar de tocaia,
poderia achar que eles iam
fazer safadeza no mato,
então ela estava subindo
pelas paredes, que aliás não
existiam lá.
Foi aí que a Janda
resolveu dar uma idéia.
Por que você não
sobe este barranco? Lá em
cima tem um monte de
arbustos, entra dentro de um
e resolve o caso.
Desesperada, ela
passou a mão no papel
higiênico e subiu a duras
penas um barranco que não
era lá tão alto.
Lá em cima tinha um
pasto cheio de vacas, que
pastavam, e umas galinhas
ciscando.
Rita entrou num dos
arbustos, agora a verdade
seja dita, eram espinheiros,
que mantinham as vacas
cercadas. Tirou a parte de
baixo do biquini. Estava
pensando em como na vida
tudo se resolve, porque cá
para nós, a pior coisa do
mundo é você precisar de
fazer uma coisa dessas e não
achar um lugar. Você perde
até o rumo de casa, fica
verde, não acha mais graça
em nada...
Mas Rita estava
agachada, segurando o papel
na mão, e não notou quando
uma galinha mais atrevida
entrou no espinheiro e fugiu
com a calcinha do biquini.
Aí a coisa
complicou, porque quando ela
espiou por entre as folhas
do espinheiro a que
distância estaria a
calcinha, ou a galinha, ou
ambas, uma vaca se enfezou,
e ficou bufando junto ao
arbusto.
E ela começou a
gritar, mas como eu disse
antes, o marulhar do arroio
impedia qualquer som de
chegar até aos amigos.
Mas Rita gritava por
socorro a plenos pulmões, e
isso só irritava a vaca.
Depois de muito
tentar, ela começou a
chorar, e desistiu, pensando
em que talvez o marido
pudesse pensar que ela
estaria demorando demais, e
com fé em Deus, iria
procurá-la.
E foi o que
aconteceu. Ricardo subiu o
barranco e notou que alguma
coisa estava errada, ela não
via Rita.
Então todos subiram,
inclusive as crianças, o que
despertou a atenção do peão,
que veio com a cartucheira
pronta, e disparou para o
alto.
Mas ele notou que
alguma coisa estava errada,
e perguntou aos rapazes, o
que se passava ali. Até o
peão agora se comoveu...
Ele ajudava a gritar
: Dona Rita, a senhora está
por aqui? Se estiver, grite,
apareça !
E Rita queria muito,
mas como?
A muito custo ela
conseguiu gritar: Manda
alguém trazer aqui uma
toalha...
Tarde demais. O peão
estava acostumado com o
lugar, ouviu de onde partiu
o grito, e correu lá, e
tirou a pobre Rita pelada,
só com a parte de cima do
biquini sem notar, ou até
mesmo possa ter notado...
Aí, com ou sem
cartucheira, sobrou para o
peão. Os três deram-lhe uma
surra que até hoje ele deve
se lembrar.
A parte de baixo do
biquini nunca foi
encontrada, e a Nena buscou
roupa no carro para Rita,
que tremia mais que tudo.
Na pressa de irem
embora largaram para trás a
melancia, as garrafas, e até
o rádio de pilha.
Foi a última vez que
eles foram ao Arroio do
Padre, tudo por causa de uma
galinha, uma vaca e um peão.
E Rita desistiu de
piqueniques para sempre.
Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal