GRANDES ENTREVISTAS

por

 

ENTREVISTADA

Maria de Lourdes Sousa Maciel (Malude)

 

 

 

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro

 

A cidade de Caruaru, por se localizar na unidade geoambiental do Planalto da Borborema, seu relevo é suave ondulado, de solo pedregoso e argiloso, com altitude média de cerca de 545 metros. O ponto mais alto da cidade é o Morro do Bom Jesus, com altitude de 630 metros.
As terras que hoje constituem o município de Caruaru eram primitivamente uma fazenda de gado, pertencente à família Nunes dos Bezerros. Este nome deve-se à proximidade da fazenda com a paróquia dos Bezerros. Acredita-se que esta família descende dos primitivos concessionários das terras concedidas como sesmaria. Com a família Nunes vivia um casal de órfãos.

 

foto:caruarucultural.blogspot.com

 

Um deles, José Rodrigues de Jesus, apossou-se da parte que lhe cabia na herança, estabelecendo-se no local denominado Caruaru. Ali construiu uma capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O povoamento da região iniciou-se no entorno desta capela. Em 1846, o Frei Euzébio de Sales, Capuchinho proveniente da Penha, iniciou a construção da Igreja Matriz, hoje Catedral. A capelinha foi reconstruída por duas vezes, sendo a última reconstrução em 1883. A localização geográfica favoreceu o desenvolvimento local, por ser a região passagem obrigatória de transporte de gado do sertão para o litoral e de mascates em sentido inverso. Em dezembro de 1895, foi inaugurada a estação ferroviária da "Great Western" que ligou Caruaru ao Recife, que consolidou o desenvolvimento local. Nesta época, já era famosa a feira de Caruaru.

 

Ainda em Lisboa, perguntei a um amigo do Recife como podia chegar do Aeroporto do Recife a Caruaru. Esse amigo “cara de pau” disse-me que logo à saída do aeroporto, perguntasse onde se apanhava “um pau de arara” para Caruaru. E assim fiz, perguntei a um polícia onde ficavam esses “paus de arara”. Este fez uma cara muito esquisita (muito divertida), e perguntou-me de onde eu tinha tirado “essa”? Disse-lhe que tinha perguntado a um amigo brasileiro em Lisboa, etc.; deu uma gargalhada e respondeu-me: “esse seu amigo, é mesmo da onça!”.

Por fim apanhei um ónibus e lá cheguei a Caruaru. Telefonei à minha entrevistada e combinámos começar a entrevista no alto do Monte Bom Jesus.

- Maria de Lourdes Sousa Maciel, podemos começar a entrevista? – Perguntei-lhe e como resposta, disse-me: “Carlos, por favor trate-me por Malude. Sabe, Carlos: meus irmãos não sabiam dizer o meu nome, e começaram a tratar-me por Malude. Depois outras pessoas começaram a tratar-me por esse nome.

- Fale deste linda cidade, está de acordo?

Malude: - Nasci e moro em Caruaru e tenho grande amor pela minha cidade que tem ares de interior, mas pujança de capital e é bonita e boa para se fixar residência e criar a prole. Já morei em Recife, capital do Estado de Pernambuco, mas achei muito agitada. Prefiro Caruaru em tudo.É um celeiro de artistas e de grandes nomes no cenário nacional e internacional, tanto nas artes, como na literatura, no teatro, etc.. Caruaru é banhada pelo Rio Ipojuca que, graças a Deus, será restaurado neste ano, pois está carente disso. O desenvolvimento econômico baseia-se no comércio com as feiras livres e uma incrível potencialidade comercial em todos os ramos, como afirmam a CDL (Câmara Diretores Lojistas) e a Associação Comercial e Industrial locais. As Faculdades formam um conjunto de dinamismo intelectual abrigando alunos daqui e das cidades circunvizinhas para a ASCES ( Associação Caruaruense de Ensino Superior) FAFICA (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru) e FAVIP ( Faculdade do Vale do Ipojuca). Todas bem estruturadas e contendo diversos cursos superiores como: Direito, Odontologia, Fisioterapia, Farmácia, Educação Física, Nutrição, Psicologia, Jornalismo, Administração, Filosofia, Letras, Ciências Contábeis, Marketing, Publicidade e Propaganda, Tecnologia em Recursos Humanos e Logística. Estando assim muito bem servida na área educacional. Temos o Museu do Barro onde estão as peças dos bonecos de barro do artesão Mestre Vitalino, Museu da Cidade com todo o acervo histórico e a Casa de Cultura José Condé com as obras literárias, sem contar com a Biblioteca da ACACCIL - Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras com as 40 cadeiras ocupadas por acadêmicos que primam pela manutenção da vida cultural da cidade e ainda o IHC - Instituto Histórico de Caruaru cuja função é resgatar e manter a nossa história. Existe o Alto do Moura que é o local dos artesanatos, antes habitado por Vitalino e hoje inúmeros seguidores  daquele mestre do barro (analfabeto, pobre, humilde mas que elevou o nome de nossa terra) Nessa época natalina a cidade está toda ornamentada de conformidade com o tema e está linda.

Carlos: - Sua melhor qualidade?
 
Malude: -Sinceridade, Fidelidade e Honestidade ( em resumo sou íntegra que procura mais e mais se aperfeiçoar espiritual e mentalmente)
 
Carlos: - Seu maior defeito?
 
Malude: - Nervosismo devido ao DNA tenho o "pavio curto"; expressão usada para quem não consegue ter um bom auto controle diante das situações.Eu detesto ser assim.
 
Carlos: - Qual a característica que mais aprecia em si?
 
Malude: - A espontaneidade. Se estou bem meu sorriso é contagiante, mas o contrário é verdadeiro.Normalmente sou alegre e gosto de um bom papo, mas não sei fingir para agradar a quem quer que seja. Me considero muito verdadeira.
 
Carlos: - E nos outros?
 
Malude: - Admiro as pessoas seguras de si, empolgadas, que dão a volta por cima rapidamente. Porém fico cativa de gente simples, humilde que não precisa propagar seu valor deixando que os demais o reconheçam. Em suma: a simplicidade e a segurança.
 

Carlos: - O arrependimento mata?

Malude: - Tudo pode matar, ou seja, arrasar com o indivíduo se não for bem trabalhado. Primeiramente não se deve olhar pra trás pois o tempo não para nem volta mais. É desgastante ficar remoendo coisas e fatos se "águas passadas não movem moinho". O negócio é tocar pra frente que atrás vem gente. Não sou de chorar sobre leite derramado.

Carlos: - A personagem que mais admira?

Malude: - Jesus Cristo

Carlos: - Como vai de amores?

Malude: - Sou uma felizarda porque me casei com o primeiro amor da minha vida e já vamos fazer quarenta anos dessa união que nos deu três filhos varões dos quais muito me orgulho e agradeço a Deus por isso. Não digo que a vida a dois seja um "mar de rosas", mas é importante vivê-la intensamente. Sou feliz!

Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?

Malude: - As imagens do meu casamento quando ousei entrar na igreja usando um lindo chapéu em organdi, lançando moda e depois seguida por muitas. Minha foto em tamanho gigante ficou em exposição no estúdio de Ciel, na rua da Matriz.

Carlos: - O maior desafio que aceitou até hoje?

Malude: - Ser uma verdadeira mãe. Isso custou minha carreira profissional e não me arrependo. Foi a melhor coisa da vida, mas foi desafiante e continua sendo.

Carlos: - Que género de filme daria sua vida?

Malude: - Caso Verídico de  uma jovem com tudo para brilhar e fazer carreira profissionalmente e abdicar em favor da família. Um melodrama com final feliz.

Carlos: - Quais seus  passatempos preferidos?

Malude:- Ler, escrever, ver bons programas televisados, inclusive os jornais para me manter atualizada e viajar. Graças a Deus conheço algumas partes do mundo especialmente do meu país. Estive em Lisboa na minha excursão pela Europa e adorei.

Carlos: - E quando a Malude era criança, como era...?

Malude: - Uma criança carente afetivamente. Menina calma, boazinha e chorona. Um sentimentalismo à flor da pele. Muito estudiosa e apegada às tarefas escolares.

Carlos: - E agora, como se auto-define?

Malude: - Uma pessoa sonhadora e confiante no porvir (graça de Deus), fazendo a minha parte o mais corretamente possível eliminando os erros e escorregões. Tentando viver um dia de cada vez e pedindo sempre a proteção divina. "Tudo posso Naquele que me fortalece".

Entretanto, tinha chegado a hora do almoço. Regressamos ao Centro de Caruaru e continuamos a entre vista.

Carlos: - Qual o cúmulo da beleza?

Malude: - A beleza suprema de Deus. O homem iluminado pela luz divina demonstra características dessa beleza.

Carlos: - E da fealdade?

Malude: - O mau caráter transmite toda feiúra possível.

Carlos: - As piadas às louras são injustas?

Malude: - Acho que sim, porém são de um humor incrível e produzem grandes gargalhadas.

Carlos: - Que vício gostaria de não ter?

Malude: - Dormir após o almoço.

Carlos:- O dia começa bem se ...?

Malude: - A pessoa logo ao acordar entregar todo o seu dia ao soberano Deus, pedindo proteção e livramento de todo mal.

Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?

Malude: - Nos dias ensolarados existe um melhor ânimo para as atividades diárias e nos dias frios, normalmente a gente se encolhe e se refugia num cobertor quente. As folhas caem, mas nascem outras no lugar e a chegada do frio pede aconchego.

Chegámos ao restaurante “Caruarense” , onde comemos um manjar tipicamente nordestino: Carne de sol com farinha quebradinha, bode guisado e feijão verde, acompanhado por Espumante do Vale dos Vinhedos do Rio Grande do Sul RS.

Continuámos a entrevista enquanto nos preparavam o almoço.

Carlos: - Acredita em histórias fantásticas?

Malude: - O fantástico sempre atrai a curiosidade e fatos históricos ou simplesmente estórias, se bem contadas, são admirados e bem-vindos, independente de serem verídicas ou não. Cabe a cada um, ter bom senso para distinguir entre uma coisa e outra.

Carlos: - Acredita na reencarnação?

Malude: - Não.

Carlos: - Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo”?

Malude: - Também Não.

Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade?

Malude: - A mente humana é poderosíssima e a imaginação não tem limites. Sonhar é salutar, porém cada sonho deve se pautar numa possível realidade.

Carlos: - O que é para você o termo Esoterismo?

Malude: - É a prática do ocultismo e ensinamentos de um grupo fechado e misterioso. Jesus pregava abertamente no templo e é assim que deve ser ministrada qualquer doutrina.

Carlos: - Qual a sua profissão?   

Malude: - No momento estou aposentada, dedicando-me aos meus escritos, minha casa e família e à minha única neta: Rebecca, mas pertenço à Academia de Letras e ao Clube de Serviço Lionesse Clube de Caruaru (Lions) onde há uma Creche com o meu nome: Creche Tia Malude e não me falta ocupação. Também sou voluntária no Projeto Viver da Igreja Presbiteriana de Caruaru. Estou envolvida com esses trabalhos sociais, mas já fui professora, funcionária pública e empresária.

Depois do almoço, fomos para uma esplanada perto de onde se apanha o “pau de arara”, perdão, o ónibus para a cidade do Recife, onde terminámos a entrevista.

Carlos: - Que livro anda a ler?

Malude: - Estou lendo a edição especial do livro, romance: Terra de Caruaru, do autor caruaruense José Condé, falecido no Rio de Janeiro há 40 anos. É uma obra prima de valor nacional e internacional.

Carlos: - Para a Malude, a cultura será uma botija de oxigénio?

Malude: - O modo de vida de um povo é que forma sua cultura. Cada povo tem a sua diferenciada e expressa através da dança, das canções e músicas, do artesanato, das comidas, dos credos, das artes em geral (pintura, teatro, etc.) e da literatura. Não existe povo sem cultura como não existe vida sem oxigênio, embora haja algumas culturas privilegiadas, ricas, divulgadas, mas é uma questão de valorização. No Brasil, os hábitos e costumes dos africanos, europeus e índios que nos colonizaram se uniram aflorando uma mistura de raças e consequentemente de cultura, o que é maravilhoso.

Carlos: - Vamos falar de sua obra Literária?

Malude: - Publiquei dois livros. Primeiro: "No Meu Caminho" pelo Lions e atualmente o segundo: "Reminiscências" que foi lançado durante os trabalhos do FLIC - festival LITERÁRIO DE CARUARU promovido pela ACACCIL e pela Fundação de Cultura e Turismo Municipal, porém toda semana tem artigo de minha lavra publicado nos Jornais Vanguarda e Extra, além do Diário de Pernambuco. Acho que enquanto Deus me inspirar estarei escrevendo num desenvolvimento dos talentos que Ele me deu.

Carlos: - Autores e livros seus preferidos?

Malude: - Gosto de passar uma vista em tudo que me cai às mãos e logo analiso o conteúdo, mas ler mesmo como curtição eu aprecio a obra de Jorge Amado, pois tenho toda a coleção e daqui da terrinha tenho inúmeros livros de Nelson Barbalho.

Carlos: - Falando de Música e autores preferidos?

Malude: - Considero Chico Buarque de Holanda nosso melhor compositor na fase contemporânea, Caetano Veloso, Gilberto Gil também me agradam muito. Como melhor voz, classifico a cantora Gal Costa.

Carlos: - O filme comercial que mais gostou?

Malude: - Quase Deuses

Carlos: Uma última pergunta. Para a Malude, Deus existe?:

Malude: - Claro. Como não? Quem seríamos nós sem a existência de Deus? Nada existiria.

Assim, falámos de:

 

 

Maria de Lourdes Sousa Maciel (Malude)

Nascida a 17 de Fevereiro de 1950  

COMBATE  AO  VÍCIO

 

    O problema dos menores carentes e abandonados, soltos pelas ruas, a cheirar cola, pedir esmolas nos semáforos, furtar e praticar pequenos delitos continua existindo em nossas cidades, apesar dos Conselhos Tutelares.
    Uma orientação da secretária de Assistência Social do Recife, Niedja Queiroz, é não se fazer doações aos pedintes públicos para combater o vício que se instala nas crianças seguidoras do mau exemplo de adultos que fazem o mesmo costumeiramente sem nenhuma preocupação de mudar de vida, mesmo que haja oportunidade.
     A idéia é evitar a mendicância, principalmente nessa época de final de ano e Natal, quando as pessoas ficam mais sensibilizadas e muitas vezes são exploradas por espertinhos que não querem trabalhar e se passam por doentes e incapazes só para tirar proveito. Deveria haver uma fiscalização nesse sentido para evitar tais abusos.
     As colaborações são necessárias e importantes quando feitas à instituições, abrigos, creches, escolas e demais movimentos que têm compromisso com o social e fazem um bonito e edificante trabalho junto às comunidades menos favorecidas.
     É preciso cuidado e discernimento para não confundir a mensagem, pois é salutar ofertar ajuda ao que realmente precisa, ser caridoso, porém, em nome da cidadania, fica o apelo pedagógico, de não formar cidadãos dependentes pelo resto de suas vidas, sempre acostumados a pedir como se todo mundo fosse obrigado a lhe sustentar, sem enxergar nenhum porvir em sua condição de criatura humana que pode progredir e mudar seu rumo. Principalmente quando se trata das crianças que, sem educação, se habituam à condição de mendigos e não vêem nenhum futuro senão aquele, não estudam nem se preparam para um trabalho certo que possa lhe garantir a dignidade.     
    Esses programas populistas do governo, como o bolsa família e outras benesses também se assemelham a essa tática de dar uma “esmolinha” e ficar de consciência tranqüila, quando na verdade isso vicia o povo a não se esforçar em fazer algo mais edificante e proveitoso, se conformando apenas com aquela ninharia e nada mais.  Deveria haver um acompanhamento rigoroso dos cadastrados nessa rede assistencial a fim de promover uma mudança que provocasse o desenvolvimento social, o engajamento profissional e não somente um paternalismo paralisante, doentio e castrador que não leva a lugar algum.
    Educar é muito difícil; uma tarefa árdua que exige paciência, dedicação e também condições financeiras, mas constitui o único caminho possível de melhorar o mundo. 
    Urge, conscientização, investimento e mudança de hábitos já!!!

 

Malude Maciel

Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras

 


Formato de entrevista de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

 

LIVRO de VISITAS
 

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