Ainda não tínhamos tido o prazer de
visitar a cidade de Palmas que
pertence ao Estado do Panará
(Brasil). Calhou hoje, pois a nossa
querida entrevistada de hoje é a
LUCY SALETE BORTOLINI NAZARO .
Pedimos à Lucy o favor de nos falar
um pouco da sua cidade, o que
gentilmente o fez: -“Palmas, é a
Segunda cidade mais fria (só a
estação, pois o povo daqui é super
acolhedor) do Brasil. Terra das
usinas eólicas que absorvem os
ventos de nossos verdes e
maravilhosos campos. Terra das
antigas fazendas de criar, da erva-mate,
do pinheiro araucária, sede nacional
da raça caracu. Temos um Museu
Histórico, Professor José Alexandre
Vieira, que guarda as lembranças
carinhosas dos pioneiros da região,
lembranças da tradição e fé de nosso
povo batalhador. Temos uma Reserva
Indígena Kaingang: Fioravante
Esperança, que abriga em torno de
800 (oitocentos indígenas), que
fabricam cestarias de taquara e
ainda guardam alguns resquícios de
sua cultura, principalmente a língua
materna que é repassada por gerações.
Temos um Centro de Cultura:
“Monsenhor Eduardo Rodrigues
Machado”, que abriga a Biblioteca
Pública e a sede da Academia
Palmense de Letras, local que também
abriga a Banda Municipal Santa
Cecília, a velha bandinha do
Município. Temos exposições anuais
que se realizam com destaque
“Expopalmas” (Abril); “Festfrio” (Julho),
o Festival Pé Vermelho de Música
Popular e Sernateja, que abrange
toda a região sul (Santa Catarina,
Paraná e Rio Grande do Sul). Terra
de artistas plásticos, de cantores,
poetas, escritores. Terra pioneira
na educação com as Faculdades
Integradas de Palmas, que oferecem
cursos de Graduação e Pós-Graduação
(Lato-Sensu e Stricto-Sensu). Nossa
terra tem uma história que começou
há mais de cem anos, sendo cento e
vinte e dois anos só de emancipação
Político-Administrativa. O nome de
Palmas foi dado por Atanagildo Pinto
Martins, e tem relação com as muitas
palmeiras e butiazeiros aqui
encontrados. Tem em sua trejetória a
história de verdadeiros heróis, em
sua maioria anônimos, que
enfrentaram as agruras do tempo, (as
grandes nevascas que costumava vir
nos invernos bravios de antigamente),
as dificuldades de toda a ordem, a
começar pelos próprios “selvagens”
habitantes naturais dessas terras
que tudo fizera, para que os não-índios
se mantivesse distantes. Venceu a
chamada “civilização” e hoje fazemos
parte do desse povo que costumo
dizer “de fé, tradição e cultura”.
Palmas é mãe, avó, bisavó e já
tetravô de muitos outros municípios
que nasceram a partir daqui; e hoje,
Palmas se orgulha dos filhos
altaneiros que crescem ao seu redor
e despontam no cenário nacional, tal
como a mãe. É uma terra linda,
permeada de cachoeiras, de rios, de
matas e campos que fazem coro aos
poetas, tanto no verde brilhante de
seus verões quanto no branco gélido
de seus invernos”.
Estávamos extasiados a ouvir a
maravilhosa prosa da Lucy, mas como
o nosso tempo é limitado, tivemos
que dar começo à entrevista. Como o
tempo estava um pouco fresco,
escolhemos o interior de um bar
mesmo no Centro de Palmas e, aí
colocámos a primeira pergunta: -
Lucy, de que mais se orgulha ... ?:
-“De meus pais, batalhadores
incansáveis, que apesar de seu não
estudos nos incentivaram e nos
permitiram crescer como pessoas na
maior liberdade”. – Qual a
personagem que mais admira ... ?:
-“Claro, meu pai e minha mãe. E But
Rether de “E o Vento Levou”.
– Como vai você de amores ... ?:
-“Calmamente vou indo, acho que
neste setor estou sem pressa, para
mim está bem como está”. – Qual a
característica que mais aprecia em
si, e, nos outros ...?: -“Em mim, a
perseverança; nos outros, a amizade,
a honestidade e a sinceridade, odeio
gente desonesta”. – Qual o seu maior
defeito, e, a sua melhor qualidade
... ?: -“Defeito ... pressa, tenho
sempre muita pressa em tudo, não sei
esperar; qualidade, sinceridade,
franqueza”. – Quando você era
criança ... ?: -“Ler gibi e
colecionar coisas, desde tipos de
carros (em figurinhas é claro), até
selos, artistas, e tenho tudo sobre
a corrida ao espaço, desde o
primeiro Sputnik”.
– O arrependimento mata ... ?: -“Não.
O que mata é nunca ter tentado e
ficar sem saber se daria ou não
certo”. – Lucy, diga-me se as piadas às louras são injustas ... ?:
-“Carlos ! olha que quero que sejam
totalmente injustas pois, sou uma
loura e nem por isso uso o cerretivo
na tela do computador. Acho isso uma
tamanha maldade, pois encontra-se
cada perna ... peitos e bundas (Ui!
Ui! Ui!) que não são louras, contudo
... nem cabeça têm, então, por que
generalizar?”. – Que vício gostaria
de não ter ... ?: -“Fumar”. – Uma
imagem do passado que não quer
esquecer no futuro ... ?: -“As
viagens em família, para as “roças”
no interior quando visitávamos nosso
tio Acácio e na casa dos meus
“Nonos”, era o maior “barato”. – O
dia começa bem para você, se ... ?:
-“Ninguém me acordar antes que eu
mesma resolva fazer isso”. – Que
influência tem em si a queda da
folha e a chegada do frio ... ?: -“Fico
inspirada com a nova estação e as
belezas que ela nos traz, também!”.
–Qual o cúmulo da beleza, e, da
fealdade ... ?: -“Beleza, é a poesia
que os homens conseguem retirar da
própria vida; fealdade, é a poesia
que os homens conseguem retirar da
própria vida; fealdade, é a
alimentação do analfabetismo de
mentes subjugadas”. – Como é que a
Lucy se auto-define ... ?: -“Uma
idealista descarada”. –Que género de
filme daria sua vida ... ?: -“Acho
que um drama cômico. Faria ir do
choro ao riso com a mesma
facilidade”. – E se, de repente, lhe
oferecerem flores, isso é ... ?:
-“Bom, mas não exatamente o que
gosto muito”. – Qual foi o maior
desafio que aceitou até hoje ... ?:
-“Qual foi o maior desafio que
aceitou até hoje ... ?: -“Aceitar a
Presidência da Academia Palmense de
Letras, depois de aceitar a Chefia
do Departamento de Cultura do meu
Município”. – Lucy, antes do almoço
a última pergunta: Para você Deus
existe ... ?: -“Olha Carlos, tem que
existir. É a minha esperança”.
O restaurante ficava no outro lado
da cidade: A sala é grande e muito
aprazível onde nem falta uma
lareira, embora não fosse preciso
estar acesa. Combinámos que a
refeição seria ao gosto da Lucy, que escolheu um saboroso churrasco com
maionese; e o vinho com o cavalheiro
que, quando perguntou à dama qual
preferia: tinto ou branco – logo
respondeu-lhe: “Carlos, vinho de
todas as cores!”. Para a tarde foi
escolhido um vinho bem tinto,
encorpado e levemente seco. Mesmo
antes da salada de fruta e do café,
continuámos a entrevista: - Lucy, o
que é para você o termo Esoterismo
... ?: -“É um dos caminhos para a
busca do meu encontro comigo mesma”.
– Acredita na reencarnação ... ?:
-“Às vezes, sim, ou eu quero
acreditar”.
–Acredita em fantasmas ou em “almas
do outro mundo” ... ?: -“Por
enquanto não. Se bem que vivi desde
pequena ouvindo casos de “outro
mundo” e me arrepiava toda de medo,
depois, parei de ouvir, não dá nem
tempo para pensar nisso. Acho que
não!”. – O Imaginário será um sonho
da realidade ... ?: -“É um sonho
vivido. Às vezes você imagina e faz
sua imaginação transformar-se em
realidade, principalmente quando
você quer muito que isso aconteça”.
– Acredita em histórias fantásticas
... ?: -“Às vezes, sim. Como eu
disse, sempre ouvi muitas histórias
fantásticas, de todo o tipo e era
bom acreditar nelas. Até tento
escrever algumas e me delicio
podendo sair do plano real, mesmo
que seja apenas no papel, me delicio
mesmo. E tem mais, admiro muito quem
sabe contar histórias fantásticas,
dando-lhe a veracidade até mesmo
quando se trata de algo considerado
“impossível” de acontecer, se é que
existe o tal do “impossível”. Que
livro anda a ler ... ?: -“A Arte da
Felicidade do Dalai-Lama”. – Para a
Lucy a cultura será uma botija de
oxigénio ... ?: -“Totalmente cheia.
Sem este “ar” que respiramos
sufocaremos em muito pouco tempo. A
Cultura nos dá a dignidade de
Seres”.
–Autores e livros preferidos ... ?:
-“Lira dos Vinte Anos” de Àlvares de
Azevedo – “Espumas Flutuantes” de
Castro Alves – “Vestido de Noiva” de
Nelson Rodrigues – “ A Hora da
Estrela” de Clarice Lispector –
“Contos de Rubem Fonseca (todos) –
“Aparição” de Virgílio Ferreira –
“Werthe” de Goethe – “Mensagem” de
Fernando Pessoa – “Memorial do
Convento” e “Jangada de Pedra” de
José Saramago – “Macunaíma” de Mário
de Andrade – “Ficciones” de Jorge
Luiz Borges – nesta mesma ordem. Mas
eu amo literatura, por isso é
difícil citar um ou dois apenas”. –
Música e autores preferidos ... ?:
-“Caetano Veloso” (amo todas) – “Zé
Ramalho” (tudo o que ele canta);
“Roberta Miranda” – e muitos mais”.
– O filme comercial que mais gostou
... ?: -“Sempre o último que vi acho
o mais interessante, mas não ligo
muito nesse tipo de mensagem”. –
Vamos falar de sua obra Literária
... ?: -“Gotas de Chuva” – “Palmas,
uma História de Fé, Tradição e
Cultura” – “Quem tem medo de gatos e
outras estórias (pelas Vozes);
“Castro Alves, Parcelas da História
de um Poeta Condoreiro” – “Pa-Lavra
(no prelo) e outras ainda à espera
de editoras para publicação”.
E assim falámos de: LUCY SALETE
BORTOLINI NAZARO
Professora Universitária ,nascida a
26 de Setembro de 1954.
IMPULSÃO LÍRICA
Quando sinto a impulsão lírica,
explicava Mário de Andrade, escrevo
sem pensar, tudo o que meu
inconsciente grita. Penso depois,
não só para corrigir, como para
justificar o que escrevi. Acredito
que o lirismo nascido do
subconsciente, acrisolado num
pensamento claro ou confuso, cria
frases que são versos inteiros, sem
prejuízo de medir tantas sílabas com
acentuação determinada. (...) Arte
que, somada ao lirismo, dá poesia.
Andrade, in Bandeira, 1988).Poesia
não consiste em prejudicar a doida
carreira do estado lírico, para
avisá-lo das pedras e cercas de
arame do caminho, a poesia deixa que
tropece, caia e se fira. Poesia é
arte e é mais tarde o poema a limpar
versos de exageros coloridos. Mas, o
que pode ser considerado exagero
colorido, quando lembramos de poesia
e de poetas como Shakespeare e seu
verso “O vento senta no ombro de
tuas velas”. Ou, ainda, Homero que
escreveu “A terra mugia debaixo dos
pés dos homens e dos cavalos”. Ou,
mais ainda, Baudelaire com seu
“Perfumes fresco há como carnes de
criança”. Com certeza, a poesia está
em tudo o que há no Universo e pode
ser até mais ampla, nunca há o
exagero, nem o erro. A poesia
apresenta mais que os próprios
objectos, qualquer característica
essencial e saliente deles, são
tornados, através da poesia, mais
visíveis e dominadores. Basta
lembrarmos o “cauteloso pouco a
pouco da burguesia satisfeita”, de
um Mário de Andrade, que veio da
leitura de uma “Paulicéia
Desvairada”, com um poeta cantando,
chorando, rindo e berrando,
completada por um final glorioso de
mais uma bela página de poesia com o
seu “Come ! Come-te a ti mesmo, oh
gelatina pasma ! (...) Ódio aos
temperamentos regulares, aos
relógios musculares (...) Ódio à
sempiternas mesmices convencionais.
Marco eu o compasso !
Esta é a poesia ! Liberta das
amarras do pouco a pouco das
mesmices do nosso cotidiano, preso
aos convencionalismos. Essa é a
poesia que nos faz mergulhar fundo
nos sentidos perfeitos ou
imperfeitos de nossas vidas. A
poesia está nas palavras que esperam
serem desvendadas. E, eu sei, como
Baudelaire, que para o poeta “um
lugar sempre resta na fileira feliz
das divinas Legiões”. E que será
sempre convidada para a perpétua
festa nos turnos dos valores e das
dominações. Pois, a poesia é tal
qual um rei de algum país chuvoso,
rico, imponente e moço, embora
idoso. Ela é dotada de energia, uma
das formas que toma a pulsão
estética, nascida da necessidade do
artista que quer evidenciar e elevar
seu material escrito. A energia da
linguagem permite ao poeta escapar
ao cerco do método geométrico, num
certo sprit de finesse, certo
movimento de rebeldia sintática, de
fantasia intelectual, de registro do
mundo. Essa energia converge para um
campo imantado de criação verbal que
repete, mesmo em escalas diferentes,
o mesmo processo do dizer
metafórico, o texto torna-se, então,
um labirinto de trilhas que se
ramificam, que a tudo submete e se
submete a essa energia em processo,
que do caos pode provocar a criação.
A inspiração da poesia nasce do
enfrentamento da realidade na
reelaboração da linguagem. Daí a sua
força expressiva e retórica. Fazer
poesias é desnuar-se diante do
outro, como disse Adélia Maria
Woelner, e as Palavras são Pássaros.
Voam. Já não nos pertencem, afirma
Helena Kolody. Diríamos nós, Poesia
são palavras que desnudam e voam
buscando abrigo em outros ninhos,
podendo alimentar os filhotes que
continuarão o vôo eterno que é de
ninguém e é de todos. Só assim
entendo a poesia, que não é
mitificação. E só no apogeu da
poesia que atingiremos a
transcendência de nossas pequenas
ruínas cotidianas e alcançaremos a
perfeição máxima do Ser”.