Durante a
viagem São Paulo / Rio de Janeiro, em
pleno voo, começámos a trautear a
romântica canção “As Time Goes By” do não menos romântico filme Casablanca. Na
nossa mente começaram a desfilar cenas
deste filme de 1942: O Rick (o dono do
café), o aparecimento de sua sempre
amada Ilsa, o oportunista do chefe da
polícia Louis Renault, o repelente major
nazi Strasser ... o final do filme
“Louis (disse Rick) acho que isto é o
princípio duma bonita amizade”, dito
após o Rick ter abdicado do seu grande
amor pela Ilsa, dando-lhe fuga de avião
com seu marido Victor Laszlo – que
grande parvalhão – pensámos nós! O nosso
cérebro não parava e assim começámos a
pensar no seguimento deste amor (...)
anos depois: “No bar “Belle Époque” no
centro de Paris, seu proprietário, Rick,
falava com o seu gerente, o Renault,
quando, à porta, apareceu uma ainda
linda mulher (...) Rick, o Laszlo morreu
o ano passado (...). Entretanto, o avião
tinha chegado ao Aeroporto Santos Dumont...
Tínhamos combinado a entrevista com
LÍLIAN MAIAL, no 3º Posto da Praia de
Copacabana. Não conhecíamos a Lílian, só
sabíamos que era morena e com longos
cabelos pretos. Como a encontrar no meio
daquela multidão ? Pensámos simular um
desmaio e, assim logo apareciam médicos
que ali estivessem perto e, com sorte
aparecia a nossa entrevistada. Estava
quase a “desmaiar”, quando ouvimos uma
voz perguntar: -“Oi, você é o Carlos ?”.
Era a Lílian – respirámos de alívio.
Fomos para um bar mesmo em frente, o
Rondinella, onde a Lílian começou a
falar de onde tinhas nascido e onde
morava: -“Sou nascida no Rio de Janeiro
(capital), no Bairro da Tijuca, mas há
13 anos resido no Bairro de Vila Isabel,
berço do nosso músico/poeta Noel Rosa,
que a imortalizou em canções como ...
“lá em Vila Isabel / quem é bacharel /
não tem medo de bamba / São Paulo dá
café / Minas dá leite / e a Vila Isabel
dá samba”. A Vila Isabel guarda o
passado entre paredes do presente. As
calçadas do tradicional Boulevard 28 de Setembro trazem, em pedras portuguesas,
as reproduções de partituras das mais
famosas canções por Noel compostas. Há
ruas presas no tempo, convivendo
harmoniozamente com outras, de mais
modernas construções. Um bairro
aparzível, com inúmeros “botecos” muito
bem frequentados pela nata do samba e da
poesia. Dos antigos, o mais famoso é o
Bar do Costa, procurado pelos mais
tradicionalistas, na Rua Visconde de
Abaeté, local, aliás, do mais concorrido
dos modernos barzinhos, o Petisco da
Vila, da turma mais jovem”. – Lílian,
importa-se também de falar no Rio de
Janeiro – a Cidade Maravilhosa ... ?: -
“Falar do Rio de Janeiro é, como se diz
por aqui, “chover no molhado”. Não há
quem não conheça detalhes do Rio, mesmo
nunca tendo pisado aqui: Pão de Açúcar,
Cristo Redentor (Corcovado), praias,
sendo a mais famosa a de Copacabana, se
bem que atualmente não é a mais
frequentada, perdendo para a selvagem
Barra da Tijuca. Rio do Carnaval, do
Maracanã, do povo informal, brincalhão,
do mais belo pôr-de-sol nas pedras do
Arpoador (sei que Portugal tem o mais
belo pôr-de-sol da Europa ...), da diversidade de ritmos e cores, Rio
propenso a amores. E, se como dizem,
Deus é brasileiro, com certeza nasceu no
Rio de Janeiro. Há um lado cultural bem
divulgado, como o Museu Nacional de Arte
Moderna, o Museu Nacional de Belas Artes
(onde recebemos as exposições
internacionais), Museu Histórico
Nacional, Teatro Municipal e um sem
número de Centros Culturais, onde são
difundidas obras literárias, cinema,
teatro, música, espalhados pelos quatro
cantos da cidade. Um dos pontos mais
agradáveis do Rio é o Jardim Botânico,
criado por D. João Vl, logo após a
chegada da Família Real de Portugal,
onde estão plantadas milhares de
espécies, cultivadas e protegidas até ao
dias atuais. Recentemente, por pura
fatalidade, um raio destruiu uma das
palmeiras imperiais, plantada pelo
próprio D. João, em 1808.
O gostoso do Rio de Janeiro, além do
clima, das belezas naturais, é que
sempre se encontra o que fazer, qualquer
que seja o gosto e a qualquer hora do
dia. No Centro, local basicamente
restrito ao comércio, aos escritórios,
enfim, ao trabalho, encontram-se áreas
onde se pode obter lazer na hora de
almoço, assim como na famosa (e
deliciosa) “Happy hour”. A cada dia,
mais e mais locais de encontro de poetas
estão sendo abertos. Verdadeiros cafés
culturais se espalhando, conquistando a
população mais jovem, através de boa
música, bom ambiente e boa poesia”. Com
uma entrevistada assim, nosso trabalho
fica, e muito, facilitado ! Mas tínhamos
que começar a entrevista, propriamente
dita: - Para você, o dia começa bem se
... ?: -“Ao abrir os olhos eu encontrar
outros olhos felizes em me ver”. – Que
influência tem em si a queda da folha e
a chegada do frio ... ?: -“Várias.
Nostalgia, aconchego, romance,
delicadeza, fragilidade, mais reflexão”.
– Uma imagem do passado que não quer
esquecer no futuro ... ?: -“A primeira
vez que vi cada um dos meus 3 filhos”. –
Como vai de amores ... ?: - “Muito bem
!”. – Qual foi o maior desafio que
aceitou até hoje ... ?: - “Ter o 3º
filho aos 38 anos e escrever o primeiro
livro aos 40”. – De que mais se orgulha
... ?: -“De ter lutado e continuar
lutando por tudo o que sou. Nada me veio
de graça, sem empenho e sacrifícios. Mas
tudo tem valido a pena”.
– Qual o cúmulo da beleza ... ?: -“O
nascer e o pôr-do-sol na praia. Não há
nada na natureza que me emocione mais.
Mas, felizmente, ainda há muita beleza
no mundo. Poderia escrever um livro
sobre isso”. – E da fealdade ... ?: -“Buscá-la
no próximo”. – Quando a Lílian era
criança ... ?: -“Era tímida, mas arteira,
moleque, parecia um menino, talvez pelo
desejo não realizado de meu pai quer um
filho macho (coisa de árabe)”. – Qual a
sua melhor qualidade e, seu maior
defeito ... ?: - “Otimismo; defeito ...
talvez prolixidade (gosto de falar, mas
me alongo mais que o necessário –
gostaria de ser mais sucinta)”. – Qual a
característica que mais aprecia em si e,
nos outros ... ?: -“Otimismo, estar
sempre de bem com a vida, sorrir; nos
outros, a honestidade”. – Como se
auto-define ... ?: -“Feminina”. – Que
género de filme daria sua vida ... ?:
-“Um longo romance, com toques de
suspense e erotismo”. – O arrependimento
mata ... ?: - “Não sei, ainda estou viva
!...” – Qual a personagem que mais
admira ... ?: -“Não tenho admiração por
um personagem em particular. Não costumo
me prender a nomes, mas a ideias,
vivências. Nesta minha terra, assolada
por injustiças sociais, admiro aqueles
que conseguem do pó extrair a
sobrevivência, da desdita esboçar
sorrisos, da miséria se nutrir e buscar
com as mãos calejadas da enxada e da
lida, alcançar os sonhos”. – As piadas
às louras são injustas ... ?: -“Aí você
tocou num ponto delicado. Sou feminina,
mas sou feminista também. Piada às
louras, ou ruivas, ou negras, ou
morenas, são obviamente pejorativas à
condição feminina. Como considero o ser
humano independente de sexo, raça,
credo, posso levar na brincadeira, mas
sempre de extremo mau gosto. Ah, como vê,
sou morena !”. – Que vício gostaria de
não ter ... ?: -“Chocolate. Eu não
resisto...”. Sorrimos ao dizer: - Lílian,
não sou nada guloso – o doce é que me
atrai ! . – Lílian, e se, de repente,
lhe oferecerem flores, isso é ... ?: -“
Carlos, eu não vou falar no desodorante
! Mas receber flores é sempre uma
delícia !!! Só não superada por receber
bombons !...”.
Tinha chegado a hora do almoço. Como não
houve consenso na escolha do
restaurante, escrevemos em dois pedaços
de papel o nome de dois restaurantes.
Saiu o Restaurante Iguatemi, em Vila
Isabel. A escolha da refeição ficou ao
critério e gosta da dama, que, escolheu
uma suculenta picanha na brasa,
acompanhada por um bom vinho tinto à
temperatura ambiental (fresco só o
branco). Enquanto esperávamos pela
refeição, continuámos com a entrevista:
- “Para a Lílian, a Cultura será uma
botija de oxigénio ... ?: -“ Com toda
essa poluição que anda por aí ... sei
não ... mas a cultura deveria ser a
morfina mais reconfortante ao alcance de
todos. Um vício desejado”. – Deus existe
... ?: -“Está falando com ele”. – O que
é para você o termo Esoterismo ... ?: -“Curiosidade.
Sou curiosa por tudo o que seja oculto,
mas apenas até deixar de ser ...”. –
Acredita na reencarnação ... ?: -“Não”.
– Acredita em fantasmas ou em “almas do
outro mundo” ... ?: -“Também não !”. – O
Imaginário será um sonho da realidade
... ?: -“Talvez a virtualidade real, uma
dimensão paralela do real. Ou não (como
diria Caetano Veloso)”. Acredita em
histórias fantásticas ... ?: -“Me
divirto apenas. Gosto de explorar mentes
criativas (mas não vou explorar a do
Carlos !...”.
Já no final do almoço, enquanto
tomávamos um café expresso forte,
continuámos para terminar a entrevista:
- “Que livro anda a Lílian a ler ... ?:
-“Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do
Século”, seleção de Ítalo Moricone, um
dos grandes sucessos da Bienal do Livro
este ano, aqui no Rio de Janeiro”. –
Autores e livros preferidos... ?: -“De
poesia: Fernando Pessoa e Cecília
Meirelles foram meus poetas favoritos
durante anos. Atualmente há inumeros
valores, inclusive talentos descobertos
pela Internet, com os quais eu seria
injusta, caso citasse um ou dois nomes.
De prosa: Eça de Queiroz (Portugal) e
Graciliano Ramos e Guimarães Rosa
(Brasil). Também aqui há diversos
talentos mais modernos, entre cronistas,
contistas e romancistas, como Affonso
Romano de Sant’Anna, Luís Fernando
Veríssimo, Arnaldo Jabor (que também é
cineasta). Qualquer livro desses autores
me agrada”.
– Música e autores preferidos ... ?: -“Diria
que minha vida tem eterno fundo musical.
A cada acontecimento há uma música de
fundo. Basta ela tocar, anos depois, que
minha memória recorda factos, cores,
aromas, sensações. Daí, quase todos os
ritmos me agradam, na dependência apenas
da ocasião, se romântica, se
introspectiva, se de revolução interior,
se de paz ou agitação. Adoro a Música
Popular Brasileira, o samba-raiz (aquele
eternizado pelos grandes sambistas),
rock, clássicos, mas também tenho meus
momentos de “techno music” (nas
danceterias), porque não o “vira”ou as
músicas da “dança do ventre” e a
“flamenca”, de meus ancestrais ? Sem
falar, é claro, num bom tango de Gardel
e um delicioso fado de Amália
Rodrigues”. – O filma comercial que a
Lílian mais gostou ... ?. –“Não te vais
rir, pois não Carlos ? “A Noviça
Rebelde” !É sério: um dos filmes que
marcou minha infância e que não canso,
até hoje. No lado mais cult,
“Casablanca” , “Cidadão Kane”, Blade
Runner. E o romântico e bem fotografado
“E Tudo o Vento Levou”. – Lílian, antes
de falarmos na sua obra literária,
pergunte-lhe se você tem alguma Home
Page ... ?: -“Carlos, ter tenho ... Mas
não está atualizada há um ano ...
www.geocities.com/lilianmaial ... “. –
Para terminar, vamos falar de sua obra
literária ... ?: -“Um livro de 135
poemas “ENFIM RENASCI”, editora Impetus,
e participação em antologias (Novos
Talentos da Literatura Nacional –
Poesias) e mais 3 a serem publicadas
ainda esta ano. Tenho mais 2 livros
prontos, sendo um de Poetrix, mas ainda
sem patrocínio”.
E assim falámos de: LÍLIAN MAIAL TAVARES
(nome artístico LÍLIAN MAIAL)
Nasceu a 04 de Fevereiro, gosta de
cinema e fotografia. É médica, com pós-graduação
em Clínica Médica, Gastroenterologia e
Medicina do Trabalho. Exerce consultório
e cargo de Médica Perita da Prefeitura
da Cidade do Rio de Janeiro.
...
ENFIM, RENASCI !!!
(poema de dá nome ao seu livro)
“Das buscas inúteis por pastos e relvas
/ Das mentes inertes, sem sons,
decadentes / Dos rostos sem traços / de
sombras e trevas / Dos anjos noturnos,
de vôos dementes.
Busquei meu abraço em portos de mágoas /
E por valas e fossas meu reflexo vi /
Molhei-me em regatos, cobri minhas
chagas / Sem moldes, sem marcas, do
sonho bebi.
Tua face entre tantas, foi mera figura /
De atores num palco, numa trama pagã / E
o trabalho do mestre, eterna escultura /
Doou-te indolente, uma alma vilã.
Embriaguei-me de infindável juventude /
Cicuta, alquimia maldita, vinho sagrado
/ Ousei sorver a vida, mergulhei no teu
açude / Enfeitei-me de mim mesma, de
momentos já passados.
Ergui montes de ilusões, fui santa, fui
noviça / Escrevi mil bíblias de amor
mais que utopia / Morei contigo em
castelos de areia movediça / Fui senhora,
fui escrava, sem carta de alforria.
Da minha carne, retirei teu alimento /
Da minha alegria, construí teu abrigo /
Da minha vontade, teu contentamento / Da
minha dor, teu troféu, teu castigo.
Navegando por lágrimas, orando em
simples lamentos / Houve momentos de
luz, em meio ao breu do coração/ Em
breves lampejos de quem sou, por
momentos / Reavi a mais antiga chama de
devoção.
E, enfim, renasci para dentro do corpo /
num parto difícil, solitário, ao inverso
/ Deixarei o cordão que nos une bem
solto / Como um convite a integrar meu
novo universo.
E a nova criatura de pernas e braços /
Com vontades, desejos, cantares,
desditas / Seguirá seu curso, sem
bússolas ou compasso / Como anfitriã
herege de uma casa bendita”
ROCHEDO
“[Imóvel] / eu, rochedo / nada posso
fazer / a não ser ver-te / me invadindo
/ em vagas espumas / a zombar do meu
poder. / [Estática] / eu, pedra / não
posso lutar / contra teus movimentos /
tuas marés de açoites / que lentamente /
desmaterializam / o que levei a vida / a
sedimentar. / [Impassível] / eu, rocha
bruta / que o vento circunda / que o mar
arremete / e o tempo desgasta / aguardo
/ paciente / a ressaca”.
SOMBRA
“Sou o estranho / que mais conheço / sem
meio e sem fim / sou meu recomeço”.