Já há muito que não íamos à Serra de
Montemuro, onde se pode admirar paisagens e cenários
de verdura dignas da tela de um grande pintor. Que
prazer passearmos pelas suas encostas alcantiladas
que conduzem ao vale, que é atravessado pelo lindo
Rio Paiva. É um lugar idílico ! Pertence ao concelho
de Castro Daire, que é envolvido pelos concelhos de
Tarouca, Vila Nova de Paiva, Viseu, São Pedro do
Sul, Arouca, Cinfães e Resende. Tínhamos combinado a
entrevista com o escritor Dr. João Carlos Ferreira
do Couto Sevivas , no Restaurante Mirante, na linda
cidade de Castro Daire. Um advogado e um jornalista
tem sempre o tempo muito contado, e assim, logo que
chegámos começamos com a entrevista: - João Carlos,
como é que você se auto-define ... ?: - “Carlos, sou
sensível, com bom raciocínio matemático, nervoso,
com mau feitio mas com explosões de boa disposição”.
– Qual a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito
... ?: - “Respectivamente a franqueza e o de me
isolar”. -
Seus passatempos preferidos ... ?:- “ Golfe, jogar
xadrês ou damas”. – Qual a característica que mais
aprecia em si ... ?: - “A capacidade de poder
minorar o sofrimento”. – E nos outros ... ?: -“A
sinceridade”. – Quando era criança ... ?: -“Vivi
demasiadamente sozinho, filho único. Entusiasma-me o
desafio, a competição e quando criança aprendi a
brincar em que simultaneamente fazia, primeiro de
Sporting, de Porto ou Benfica, por esta ordem,
normalmente, sem batota, ganhava o segundo a que por
certo não era alheio o meu amor clubístico”. – Qual
foi o maior desafio que aceitou até hoje ... ?: -
Ser candidato a presidente da Câmara Municipal nas
primiras eleições autárquicas”. – De que mais se
orgulha ... ?: -“Tentar viver”. – Que vício gostaria
de não ter ... ?: - “Não ser obsessivo”. – O dia
começa bem se ... ?: - “Sentir que a vida também
amanheceu”. – Que influência tem em si a queda da
folha e a chegada do frio ... ?: -“De aconchego e
afinidade”. – Para o João Carlos, Deus existe ... ?:
-“Se existisse apenas seria mau para a Humanidade.
Deus deverá ser a própria vida e nunca um mero corpo
existente”. – E se, de repente, lhe oferecerem
flores, isso é ... ?: -“Prova que estou a viver um
momento especial”.
Estava na hora do aperitivo pois a hora do almoço se
aproximava, que foi aproveitado pelo nosso
entrevistado para falar de Castro Daire :-“... o seu
rio Paiva manancial de vida e lazer que as malditas
mini – hídricas queriam destruir (e conseguiram à
entrada de Castro Daire); a serra do Montemuro
espaço de liberdade e acalmaria; apesar de muito
desfigurada, com os edifícios por todo o lado,
Castro Daires conserva o cheiro e a presença das
coisas vivas e perenes. O seu nome lembra a valentia
e ousadia dos povos lusitanos (castro) havendo quem
o associe à circunstâcia de ser uma terra de bons
ares (Daire). Terra das generosas trutas e do
excelente salpicão e presunto, e da apetitosa
castanha, aonde o cabrito assado, as couves com
feijão, as migas são alimentos muito afamados. Do
tempo dos primórdios da Nacionalidade, (séculos Xl e
seguinte) existe a cerca de uns 05 Km, o Templo das
Siglas assim designado pelo facto de cada pedra de
que é construído Ter gravado um símbolo. Podemos
falar, também a uns 03 Km da vila de Castro de Aire,
no Mosteiro, de uma carvalha (árvore) que foi
monumento nacional, ou da pedra de Lamas que tanto
tem intrigado os historiadores pela escrita aí
gravada”. Entretanto chegou o almoço: um saboroso
cabrito assado no forno com batatas pequeninas e
muito molho, migas e tudo bem regado pelo afamado,
perfumado e gostoso vinho tinto daquela região.
Devido às nossas agendas carregadas de assuntos e
não dar muito tempo de folga, a entrevista teve de
continuar: - João Carlos, qual a personagem que mais
admira ... ?: -“Nenhuma. Personalidade admiro Jesus
Cristo”. – Uma imagem do passado que não quer
esquecer no futuro ... ?: -“O primeiro beijo”. –
Qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade ... ?: - “Da
beleza uma mulher tão bela por fora como por dentro;
fealdade, uma bela mulher perversa”. O
arrependimento mata ... ?: -“Vai desgastando”. Como
vai de amores ...?: -“Já passei essa fase”. – Que
género de filme daria sua vida ... ?: - “Uma comédia”.
– O que é para você o termo Esoterismo ... ?: -“Uma
palavra que encerra muita verdade e alguma mentira e
maldade”. – Acredita na reencarnação ... ?: -“É um
dos temas em que continuo a estudar. Tudo me sugere,
porém, que o nosso cérebro, enfim, o nosso corpo,
tem potencialidades que a ser reveladas permitirão
conviver com uma certeza de vida contínua. Vivemos
um período que poderia designar de primórdios do
ser, uma espécie de pré-história do ser. Nunca nos
devemos esquecer que 2000 anos a partir de Cristo é
uma simples linha no livro da Humanidade muito
extenso e que falta ler”. – Acredita em fantasmas ou
em “almas do outro mundo” ... ?: -“Transcreve-se a
resposta anterior. A dicotomia simplista do sim ou
não revelaria crendice doentia ou falta de
informação sobre realidades indesmentíveis. Temos de
percorrer ainda um longo caminha de preparação
vivencial até podermos encarar estes temas sem o
medo e as crenças que nos cegam”. – O Imaginário
será um sonho da realidade ... ?: -“O Imaginário tem
a sua própria essência faz parte da vida do homem
como a necessidade de comer ou beber”. – Acredita em
histórias fantásticas ... ?: -“Todas as histórias
têm o seu cunho fantástico, dependendo sempre muito
de quem as vive. Eu acredito, especialmente, na
vivência fantástica das pessoas que viveram essas
histórias”. – Para o João Carlos, a cultura será um
botija de oxigénio ...?: - “E o próprio oxigénio”. –
“Não. É o próprio oxigénio”. – Que livro anda a ler
... ?: - “Poetas Espanhóis do Século de Ouro”. –
Autores e livros preferidos ... ?: - Hermingwai,
Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Jack London , “O
Lobo do Mar”, etc”. Música e autores preferidos ...
?: - “Beethoven, Schubert, Brahms, Creadence
Clearwater Revial, Leo Sayer, Rolling Stones,
Fausto, Banda de Lá, Zeca Afonso, Sérgio Godinho,
Brigada Vitor Jara, e poucos outros”.
- E sua obra literária ... ?: - “Flor de Abril
(1989) -;- Teatro (1990) -;- “Para Ti” (poesia) e
“Peixinho Solitário” (conto) – 1991 -;- “Fim do Mal”
(poesia) 1992 -;- “Os Últimos Momentos de uma
Mentira” (teatro) 1993 -;- “O Grito” (poesia). Em
Junho próximo será lançado o livro “Os Calos da
Alma” da Editorial Minerva.
E assim falámos de: JOÃO CARLOS FERREIRA DO COUTO
SEVIVAS
Nascido em 08 de Agosto de 1954. Advogado. À guisa
de despedida nos disse: -“ Aquilo fundamentalmente
que urge acreditar no meu ponto de vista é: Temos
imperiosa necessidade de deixar apenas de existir,
isto é andarmos a gastar os anos, sem qualquer
objectivo a não ser dormir acordado, como se
tivessemos já garantida a eternidade para quando nos
apetecesse começarmos, então, a viver. Viver
significa estar e crescer a todo o momento; não
sermos bêbados à noite, engravatados de sumo de
laranja de dia, machões na cama e sem tomates na
procura do que, o nosso instinto que existe e é
importante nos impele, para a verdade, para a
conquista do que sentimos ser o bem. Cada eventual
renúncia ao prazer imediato e sem grandeza dar-nos-á
o dobro da confiança, de força para evoluir pois
esse quer queiramos quer não é o nosso forçoso
destino, sem coacção, pois só com vontade se vence a
batalha, tam como as plantas, os peixes, todos os
seres vivos que ao longo de centenas, milhares e
milhões de anos nos põem à frente dos olhos provas
de que a evolução representa a grande verdade que
temos de respeitar”.
(Daniel Gouveia (Abril 2002) Prefácio do seu novo
livro "Vertigens de Lua Cheia" : - (...) Nas poucas
vezes em que fala de si, João Sevivas não se coloca
no pedestal que os poetas tanto gostam de ocupar,
como se fossem o centro do universo, mas como alguém
que nos mostra e ajuda a revelar parcelas desse
mesmo universo. Não apenas o dele, mas o de todos
nós. (...)