GRANDES ENTREVISTAS

por

 

ENTREVISTADO

JOÃO ROBERTO CÔNSOLI

 
Na viagem aérea Rio de Janeiro para Belo Horizonte, foi lendo uns apontamentos sobre este bela cidade, capital do Estado de Minas Gerais: “A expansão urbana extrapolou em muito o plano original. Quando foi iniciada sua construção, os idealizadores do projeto previram que a cidade alcançaria a marca de 100 mil habitantes apenas quando completasse 100 anos. Essa falta de visão se repetiu em toda a história da cidade, que jamais teve um planeamento consistente que previsse os desafios da grande metrópole que se tornaria. A nova capital foi o maior problema do governo do Estado no início do regime: construída após vencer muitos obstáculos, ela permaneceu em relativa estagnação devido à crise financeira. Ligações ferroviárias com o sertão e o Rio de Janeiro puseram a cidade em comunicação com o interior e a capital do país. O desenvolvimento foi mínimo até 1922. Pelas proclamadas virtudes de seu clima, a cidade tornou-se atrativa, especialmente para o tratamento da tuberculose: multiplicaram-se os hospitais, pensões e hotéis, mas até 1930 exerceu função quase estritamente administrativa. Foi também na década de 1920 que surgiu em Belo Horizonte a geração de escritores de raro brilho que iria se destacar no cenário nacional. Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos, Pedro Nava, Alberto Campos, Emílio Moura, João Alphonsus, Milton Campos, Belmiro Braga e Abgar Renault se encontravam no Bar do Ponto, na Confeitaria Estrela ou no Trianon para produzir os textos que revolucionaram a literatura brasileira. Nos anos 1930, Belo Horizonte se consolidava como capital, não isenta de críticas e de louvores. Deixava de ser uma teoria urbanística para ser uma conquista humana, algo para ser não somente visto, mas para ser vivido também. Nesta época o município já contava com 120.000 habitantes e passava por problemas de ocupação, gerando uma crise de carência de serviços públicos. Necessitava de um novo planeamento para que se recuperasse a cidade moderna. Entre as décadas de 1930 e 1940 houve o avanço da industrialização, além da criação do Conjunto Arquitetónico da Pampulha, inaugurado em 1943 por encomenda do então prefeito Juscelino Kubitschek. O conjunto da Pampulha reuniu os maiores nomes do modernismo brasileiro, com projetos de Oscar Niemeyer, pinturas de Portinari, esculturas de Alfredo Ceschiatti e jardins de Roberto Burle Marx. Ao mesmo tempo, o arquiteto Sílvio de Vasconcelos também criou muitas construções de inspiração modernista, notadamente as casas do bairro Cidade Jardim, que ajudaram a definir a fisionomia da cidade”.
 
Chegado a Belo Horizonte, ao Aeroporto da Pampulha, já o nosso entrevistado nos aguardava a alguns minutos, pois o avião chegou com ligeiro atraso.
Depois das apresentações tradicionais, o João Roberto Cônsoli, convidou-me a ir à localidade onde mora. Durante o percurso de cerca de 25 Km, o entrevistado foi falando do local: “Moro no município de Nova Lima - Minas Gerais, próximo a uma Aldeia chamada São Sebastião das Águas Claras, mais conhecida por Macacos. A Aldeia é bem pequena, mas possui um grande número de pousadas e restaurantes. Tornou-se um local turístico devido às cachoeiras e a tranquilidade da região. A Aldeia formou-se em torno de uma igrejinha(São Sebastião), nos idos 1700!”
Aproveitei para começar a entrevista, pois tinha poucas horas antes de apanhar o avião de regresso ao Rio de Janeiro e seguir depois para Lisboa.
Carlos: - De que mais se orgulha, amigo Cônsoli?
Cônsoli: - De ser um cidadão do Universo.
Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?
Cônsoli: - Minha infância.
Carlos: - Que vício gostaria de não ter?
Cônsoli: - Francamente, não tenho vícios!
Carlos: - O dia começa bem para você se…?
Cônsoli: - O sol desponta no horizonte e os pássaros cantam.
Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?
Cônsoli: - Leva-me a pensar na impermanência da vida.
Carlos: - Qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade?
Cônsoli: - Beleza, uma mulher despida do seu mais lindo vestido! Fealdade, Uma mulher vestida com essas modas que andam por aí.
Carlos: - O arrependimento mata?
Cônsoli: - Não, mas costuma aleijar!
Carlos: - Qual a personagem que mais admira?
Cônsoli: - Francisco de Assis, não o santo, mas a pessoa.
Carlos: - Qual a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito?
Cônsoli: - Qualidade é perceber que não tenho muitas! Defeito É não dedicar mais tempo ao autoconhecimento.
Carlos: - Seus passatempos preferidos?
Cônsoli: - Leitura, Internet e construção de violinos.
Carlos: - Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje?
Cônsoli: - Fundar uma Cooperativa de Trabalho Odontológico, a Uniodonto de Belo Horizonte.
Carlos: - As piadas às louras são injustas?
Cônsoli: - Às vezes.
Carlos: - Qual o filme comercial que mais gostou?
Cônsoli: - Dr. Zivago( Diretor David Lean).
Carlos: - Como vai de amores?
Cônsoli: - Bem, obrigado!
Carlos: - Quando era criança...?
Cônsoli: - Gostava muito de desenhos animados e das história contadas na época.
Carlos: - Como se auto-define?
Cônsoli: - Sou um ser a procura de mim próprio!
 
Já em Macacos, fomos almoçar ao restaurante “Sebastião”. Depois de escolher a refeição e enquanto comíamos, continuámos a entrevista.
 
Carlos: - Acredita em histórias fantásticas?
Cônsoli: - Depende da história.
Carlos: - Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo”?
Cônsoli: - Não, eu nunca vi nenhum, mesmo se eu visse teria minhas dúvidas!
Carlos: - Acredita na reencarnação?
Cônsoli: - É um pacote que ainda está em cima da prateleira para futuras pesquisas.
Carlos: - O que é para você o termo Esoterismo?
Cônsoli: - Ensinamento que visa o caminho do autoconhecimento, da sabedoria e espiritualidade, bem como da imortalidade.
Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade?
Cônsoli: - Acho que a realidade é que costuma ser um sonho do imaginário.
Carlos: - Para si, Deus existe?
Cônsoli: - Existe uma forma de energia que permeia todo o universo.
 
Já a caminho do Aeroporto, com o tempo algo limitado, a entrevista continuou.
 
Carlos: - Vamos falar de sua obra Literária?
Cônsoli: - Publiquei um livro em 2004 pela Editora Armazém de Idéias : A Incrível Viagem de Élfin Korat, que gosto de chamá-lo de uma Realo-Ficção. Além disso, guardo comigo muitos contos, inúmeros sonetos, crônicas e poemas.
Carlos: - Que livro anda a ler?
Cônsoli: - A Sabedoria das Areias (Osho).
Carlos: - A cultura será uma botija de oxigénio?
Cônsoli: - Do jeito que o mundo está, talvez uma botija de CO2(rs)!
Carlos: - Autores e livros preferidos?
Cônsoli: - Livros: O Sorriso Etrusco(José Luís Sampedro), Bhagavad Gita( Faz parte do épico Mahabharata), Fernão Capelo Gaivota(Richard Bach). Autores: Luís de Camões, Florbela Espanca, Miguel de Cervantes y Saavedra, Homero.
Carlos: - Música e autores preferidos?
Cônsoli: - Músicas: An affair to remember(1957), Love is a many esplendored thing(1955), Tema de Lara, Fascination, Sonho de amor(Franz  Liszt), Nocturne Op. 9 No.2, Granada. Autores: Franz Liszt, Frédéric Chopin, Agustín Lara.
Carlos: - Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros?
Cônsoli: - Em mim, não fazer tempestades em copo d’água. Nos outros, a humildade e a generosidade.
Carlos: - Que género de filme daria sua vida?
Cônsoli: - Talvez, como chamo meu livro, uma Realo-Ficção.
E assim, falámos de:
 

 
 
 
João Roberto Cônsoli
Nascido a 12 de Julho de 1942
Cirurgião-Dentista (aposentado).
 
 
Catarse
J.R.Cônsoli
 
O político disse que desdisse o dito, falou sobre nadas, pensando no tudos (sic), comprou emoções na esquina, pagou com fundos públicos, e escafedeu-se... balançou o galho da roseira e saiu, deixando no ar um cheiro corrupto.  Como é mesmo o nome dele? Já sabíamos do fato, quem não sabia? O estouro foi grande, a manobra arriscada, o dinheiro saiu, partiu, sumiu, ninguém viu. Mas o povo é bonzinho... sempre paga a conta... resignado, resignado! Por que as nuvens passam sem deixar rastros? Por que a formiga trabalha e a cigarra canta? Responda-me... do contrário faço-lhe presidente do Banco do Brasil, ou lhe coloco Ministro. Historinha vulgar essa, nada diferente daquelas que estamos acostumados a ver diariamente na telinha, né? - Prantos ou gargalhadas? - Tanto faz, a tragédia é sempre a mesma... os palhaços começam sorrindo e sempre acabam chorando. Não me lembro mais dos versos do poeta sobre a madrugada fria! Será que foram palavras quentes ou só mornas divagações que o tempo esfria?  Palavras ditas no escuro parecem ter mais vida, pelo menos são mais férteis, ou fúteis, ou serão mais fartas e fáceis? Quem disse que o sol não brilhará amanhã? - Opa!... não me diga uma coisa dessas, como é que eu vou secar minhas roupas? Aquele deputado já aprontou mais uma, hem? Quero ver como ele vai se safar dessa, ah... se quero! Acho que não tem saída não sô, só entrada... pelas portas de uma bela pizzaria com direito a vinhos importados, pagos com o dinheiro dos contribuintes. Safa! eles estão ai de novo, prontos pra outras... Cervejas geladas, gelo rodando no copo, e a mesma pinga debaixo do balcão, né?  Pra não dar na cara!  Eles quase sempre não dão na cara... Mas sempre acertam a cara do povo que está anestesiada desde a República. A bola rolou no fim de semana, o povo continua dançando, e o filósofo continua não fazendo a barba; ou é a barba que não faz o filósofo? O rio corre pro mar, e o mar corre pra onde? - Qui o quê rapaz!... O mar é brasileiro, o mar não corre, descansa nas praias... toma sol e namora a areia. - O quê!... Não vejo nada de engraçado, engraçada é a vovó, que anda de bicicleta com a sombrinha aberta e trepa  nos tamancos todo dia, porque morre de saudades do vovô, ora essa! O dia se foi mais uma vez, as notícias continuam as mesmas - alguns morreram no tráfego, muitos morreram do tráfico, outros de morte morrida, e muitos... muitos de morte matada. As drogas correram soltas na festa dos peões do povo... Uns ficaram até o dia amanhecer, outros tiraram o peso da consciência e foram dormir de cabeça vazia e de rabo cheio. Mas a consciência é um bicho danado sô, mesmo sem peso continua beliscando e não deixa ninguém dormir em paz. Festa de políticos é assim mesmo, sempre acaba em pesadelo para o povo e em (real)lidades pra eles. Olha aquele ali! Tentando manter-se em cima de um tronco seco, veja como ele usa as esporas! Está treinando pra montar no povo, ou será no polvo, acho que é pra cavalgar o povo e andar de Volvo. Pessoas passam na rua balançando sacolas brancas, bandeiras descoradas, vazias... Cadê o verde-amarelo? E o azul, quede? Borraram as cores que escorreram pelo chão se misturando com o barro das sarjetas. - Onde estão os comandantes do mundo, os bonecos robotizados, teleguiados pelo Império? - Ah...  já sei, tratando das mesmas manobras seculares, a arte da enganação, discutindo o tamanho dos buracos da peneira com que  tapam o sol, né não? Atrás da fumaça brilha o fogo dos canhões, choram crianças e mães desesperadas cobertas de areia e pó. Enquanto isso os Presidentes ficam, justificam, mistificam, ferem e, ah sim!... Defecam.

Formato de entrevista de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

 

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