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Mais uma vez no Estado do Paraná e, quando passo a
Curitiba, não posso deixar de visitar a Janice .
Depois rumei a Palmas, uma cidade deste Estado
brasileiro, para entrevistar o JOÃO de OLIVEIRA
JUNIOR . O locar combinado para a entrevista, foi a
casa da amiga Lucy Salete. Depois, fomos para um bar
perto da casa da casa da Lucy, onde começámos a
entrevista: - Amigo Junior, quais os seus
passatempos preferidos ... ?: -“Amigo Carlos, ler,
tocar violão, assistir a filmes e ouvir música.
Gostaria de gostar de praticar esportes, mas sou um
pouco preguiçoso para isso”. – Qual a característica
que mais aprecia em si, e, nos outros ... ?: - “Em
mim, uma capacidade de ler as entrelinhas da
realidade de uma forma desvendadora; nos outros,
admiro, naqueles que podem, o direito de se ouvirem
e de ouvirem os outros, sem prepotência, ou de, pelo
menos, se esforçarem para tal”. – Qual foi o maior
desafio que aceitou até hoje ... ?: -“Quando comecei
a fazer análise, tive de romper certas barreiras de
ordem pessoal, conceitos profundamente enraizados e
que me permitiram discutir, eliminar ou reformular
aspectos de minha vida”. – De que mais se orgulha
... ?: -“De ter rompido estas barreiras que hoje me
permitem ter uma vida mais calma e serena”. – Uma
imagem do passado que não quer esquecer no futuro
... ?: -“Talvez a lembrança de meu irmão, falecido
há alguns anos”. – Quando o Junior era criança ...
?: -“Brincava de Forte Apache e passava os finais de
ano na praia, na casa da minha avó. Botas
ortopédicas e aparelho no dente. Chorão demais,
principezinho demais. Mas os tapas na cara que a
vida me deu me endireitaram, ou pelo menos, ainda
estão tentando”. – Qual a sua melhor qualidade, e,
seu maior defeito ... ?: -“Qualidade, tenho ouvido
para os outros ...; Defeito, sou mais nervoso do que
o normal. Como defeito poderia dizer também que não
sou complacente nem altruísta, mas, no fundo, acho
que isso é uma qualidade”. – Para você, o
arrependimento mata ... ?: -“Deixa tonto. Apesar de
que a vida está aí para ser levada adiante, certos
acontecimentos, tomadas de decisões podem fazer o
sujeito gastar muitas horas depois se
auto-torturando. Porém, olhando por um outro
enforque, é melhor se arrepender de ter feito algo
do que se arrepender por nem ter tentado”. – Qual o
cúmulo da beleza, e, o da fealdade ... ?: -“Da
beleza, a natureza, sem a intervenção destrutiva do
homem. Ou um insight no divã quando o sujeito pode,
por alguns momentos, ter contato com a sua verdade;
Da fealdade, a ignorância, a cegueira e a
prepotência de um povo”. – Que vício gostaria de não
ter ... ?: -“Submissões”. – Qual a personagem que
mais admira ... ?: -“Admiro Freud pelo que disse e
descobriu, principalmente se levando em conta os
conceitos da época em que disse o que disse”. –
Diga-me se considera as piadas às louras injustas
... ?: -“Deixe-me rir ! Digamos que toda a piada tem
um fundo de verdade, mas creio que as louras destas
piadas correspondem a um tipo especial de loura. A
estas, as piadas são justas”. – Para o Junior, o dia
começa bem se ... ?: -“Se acordo bem. Infelizmente,
não conheço uma fórmula para se acordar bem, mas,
quando acordo bem, até o temporal, com raios e
trovões, fica mais belo”. – Que influência tem em si
a queda da folha e a chegada do frio ... ?: -“Nunca
parei para pensar nisso. Me alegro na primavera, com
o fim do frio. O frio é melancólico, mas tem seus
momentos e características agradáveis”. – Como é que
você se auto-define ... ?: -“Tolerância zero em
muitas coisas, coisa que trabalho para melhorar,
mas, para contra balancear, sou um bom ouvinte,
quando sou procurado. Me esforço para manter os
olhos abertos, por mais que a realidade da vida lute
contra, sempre nos forçando a ficar cegos”. – Como
vai de amores ... ?: -“Uma filha de doze anos e uma
esposa que tem a melhor das qualidades entre todas:
é companheira”. – Que género de filme daria sua vida
... ?: -“Humor negro”. – E se, de repente, uma
senhora lhe oferecesse flores, isso era ... ?: -“Estranho.
Não estou habituado pela beleza dos poetas. Estou
mais próximo à crueza de Kafka”. – Uma última
pergunta antes do almoço: para o Junior, Deus existe
... ?: -“Me utilizarei das palavras de Einstein para
responder: “ Acredito no Deus de Spinoza, que se
revela na harmonia e na ordem da natureza, não em um
Deus que se preocupa com os destinos e as ações dos
seres humanos”; para Einstein, Deus e o universo uma
mesma substância. Enfim, não acredito em Deus, como
a palavra sugere”.
Saímos do bar e fomos para um restaurante no centro
de Palmas e, enquanto esperávamos pela amiga Lucy Salete que nos honrou com a sua presença, o João de
Oliveira Junior da sua cidade de Palmas: - “Esta
cidade é muito antiga, onde até poucas décadas
atrás, era caracterizada pelos latifúndios
praticamente improdutivos. Infelizmente, graças a
algumas péssimas administrações, esta cidade ficou
muitos anos parada no tempo, quando perdemos a
oportunidade de nos consolidarmos como a “Capital do
Sudoeste do Paraná”. Atualmente, a cidade é a maior
exportadora de Compensado de Pinus Elliotis do
Brasil”. Entretanto, a nossa querida amiga chegou e
o almoço foi pedido. Para entrada uma salada bem
fornida, camarões fritos e queijos da região. Em
seguida, “Uma bacalhoada em homenagem à Portugal”.
Acompanhado por um bom vinho tinto seco, do Sul do
Brasil. Enquanto esperávamos pela refeição,
continuámos com a entrevista: - Junior, a Cultura
será uma botija de oxigénio ... ?: - “Não vejo a
cultura como algo onde se possa se salvar. Vejo como
algo para ser usufruída. Não seria então de oxigénio,
para respirar, mas de perfume, para se deliciar”. –
Para você o que é o termo Esoterismo ... ?: -“Me
abstenho dessa, por estar voltado para outra área”.
– Acredita na reencarnação ... ?: -“Não. Só na
transformação em elementos químicos, após a morte”.
– Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo”
... ?: -“As únicas coisas que acredito, são os
fantasmas internos, que nos atacam nos pesadelos,
oriundos de uma estrutura psíquica, mas estes não
são sobrenaturais”. – O Imaginário será um sonho da
realidade ... ?: -“Uma metáfora / metonímica de
nossas histórias inconscientes”. – Acredita em
histórias fantásticas ... ?: -“Só as promovidas pelo
inconsciente”. – Mudando de assunto:- Que livro anda
você a ler ...?: - “Leio vários ao mesmo tempo.
Terminei “Polígono das Secas” e “Contra o Brasil” de
Diogo Mainardi e de reler “1984” de George Orwell.
Agora estou lendo “Minha Idéia de Diversão” de Will
Self, “Hollywood” de Charles Bukowski e “Dentes
Caídos”, da série Livros do Mal. Pretendo começar
“Tudo é Linguagem”, da Dolto”. – Diga-nos o nome de
autores e livros preferidos ... ?: - “O meu grande
inspirador e ídolo maior sempre foi o Luiz Fernando
Veríssimo. Gosto da subtileza de suas crônicas. Meu
livro preferido é “Uma temporada com Lacan”, de
Pierre Rey. Gosto de escritores como Rubem Fonseca,
Dalton Trevisam, apesar de achar este último um
pouco repetitivo”. – Música e autores preferidos ...
?: -“Cresci escutando Chico Buarque de Holanda.
Depois, na adolescência, entrei no rock. Gosto de
Black Sabbath e Led Zepellin, além de Titãs,
Supertramp, Rush e Rollig Stones. E hoje, não
dispenso um Edson Cordeiro, Shakira e, de volta às
origens, um bom Chico Buarque. Atualmente a minha
banda preferida é Pelebrói Não Sei, e gosto também
de coisas fora do comercial, como Mulheres Negras e
Tangos & Tragédias”. – O filme comercial que mais
gostou ... ?: -“O Poderoso Chefão l” é, na minha
opinião, o melhor filme já feito. “Laranja Mecânica”
também faz parte do meu acervo”. – Para terminar,
vamos falar da sua obra literária ... ?: -“O meu
primeiro livro ‘TENSÃO’, que é uma coletânea de
contos, foi lançado neste mês e, inclusive, tem uma
versão resumida dele já à disposição na Biblioteca
Virtual. Além deste, tenho um romance em fase de
revisão, chamado ‘Cúmplice de um Passado’ onde narra
a trajetória de uma rapaz – Sidney – que comete um
homicídio e é internado em um hospital psiquiátrico.
A história fala de sua análise e narra suas
lembranças de infância, até que ele descobre o que o
levou a matar um inocente”.
E assim falámos de: JOÃO de OLIVEIRA JUNIOR
www.scampos.com.br/junior
Nasceu a 16 de Janeiro de 1966. É industrial no ramo
madeireiro, escritor por hobby e tem uma coluna
semanal no jornal “Correio Regional”.
Minha filha querida
“A saudade é o revés de um parto
É o arrumar o quarto
Do filho que já morreu”
(Chico Buarque de Holanda)
Priscila, adolescente de rosto angelical, olhos
claros e sorriso lindo, cabelos longos e macios, é
filha única de Letícia, mãe superprotetora.
Quando criança usava vestidos lindos, escolhidos com
carinho. As meias de renda nas bordas sempre
combinavam com os sapatinhos de boneca. Também
combinavam o top no cabelo e os brincos de florzinha.
Os melhores brinquedos, as mais lindas bonecas.
O aparelho nos dentes moldou durante anos o sorriso
perfeito.
O melhor cursinho aprimorou o inglês e o francês
quase sem sotaque.
As melhores escolas premiaram de saber Priscila.
Os melhores médicos e nutricionistas lhe deram saúde.
A universidade, desde a infância já escolhida pela
mãe.
Única neta, o patrimônio mais valioso dos avós.
Das tias, orgulho. Das vizinhas, inveja.
Tudo a mãe dava e tudo a mãe fazia para que Priscila
não tivesse faltas, porém, Priscila não podia sair
de casa, não podia sair da linha e, quando saía, a
atenção era redobrada.
À noite, cama cedo.
Da escola, direto para casa.
O motorista proibido, não fazia voltas.
Os únicos momentos que lhe permitiam um pouco de
liberdade aconteciam aos sábados à tarde, passados
no shopping: lá podia rir, comer Big Mac com fritas
sem se preocupar com a gordura saturada, ir ao
cinema e até paquerar os rapazes.
Mas paquerar somente, e escondida, porque namorar,
só no futuro e com os meninos ricos e previamente
aprovados pela mãe. O enxoval, inclusive, já estava
pronto para o casamento do ano, que irá acontecer
dali a alguns anos, não se sabe quando.
Letícia sonha com a filha, linda de noiva, entrando
de branco na igreja para casar com o herdeiro de
alguma fortuna. Tudo planejado, tudo esquematizado.
Virgindade? Não se toca neste assunto. Somente o
noivo, na lua-de-mel em Bahamas.
Por isso Priscila pode só paquerar os rapazes do
shopping.
Priscila não é feliz.
Priscila tem tudo, menos liberdade.
Priscila trocaria tudo, por liberdade.
E Priscila carrega fundas olheiras escuras que
delatam esta infelicidade. Letícia odeia as olheiras
da filha, que quebram a magia angelical do seu rosto.
Já fez de tudo: consultou médicos, dermatologistas,
menos psicólogos, reservados aos desestruturados,
mas nada consegue apagar as manchas roxas debaixo
dos olhos que estragam as fotos.
Priscila sonha em morrer. “Ande direito”, “faça isto”,
“não faça aquilo”, “seja assim”, “seja assado”. A
pressão é constante e a sua úlcera reclama.
Perante os outros, Letícia e Priscila são modelos do
relacionamento mãe e filha. O amor se esparrama de
tanto.
Longe dos olhares admirados, Letícia cuida do seu
patrimônio com afinco: está sempre pronta para
apontar os deslizes de Priscila, os quais, para sua
infelicidade, são muitos, ainda.
Definitivamente, Priscila sonha mesmo em morrer.
Final de semana, festa no condomínio.
Priscila está contente.
Com as amigas, mil planos. Até o Jairzinho, paquera
secreto, vai.
Priscila está saltitante a semana inteira. Até as
olheiras diminuíram.
Às seis da tarde, as amigas se trancam no quarto de
Priscila e riem gostoso o riso da adolescência.
Combinam a roupa para a festa e até sonham com um
possível primeiro beijo. Tudo combinado, tudo
arranjado.
Porém, no dia da festa, Letícia fica preocupada:
“será que pode acontecer algo com Priscila?”. Cuidou
demais e por muito tempo da filha para deixá-la sair
assim, com desconhecidos. “Eles não são
desconhecidos, mamãe, são meus colegas do colégio e
daqui, do condomínio”. Mas Priscila não sabe que
qualquer um que não seja herdeiro, de patrimônio e
de nome, são desconhecidos para Letícia.
Priscila ainda é a sua filhinha linda, desprotegida,
e não uma adolescente com seios formados.
“Priscila, você não vai sair”, sentencia Letícia.
“Não?”.
“Não. Nem hoje, nem nunca. Festas? Só no clube, só
acompanhada”.
Para espanto de Letícia, pela primeira vez na vida a
filha educada grita. Há tempos que Priscila quer
gritar, mas nunca pôde, afinal, filha perfeita não
grita.
A somatória de nãos tem o seu estopim estourado com
a proibição da festa.
E Priscila, indignada, como se algo lhe fosse
roubado, grita. E como grita.
Firme em sua posição, Letícia pega a filha pelo
braço e a empurra para o quarto, trancando a porta
pelo lado de fora.
Priscila alimentava a ilusão de que, indo a estas
festas, finalmente poderia iniciar a sua vida de
adolescente longe das garras da mãe superprotetora,
que a sufocavam. Sabia que em casa estaria sempre a
mercê de Letícia, mas, nos seus devaneios, enquanto
sofresse a pressão dela, poderia se refugiar nestas
festas imaginárias, nome dado ao lugar intocável e
inacessível à mãe, reservado secretamente em seus
pensamentos. Isto, finalmente, seria algo só dela, o
seu porto seguro.
Mas Priscila não pode ir à festa. Está trancada no
quarto.
Priscila grita e Letícia, firme no propósito de
proteger o seu tesouro, aumenta o som da novela.
Cansada de bater na porta, Priscila despenca sentada
no chão enquanto soluça o seu corpo debilitado. A
força lhe falta até para enxugar as lágrimas que
correm livres pela sua face.
Pigarreia o sofrimento de viver.
Os minutos passam e Priscila aceita a sentença. A
ilusão da liberdade despedaçada. O porto seguro
inundado.
Com o corpo mole, se levanta. Vagarosamente vai até
a penteadeira e coloca “Donde están los ladrones” no
aparelho de cd. Abre a pasta escolar e retira o
estilete, usado para auxiliar nos trabalhos nota dez
das aulas de desenho artístico.
Anestesiada pela própria melancolia, não sente dor
quando a lâmina do estilete cava profundo as sua
veias do pulso.
Seu ultimo pensamento é o remorso pela grande mancha
de sangue que colore a colcha limpa da sua cama.
Priscila morre, mas não sem esboçar um leve sorriso
na face. Enfim, livre.
Faz seis meses que Priscila se foi.
Letícia parou de se culpar pela morte da filha.
De manhã, Letícia entra no quarto da filha. Está
limpo, intocado por mãos estranhas. A cama arrumada,
os travesseiros simetricamente posicionados. A
penteadeira perfeita e o chão brilhando. Retira do
armário um vestido cuidadosamente escolhido e o
coloca sobre a cama.
Acaricia o vestido e sorri para a filha que alucina
estar ali, de pé ao seu lado.
À tarde, no Jardim das Saudades, conversa com a
filha por mais de meia hora, sentada junto ao seu
túmulo. Riem muito e Letícia deixa Priscila a par
dos últimos acontecimentos. Para surpresa da filha,
trouxe outro presente: uma boneca linda da Estrela,
último lançamento.
Ontem havia trazido um livro do Paulo Coelho que a
filha tanto adora.
Perto das seis horas, antes do anoitecer, entra
novamente no quarto da filha. Guarda o vestido no
cabide e o cabide no armário. Abre a gaveta da
cômoda, retira o pijama cor-de-rosa e o deita na
cama.
Apaga a luz do quarto e, antes de fechar a porta,
olha para a filha que lhe sorri feliz. “Boa noite,
minha filha querida. Até amanhã”.