Mais uma vez aterrei no Aeroporto de
Salvador BA (Deputado Luís Eduardo Magalhães):
“Filho do ex-governador da Bahia, e ex-senador pelo
Estado, António Carlos Magalhães, era considerado o provável
sucessor de seu pai no meio político. Figura poderosa nos
bastidores da política e com grandes aspirações, era tido
como um sério candidato a passos maiores no jogo político,
sendo então até mesmo cogitado para se candidatar a
presidência do Brasil. Era muito próximo do ex-presidente da
República Fernando Henrique Cardoso. Foi deputado estadual
de 1983 a 1987 e deputado federal de 1987 até sua morte,
sendo presidente da Câmara de 1995 a 1997. Estava em
pré-campanha ao governo de Bahia pelo PFL em 1998. Morreu em
21 de abril de 1998, vítima de ataque cardíaco”.
Como habitualmente e durante a viagem, dei “uma vista de
olhos” por uns apontamentos sobre a belíssima e histórica
cidade de Salvador: “A cidade de Salvador, capital do Estado
da Bahia, fica a cerca de 1.500 300 Km de Brasília e possui
porto e belas praias. Grande centro comercial, industrial e
cultural, tem no turismo e na exportação de petróleo as suas
principais atividades económicas. Possui universidades e
escolas de ensino superior. Fundada em 1549, é a cidade mais
antiga do Brasil e foi a sua primeira capital até 1763. A
sua diocese é também a mais antiga do Brasil, remonta a
1551”.
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PELOURINHO - SALVADOR - BAHIA - BRASIL |
João Bosco: Oi Carlos! Bem vindo a Salvador! – Não
conhecia pessoalmente o Dr. João Bosco, mas logo calculei
que era aquele cidadão que me interpelava.
Carlos: Olá Dr. Bosco! Para mim, é sempre um prazer visitar
Salvador.
Bosco: Está de acordo começarmos a entrevista na Igreja de
São Francisco. Não sei se conhece?
Carlos: Conheço a Igreja e o Convento, assim como sua
história. “ O convento foi fundado em 1585 pelo frei
franciscano Melchior de Santa Catarina, Custódio de Olinda,
em Pernambuco, após receber autorização do papa Sisto V. No
local já havia uma pequena capela e algumas habitações
provisórias. No mesmo ano, a convite do bispo Dom Antônio
Barreiros, o Custódio enviou dois irmãos para a Bahia, os
freis António da Ilha e Francisco de São Boaventura, com a
responsabilidade de providenciar a instalação do convento e
dar início às obras, que só começaram de fato em 1587 Em
1675 foi decidida uma reconstrução, sob a administração do
Provincial frei Vicente das Chagas, que autorizou o frei
Daniel de São Francisco a angariar donativos para as obras.
Como a congregação havia crescido, os novos edifícios foram
projetados em uma escala mais ampla. As obras tiveram início
oficial em 20 de dezembro de 1686, quando lançou-se a pedra
fundamental. O claustro foi construído primeiro, com projeto
de Francisco Pinheiro. Em 1701 foi dada autorização para que
a Ordem Terceira construísse sua própria igreja, cemitério e
outras dependências. A partir de 1705 foram colocados
revestimentos no claustro e erguido o altar da enfermaria, e
entre 1710-1710 foram concluídos os muros e lançados os
pilares. Sua decoração de azulejos pintados foi realizada
entre 1749 e 1752. Entrementes outras partes do conjunto
foram sendo edificadas. Em 1708 foi iniciada a capela-mor da
igreja. Como o terreno apresentava um forte declive nos
fundos, foi preciso aterrá-lo e lançar fundos alicerces. As
obras foram supervisionadas por Manoel Quaresma, sucedido a
partir de 1710 por frei Hilário da Visitação. Não se sabe ao
certo quem foi seu arquiteto, talvez tenha sido o mesmo
Francisco Pinheiro. Contudo, o projeto teve de ser
modificado, prescindindo do galilé, já que o síndico do
convento, Francisco Oliveira Porto, iniciara a construção de
umas casas junto de onde ela deveria ficar. A capela-mor, o
arco do cruzeiro e as paredes até onde ficariam os púlpitos
estavam prontos em 1713, já podendo abrigar o culto, sendo
consagrado este trecho em 3 de outubro. O restante do corpo
da igreja, incluindo a fachada em arenito, foi terminado em
1720, data gravada no frontispício. No mesmo ano foi
instalado o cadeiral do coro, reaproveitado da edificação
anterior, e em seguida iniciaram as obras de decoração
interna. Em 1729 o frei Álvaro da Conceição providenciou à
conclusão dos pilares do claustro, e a partir de 1733
iniciaram as pinturas do teto da igreja, obra do frei
Jerónimo da Graça. Em 1737 foram colocados azulejos na
capela-mor, no ano seguinte começou o arremate dos pilares
do claustro, o douramento do capela-mor e altares laterais
da igreja, e a execução do retábulo de São Luís ao lado do
arco do cruzeiro. Em 1741 o frei Manoel do Nascimento
iniciou o revestimento do piso e foi encomendado um grande
retábulo de Nossa Senhora da Glória, instalado também ao
lado do cruzeiro. Entre 1749 e 1752 foram finalizadas as
obras do claustro, incluindo a biblioteca, e a partir de
1752 foram sendo terminadas a portaria e seu altar. Em 1782
foram colocados azulejos na portaria. As torres foram
concluídas entre 1796 e 1797, instalando-se os sinos e o
relógio, mas o revestimento de pedras azuis e brancas nos
coruchéus teve de esperar ainda cerca de um século para ser
instalado”.
Durante o breve percurso, comecei a fazer-lhe perguntas:
Carlos: O Dr. Bosco vive há muito tempo em Salvador?
João
Bosco: Estou pausando um pouco mais
em Salvador – sou um inveterado viajor-voador, de corpo e de
imaginário - por seu clima, seu sol, sua alegria, sua
brejeirice, sua sensualidade, sua cultura, sua
efervescência, suas praias e por ser uma fonte-berço de
inspiração e criatividade, em eterna renovação.
Seus monumentos são fortes, inspiradores, mas nostálgicos
e mal conservados. Museus há muitos e bons. É uma das
sólidas riquezas da Bahia soteropolitana. As praças, que são
poucas, estão morrendo; as que resistem e insistem pela
força da tradição, crescem em encantamentos a cada dia, por
suas efervescências revigoradas e regeneradoras: Dois de
Julho (Campo Grande) e Dois de Julho, no Largo Dois de
Julho, onde morei nos tempos em que estudei em Salvador,
fervilham de gente, de acontecimentos, como a Feira
Literária Mensal, e por manifestações de Movimentos
históricos como o da revalorização do DOIS DE JULHO, data da
verdadeira Independência do Brasil. Há muitos pequenos
jardins, espalhados pelos vales soteropolitanos,
demasiadamente pequenos e fortemente decadentes, pelo
crescente vício de depredação do brasileiro comum, que só
sabe conservar o que pode ser fechado em museu. A História
baiana é a mais rica, mais ampla, mais variada, mais
faustosa e mais surpreendente e, por estas razões, continua
a ser a mais encantadora, mágica e tocante.
Carlos: Como se autodefine?
João
Bosco: Como um homem feliz, em
contínua realização, vivendo mais do imaginário e de sonhos
entre sonhos, de modo ansioso.
Entretanto, chegámos à Igreja de São Francisco e durante a
visita, a entrevista continuou:
Carlos: Qual a sua melhor qualidade?
João
Bosco: Ser leal e honesto.
Carlos: E seu maior defeito?
João
Bosco: Ser intolerante com as
desonestidades de ações, omissões e comportamentos.
Carlos: Seus passatempos preferidos?
João
Bosco: Escrever, escrever, ler, ler,
cantar, dançar, ver filmes, ouvir música da clássica à
regional, ir à Igreja Católica, visitar parentes e amigos,
viajar, ver o novo e rever o velho agradável e belo, ouvir,
conversar, participar dos vários grupos culturais de que
faço parte (Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, União
Brasileira de Trovadores, Grupo de Ação Cultural da Bahia,
Fala o Escritor, Feiras Literárias, etc.) e publicar, reler
e revisar meus livros, artigos, poesias e trovas.
Carlos: Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje?
João
Bosco: O de recomeçar a vida todas
as manhãs.
Carlos: De que mais se orgulha?
João
Bosco: Das minhas responsáveis e
honestas vitórias pessoais, das vitórias dos meus
familiares, parentes, amigos, membros dos grupos de que faço
parte e minhas comunidades.
Carlos: Para você, qual o cúmulo da beleza?
João
Bosco: O belo de toda e qualquer
forma ou apresentação que possa ser saboreada com prazer e
como arte.
Carlos: E da fealdade?
João
Bosco: Qualquer forma ou
apresentação que se aproxime da desonestidade, da
deslealdade ou do crime.
Carlos: Que vício gostaria de não ter?
João
Bosco: Ansiedade.
Carlos: Uma imagem do passado que não quer esquecer no
futuro?
João
Bosco: Minha mãe sorrindo feliz e
plenamente numa foto feita por mim.
Carlos: Qual a personagem que mais admira?
João
Bosco: Jesus. Suas lições. Suas
falas. Sua atuação.
Carlos: O arrependimento mata?
João
Bosco: Não mata mais machuca muito e
é fortemente doloroso.
Carlos: As piadas às louras são injustas?
João
Bosco: Detesto achincalhações e toda
e qualquer forma de desrespeito, mesmo que seja por omissão.
Carlos: Que influência tem em si a queda da folha e a
chegada do frio?
João
Bosco: Dois fatos diferentes que me
influenciam de diferentes modos:
o cair da folha pode ser a poesia que eu possa ver, sentir,
criar ou vivenciar;
o frio perturba-me e desconcentra-me.
Carlos: O dia começa bem se..?
João
Bosco: Se o silêncio, o sol e o
clima conspirarem e ajudarem-me a concretizar minhas tarefas
agendadas, da melhor e da mais produtiva maneira possível,
multiplicarem e embelezarem meus sonhos nos sonhos e minhas
imaginações.
Saímos da Igreja de São Francisco e, a convite do nosso
entrevistado, íamos almoçar à Praia Vermelha, no restaurante
“Mercure Hotel", sito na rua Fonte do Boi.
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PRAIA VERMELHA - SALVADOR - BAHIA - BRASIL |
Praia Vermelha: “Em meados da década de 70, a praia do Rio
Vermelho era habitada por artistas, como Dorival Caymmi,
Caetano Veloso e João Ubaldo Ribeiro. Por isso, o lugar
recebeu o apelido de "Bairro dos Artistas". A praia tem
muitas pedras e três pequenas enseadas para banho: Santana,
Paciência e Mariquita. É nas águas tranquilas da praia de
Santana que repousam as pequenas embarcações dos pescadores.
De lá, também, parte o cortejo marítimo em homenagem à
Iemanjá, todo dia 2 de fevereiro. A praia da Paciência, na
maré alta, dá boas ondas e atrai surfistas. Já na praia da
Mariquita se encontra a foz do rio Lucaia, que também serve
como porto de pescadores”
E a entrevista continuou durante o percurso:
Carlos: Quando você era criança?
João
Bosco: Amava olhar e correr pelas
margens, molhar os pés e banhar-me no Rio São Francisco a
qualquer hora. Adorava correr contra o vento, ou ficar
parado numa esquina, com a camisa aberta e segura pelas
pontas, para sentir o vento envolvendo o meu corpo; também
costumava correr entre as milhões de borboletas que revoavam
pelas margens do rio, em certas épocas e gostava de correr
pelas poucas ruas do meu povoado, curiando o que acontecia e
o que poderia acontecer.
Carlos: Acredita em histórias fantásticas?
João
Bosco: não. Elas somente são as
multiplicações do imaginário no outro lado do espelho.
Carlos: E em histórias de fantasmas ou em “almas do outro
mundo”?
João
Bosco: não acredito nos seus
fundamentos; são apenas produtos do formidável imaginário
humano. Fantasmas são as amplas e ricas fantasias refletidas
no espelho; são berçários inspiradores e multiplicadores de
criações literárias.
Carlos: Acredita na reencarnação?
João
Bosco: Creio e muito respeito esta
fé, mas não a sigo.
Carlos: O Imaginário será um sonho da realidade?
João
Bosco: Creio seja ele o
universo-berço da essência do bom, do belo e da criatividade
humana. O imaginário é a minha inesgotável e eterna
fonte-relicário dos sonhos e das minhas criatividades reais,
metafísicas, concretas e abstratas. Não existisse esse
sacrário do imaginário, inexistiriam os sonhos, as
esperanças, a fé e a própria vida.
Carlos: O que é para você o termo Esoterismo?
João
Bosco: vejo como se fosse um
sacrário de perfeição humana, no que diz respeito ao
espírito e aos valores morais; e o como, o ver e o seguir
tudo que se constitui na essência do bom da vida de cada um
dos esotéricos.
Carlos: Que género de filme daria sua vida?
João
Bosco: uma história-biográfica com o
seguinte título: O homem que vivenciou a total, completa e
perfeita felicidade da maturidade humana.
Entretanto, chegámos à Praia Vermelha e entrámos no luxuoso
Hotel Mercure. Depois de encomendar a refeição (Moqueca de
Camarão - à Baiana), recomeçámos a entrevista:
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MERCURE HOTEL - SALVADOR -
BAHIA - BRASIL |
Carlos: Quais os filmes comerciais que mais gostou?
João
Bosco: Qualquer filme de Charles
Chaplin e de Luis Bunuel; Se minha Cama Voasse, o Mágico de
Oz, Derzu Uzala, Cidadão Kane, Gilda, Auto da Compadecida, A
Estrada da Vida, Noites de Cabíria, Mar a Dentro, Sansão e
Dalila, Curtindo a Vida Adoidado, Os Três Mosqueteiros
(qualquer versão); Zorro (qualquer versão); Para Sempre
Cinderela; Por Favor matem minha mulher; Joguem a minha mãe
do trem; O Expresso de Chicago; O Noivo da Minha Mãe; e
mais algumas dezenas.
Carlos: Música e autores preferidos?
João
Bosco: Aires Andaluzos, com o
trompetista mexicano Rafael Mendez; Beguin the Beguine,
Night and Day e Um Americano em Paris, de Coler Porter;
qualquer composição de Ernesto Lecuona e de Agustin Lara;
Beijos pela Noite, de Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carlos
Lacerda; O Mar, Saudade de Itapoã e Saudade da Bahia, de
Caymmi; Onde eu Nasci Passa um Rio, de Caetano Veloso; Outra
Vez, de Isolda; qualquer composição de Roberto Carlos,
Dolores Duran e Luiz Vieira; Tanto Mar e Bastidores, de
Chico Buarque; Luar do Sertão e Fechei o Meu Jardim, de
Catulo da Paixão Cearense; Over the Rainbow, de Harold Arlen
e EY Harburg; Foi Deus, de Janes Alberto Fialho; Coimbra,
Last Rose of Summer, As Time Goes by e Danny Boy (não sei os
autores); El Manicero, de Moisés Simons; Bolero de Ravel; No
Mercado Persa, de John Ketelby; Noturno, de Chopin; qualquer
criação de Mozart, Bach e Beethoven; qualquer composição de
Luiz Gonzaga ou cantada por Luiz Gonzaga; Chalana, de Mario
Zan/Arlindo Pinto; Tocando em Frente, de Almir Satter/Renato
Teixeira; Romaria, de Renato Teixeira; Você vai Gostar, de
Elpídio dos Santos; As Rosas não falam e O Mundo é um
Moinho, de Cartola; das vozes de Bin Crosby, Israel
Kamakawiwo’ole e Dalva de Oliveira; e mais outras dezenas de
compositores e músicas.
Carlos: A cultura será uma botija de oxigênio?
João
Bosco: Será; e pela eternidade, como
se fora um Milagre em eterna ação.
Carlos: Autores e livros preferidos?
João
Bosco: Dezenas e dezenas. Citarei:
Tudo de Fernando Pessoa, de Camões, de Cecília Meireles, de
João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drumond de Andrade e de
Clarice Linspector; Corpo Vivo de Adonias Filho, São
Bernardo, de Graciliano Ramos, Istambul, de Orhan Pamuk;
Iracema de José de Alencar; os magistrais Dom Casmurro,
Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba,
Memorial de Aires, de Machado de Assis; Amor de Perdição, de
Camilo Castelo Branco; A Cidade e as Serras, de Eça de
Queirós; e mais algumas dezenas.
Carlos: Vamos falar de sua obra Literária?
João
Bosco: Já publiquei: Cantares,
Poesias e Trovas; Por Uma Humanização da Política
Brasileira, Política e Ética; Direito e Moral no Estado
Brasileiro, em co-autoria com minha filha Herta Rani Teles
Santos, Política e Ética; Manoel dos Santos, O Delmiro
Gouveia dos Sertões dos Rodelas, Biografia e História;
Tocatas, Poesia e Prosa; e Carta à História de Rodelas,
livro em folhetos, de História, Política e Cotidiano. Tenho
em editoração: Minha Aldeia, em 2 (dois) volumes; Pequenas
Frases... Grandes Lições, Aforismos e mais outros a
concluir.
Participo dos Blogs/portais “Para Ler e Pensar”, “Café com
História” e “Cá Estamos Nós (CEN)”, Linha do Tempo, no
Facebook.
Depois do almoço, descemos ao bar onde bebemos um saboroso
Vinho do Porto “Ruby” e terminámos esta entrevista:
Carlos: Qual a característica que mais aprecia em si, e,
nos outros?
João
Bosco: Gosto do meu modo de viver a
minha vida e de respeitar a vida de todos. Nos outros, o
modo vitorioso, alegre e feliz de viver.
Carlos: Que livros anda a ler?
João
Bosco: Uma verdadeira carga:
Heráclito (e seu Discurso) de Donaldo Schuler; Platão e um
Ornitorrinco, de Thomas Cathcart & Daniel Klein; Poemas e
Fragmentos, Safo de Lesbos, tradução de Joaquim Brasil; A
Idade do Ouro, de Georges Minois; O Homem Medíocre, de José
Ingenieros; Os Grandes Iniciados, de Edouard Schuré;
Aprendendo a Viver, de Sêneca; Maturidade, de Osho; A
Crucificação e a Democracia, de Gustavo Zagrebelski; Alexis
de Tocqueville, o Profeta da Democracia; e Teogonia, de
Hesíodo, e mais outras dezenas.
Carlos: Deus existe?
João
Bosco: Sim. Vejo, sinto e imagino
DEUS-FORÇA-FÉ-ESPERANÇA em todos os instantes, detalhes,
lugares, tempos e espaços. DEUS está em mim e em todos os
humanos. Nos astros e em todos os seus mínimos e detalhados
confins.
Carlos: Para terminar esta entrevista, como vai de amores?
João
Bosco: Sou tinhosamente fiel à minha
esposa, há 33 anos. Gosto de cultivar amizades, de
conquistar novas amizades e de ser fiel e prestativo aos
amigos, nos momentos oportunos. Amo o meu viver e como vivo;
amo minha esposa, minhas filhas, minhas irmãs, meus
parentes, meus amigos, meus colegas. Amo o que faço, o que
canto, o que leio, o que como e o meu vinho do Porto Ruby.
Amo meus livros, meus filmes, meus CDs, meus chocolates.
E assim, falámos de:
João Bosco Soares dos Santos
Nascido a 6 de Outubro de 1937
Presentemente, Escritor, Poeta e Trovador
CHEIROSAS MANHÃS DE JULHO
O abrir-se das brancas velas aos ventos vespertinos do mês
de Julho, lá pelo lado do nascente, na mesma direção da ilha
do Tucum - meu pai era proprietário de cerca de dois terços
dela - entre às 15 e 16 horas, era o certeiro sinal da
abertura da minha temporada anual de felicidade, quando
criança.
Quase sempre começava no início da segunda semana de
julho.
Logo depois do almoço, quando o sol fazia uma tira de sombra
superior a 40 centímetros, no lado de fora do portão do muro
de minha casa, que se comunicava com o rio – minha casa era
bem grande e, devido a sua localização privilegiada, tinha,
quatro entradas: duas para a rua principal, um portão
lateral e um outro no fundo, quase sempre abertos, além de
várias janelas em três de seus lados.
O portão do fundo abria para o rio São Francisco, que,
para ser visto, nem necessitava que se abrisse o portão
porque a casa era bem alta e, do grande alpendre todo aberto
para o lado do rio, víamos o rio, o serrote, algumas ilhas e
todo o movimento de saída e chegada de barcos e canoas. O
outro portão, mais artístico e luxuoso, à esquerda do
alpendre, abria para a rua principal e permitia-nos ver todo
o movimento da longa rua principal, que na verdade era uma
avenida que se perdia pela vista, até a emendar-se com a Rua
Felipe Camarão, ou “Rua dos Caboclos” e daí, e seguia em
frente, em um ligeiro aclível, prolongamento este que se ia
estreitando até o Cruzeiro, o magistral e portentoso
cruzeiro, pintando de rosa e azul, bem claros – não se tem
uma única foto daquele monumento à Fé Católica - construído
com amor, respeito, e com a humildade própria dos que nunca
perdem a esperança, e pelas mãos e ações do lendário Antonio
Maciel, o mesmo Conselheiro de Canudos, registrando a sua
missionária passagem, por estes sertões. Ainda bem que na
sede Municipal de do vizinho Município de Chorrochó, há um
Cruzeiro igual ao que existiu em Rodelas.
O portão do fundo da casa que se abria para o rio era bem
simples. E ali, onde eu costumeiramente me sentava sobre o
batente de caraíba, da porta, ficava a sorver com os olhos,
em devaneios de poesias e de fantasias, aquele quadro
artístico pincelado pela natureza, que, com a sua sertaneja
simplicidade, traçara rio, ilhas verdes, serrote, pássaros,
nuvens, céu e canoas, em seu retorno das jornadas, com
produtos agrícolas ou com peixes, para o deleite vespertino
das gaivotas, num findante dia de sol.
Mas, sempre com o meu olhar e meu pensamento livres, de
quando em quando, concentrava visão e imaginação nas velas
brancas, que, mais cedo ou mais tarde, deveriam abrir-se às
lufadas, para juntas trazerem os paquetes carregados de
cana, já cortada em pedaços mais ou menos iguais a um metro,
destinada a ser transformada em garapa, mel e rapadura nos
dias seguintes, no engenho movido a vapor, pertencente a meu
pai.
Quando os paquetes aportavam , eu corria até lá para vigiar
os pedaços de cana, que iam sendo descarregados dos barcos
pelos trabalhadores e arrumados sobre as pedras da beira do
rio. Eu para lá ia, procurando evitar que vacas, bois,
jumentos, burros, cabras, ovelhas e porcos, todos mansos,
comessem ou estragassem os pedaços de cana; também as
protegia dos meninos que costumavam pegar pedaços de cana e
saírem correndo para deliciarem-se a chupá-los, a alguma
distância dali. E ali eu permanecia cuidadoso e contente até
que Cícero de Otália, com sua exemplar e educada paciência,
transportasse todos aqueles pedaços de cana para os
depósitos, em seus jumentos, cada um com sua cangalha de
quatro cambitos.
E aquelas minhas primeiras noites eram as mais longas,
porque eu pouco ou quase nada dormia, a pensar no meu
despertar na manhã seguinte, sendo acordado pelos cheiros de
garapa, mel e rapadura, que se espalhavam por todas as ruas,
sempre precedidos pelo apito da caldeira e pela fumaça.
Era o meu tempo-criança mais feliz. Era período de férias
escolares e eu passava a manhã inteira perto da gamela de
rapadura, batida por Antonio de Galdino, que sempre era
muito atencioso comigo: chamava a minha atenção para não me
aproximar muito da gamela e jamais me negava porções de
rapadura ainda mole, que era colocada entre as dobras de uma
palha de cana, ainda um pouco úmida, imediatamente depois
que dela era retirada a garapa pelas três moendas de ferro
prensadoras dos pedaços de cana.
No meu intranquilo e perturbado dormir dos dias iniciais de
julho, o mais doce primeiro sinal era o apito da caldeira,
dando início o moer dos pedaços de cana, deles retirando o
caldo, a que chamávamos de garapa. Eu, mentalmente, contava
o tempo suficiente para que a garapa começasse a ser fervida
nos nove tachos dispostos em sequencia por sobre a cumprida
fornalha: o primeiro deles era o maior e o que custava mais
a ferver; era vigiado e comandado por meu compadre Manoel
Chicó, e dele saia a melhor e a mais suculenta tiborna, que
se destinava a engordar porco e, por isso era bastante
disputada. Como meu pai não engordava porco, deixava que
cada um levasse o que pudesse e quisesse; era uma de suas
maneiras de ajudar aos mais necessitados da nossa terra.
Os tachos do meio eram cuidados por Guilerme de Galdino;
o último era comandado ora por Nezinho ora por seu irmão
Juca de João Freire, a quem competia temperar com pedaços de
sebo de gado vacum e dosar o mel, na exata medida de
despejá-lo na grande gamela de madeira, onde o mel já
grosso,era batido e transformado em rapaduras, quando
depositado nas retangulares aberturas das fôrmas de
facheiro, confeccionadas por Antonio Eloi, um excelente
marceneiro, que também era um dos vaqueiros de caprinos de
meu pai, residente e cuidador do sitio do Jacaré, de
propriedade de meu pai, mas que até nós, os filhos de MANOEL
DOS SANTOS e donos dele, chamávamos a ele de Sítio de
Antonio Eloi. Esse razoável sítio foi mais tarde obrigado a
ser vendido por uma bagatela de moedas, por razões que não
são necessários comentar.
O segundo sinal, era o cheiro inebriante da garapa
fervida a transformar-se em mel, em cada tacho, à medida que
a garapa, engrossando-se em mel, já cheirava a rapadura
quente e mole.
O terceiro sinal já era o meu primeiro momento: corria
direto para a gamela de rapadura cheirosa e ali tomava o meu
primeiro café do dia: minha porção de rapadura mole, quente
e cheirosa.
E era então, que, em todas as manhãs dos dias úteis de
julho, toda a vila de Rodelas se entregava embriagada ao
doce, gostoso e cheiroso império da rapadura mole e quente,
espalhando-se como nuvens, às vontades dos ventos, pelos
quatro cantos da então vila de Rodelas.
Que bons e deliciosos momentos vividos e agora só
imaginados, carregados daquele saboroso e arrasador cheiro
de rapadura mole e ainda quentinha, no momento querido.