Portal CEN - "Cá Estamos Nós"

 

 

 

Entrevistado: João Bosco Soares

dos Santos

 

 

 

Por: Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

Mais uma vez aterrei no Aeroporto de Salvador BA (Deputado Luís Eduardo Magalhães):

 

 

“Filho do ex-governador da Bahia, e ex-senador pelo Estado, António Carlos Magalhães, era considerado o provável sucessor de seu pai no meio político. Figura poderosa nos bastidores da política e com grandes aspirações, era tido como um sério candidato a passos maiores no jogo político, sendo então até mesmo cogitado para se candidatar a presidência do Brasil. Era muito próximo do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Foi deputado estadual de 1983 a 1987 e deputado federal de 1987 até sua morte, sendo presidente da Câmara de 1995 a 1997. Estava em pré-campanha ao governo de Bahia pelo PFL em 1998. Morreu em 21 de abril de 1998, vítima de ataque cardíaco”.

Como habitualmente e durante a viagem, dei “uma vista de olhos” por uns apontamentos sobre a belíssima e histórica cidade de Salvador: “A cidade de Salvador, capital do Estado da Bahia, fica a cerca de 1.500 300 Km de Brasília e possui porto e belas praias. Grande centro comercial, industrial e cultural, tem no turismo e na exportação de petróleo as suas principais atividades económicas. Possui universidades e escolas de ensino superior. Fundada em 1549, é a cidade mais antiga do Brasil e foi a sua primeira capital até 1763. A sua diocese é também a mais antiga do Brasil, remonta a 1551”.

 

PELOURINHO - SALVADOR - BAHIA - BRASIL

 

João Bosco: Oi Carlos! Bem vindo a Salvador! – Não conhecia pessoalmente o Dr. João Bosco, mas logo calculei que era aquele cidadão que me interpelava.
Carlos: Olá Dr. Bosco! Para mim, é sempre um prazer visitar Salvador.
Bosco: Está de acordo começarmos a entrevista na Igreja de São Francisco. Não sei se conhece?

Carlos: Conheço a Igreja e o Convento, assim como sua história. “ O convento foi fundado em 1585 pelo frei franciscano Melchior de Santa Catarina, Custódio de Olinda, em Pernambuco, após receber autorização do papa Sisto V. No local já havia uma pequena capela e algumas habitações provisórias. No mesmo ano, a convite do bispo Dom Antônio Barreiros, o Custódio enviou dois irmãos para a Bahia, os freis António da Ilha e Francisco de São Boaventura, com a responsabilidade de providenciar a instalação do convento e dar início às obras, que só começaram de fato em 1587 Em 1675 foi decidida uma reconstrução, sob a administração do Provincial frei Vicente das Chagas, que autorizou o frei Daniel de São Francisco a angariar donativos para as obras. Como a congregação havia crescido, os novos edifícios foram projetados em uma escala mais ampla. As obras tiveram início oficial em 20 de dezembro de 1686, quando lançou-se a pedra fundamental. O claustro foi construído primeiro, com projeto de Francisco Pinheiro. Em 1701 foi dada autorização para que a Ordem Terceira construísse sua própria igreja, cemitério e outras dependências. A partir de 1705 foram colocados revestimentos no claustro e erguido o altar da enfermaria, e entre 1710-1710 foram concluídos os muros e lançados os pilares. Sua decoração de azulejos pintados foi realizada entre 1749 e 1752. Entrementes outras partes do conjunto foram sendo edificadas. Em 1708 foi iniciada a capela-mor da igreja. Como o terreno apresentava um forte declive nos fundos, foi preciso aterrá-lo e lançar fundos alicerces. As obras foram supervisionadas por Manoel Quaresma, sucedido a partir de 1710 por frei Hilário da Visitação. Não se sabe ao certo quem foi seu arquiteto, talvez tenha sido o mesmo Francisco Pinheiro. Contudo, o projeto teve de ser modificado, prescindindo do galilé, já que o síndico do convento, Francisco Oliveira Porto, iniciara a construção de umas casas junto de onde ela deveria ficar. A capela-mor, o arco do cruzeiro e as paredes até onde ficariam os púlpitos estavam prontos em 1713, já podendo abrigar o culto, sendo consagrado este trecho em 3 de outubro. O restante do corpo da igreja, incluindo a fachada em arenito, foi terminado em 1720, data gravada no frontispício. No mesmo ano foi instalado o cadeiral do coro, reaproveitado da edificação anterior, e em seguida iniciaram as obras de decoração interna. Em 1729 o frei Álvaro da Conceição providenciou à conclusão dos pilares do claustro, e a partir de 1733 iniciaram as pinturas do teto da igreja, obra do frei Jerónimo da Graça. Em 1737 foram colocados azulejos na capela-mor, no ano seguinte começou o arremate dos pilares do claustro, o douramento do capela-mor e altares laterais da igreja, e a execução do retábulo de São Luís ao lado do arco do cruzeiro. Em 1741 o frei Manoel do Nascimento iniciou o revestimento do piso e foi encomendado um grande retábulo de Nossa Senhora da Glória, instalado também ao lado do cruzeiro. Entre 1749 e 1752 foram finalizadas as obras do claustro, incluindo a biblioteca, e a partir de 1752 foram sendo terminadas a portaria e seu altar. Em 1782 foram colocados azulejos na portaria. As torres foram concluídas entre 1796 e 1797, instalando-se os sinos e o relógio, mas o revestimento de pedras azuis e brancas nos coruchéus teve de esperar ainda cerca de um século para ser instalado”.
Durante o breve percurso, comecei a fazer-lhe perguntas:

Carlos: O Dr. Bosco vive há muito tempo em Salvador?
João Bosco: Estou pausando um pouco mais em Salvador – sou um inveterado viajor-voador, de corpo e de imaginário - por seu clima, seu sol, sua alegria, sua brejeirice, sua sensualidade, sua cultura, sua efervescência, suas praias e por ser uma fonte-berço de inspiração e criatividade, em eterna renovação.

Seus monumentos são fortes, inspiradores, mas nostálgicos e mal conservados. Museus há muitos e bons. É uma das sólidas riquezas da Bahia soteropolitana. As praças, que são poucas, estão morrendo; as que resistem e insistem pela força da tradição, crescem em encantamentos a cada dia, por suas efervescências revigoradas e regeneradoras: Dois de Julho (Campo Grande) e Dois de Julho, no Largo Dois de Julho, onde morei nos tempos em que estudei em Salvador, fervilham de gente, de acontecimentos, como a Feira Literária Mensal, e por manifestações de Movimentos históricos como o da revalorização do DOIS DE JULHO, data da verdadeira Independência do Brasil. Há muitos pequenos jardins, espalhados pelos vales soteropolitanos, demasiadamente pequenos e fortemente decadentes, pelo crescente vício de depredação do brasileiro comum, que só sabe conservar o que pode ser fechado em museu. A História baiana é a mais rica, mais ampla, mais variada, mais faustosa e mais surpreendente e, por estas razões, continua a ser a mais encantadora, mágica e tocante.

Carlos: Como se autodefine?
João Bosco: Como um homem feliz, em contínua realização, vivendo mais do imaginário e de sonhos entre sonhos, de modo ansioso.

Entretanto, chegámos à Igreja de São Francisco e durante a visita, a entrevista continuou:

 


Carlos: Qual a sua melhor qualidade?
João Bosco: Ser leal e honesto.

Carlos: E seu maior defeito?
João  Bosco: Ser intolerante com as desonestidades de ações, omissões e comportamentos.

Carlos: Seus passatempos preferidos?
João Bosco: Escrever, escrever, ler, ler, cantar, dançar, ver filmes, ouvir música da clássica à regional, ir à Igreja Católica, visitar parentes e amigos, viajar, ver o novo e  rever o velho agradável e belo, ouvir, conversar, participar dos vários grupos culturais de que faço parte (Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, União Brasileira de Trovadores, Grupo de Ação Cultural da Bahia, Fala o Escritor, Feiras Literárias, etc.) e publicar, reler e revisar meus livros, artigos, poesias e trovas.

Carlos: Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje?
João Bosco: O de recomeçar a vida todas as manhãs.

Carlos: De que mais se orgulha?
João Bosco: Das minhas responsáveis e honestas vitórias pessoais, das vitórias dos meus familiares, parentes, amigos, membros dos grupos de que faço parte e minhas comunidades.

Carlos: Para você, qual o cúmulo da beleza?
João Bosco: O belo de toda e qualquer forma ou apresentação que possa ser saboreada com prazer e como arte.

Carlos: E da fealdade?
João Bosco: Qualquer forma ou apresentação que se aproxime da desonestidade, da deslealdade ou do crime.
 
Carlos: Que vício gostaria de não ter?
João Bosco: Ansiedade.

Carlos: Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?
João Bosco: Minha mãe sorrindo feliz e plenamente numa foto feita por mim.

Carlos: Qual a personagem que mais admira?
João Bosco: Jesus. Suas lições. Suas falas. Sua atuação.

Carlos: O arrependimento mata?
João Bosco: Não mata mais machuca muito e é fortemente doloroso.

Carlos: As piadas às louras são injustas?
João Bosco: Detesto achincalhações e toda e qualquer forma de desrespeito, mesmo que seja por omissão.

Carlos: Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?
João Bosco: Dois fatos diferentes que me influenciam de diferentes modos:
o cair da folha pode ser a poesia que eu possa ver, sentir, criar ou vivenciar;
o frio perturba-me e desconcentra-me.

Carlos: O dia começa bem se..?
João Bosco: Se o silêncio, o sol e o clima conspirarem e ajudarem-me a concretizar minhas tarefas agendadas, da melhor e da mais produtiva maneira possível, multiplicarem e embelezarem meus sonhos nos sonhos e minhas imaginações.

Saímos da Igreja de São Francisco e, a convite do nosso entrevistado, íamos almoçar à Praia Vermelha, no restaurante “Mercure Hotel",  sito na rua Fonte do Boi.

 

PRAIA VERMELHA - SALVADOR - BAHIA - BRASIL


Praia Vermelha: “Em meados da década de 70, a praia do Rio Vermelho era habitada por artistas, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e João Ubaldo Ribeiro. Por isso, o lugar recebeu o apelido de "Bairro dos Artistas". A praia tem muitas pedras e três pequenas enseadas para banho: Santana, Paciência e Mariquita.  É nas águas tranquilas da praia de Santana que repousam as pequenas embarcações dos pescadores. De lá, também, parte o cortejo marítimo em homenagem à Iemanjá, todo dia 2 de fevereiro. A praia da Paciência, na maré alta, dá boas ondas e atrai surfistas. Já na praia da Mariquita se encontra a foz do rio Lucaia, que também serve como porto de pescadores”
E a entrevista continuou durante o percurso:

Carlos: Quando você era criança?
João Bosco: Amava olhar e correr pelas margens, molhar os pés e banhar-me no Rio São Francisco a qualquer hora. Adorava correr contra o vento, ou ficar parado numa esquina, com a camisa aberta e segura pelas pontas, para sentir o vento envolvendo o meu corpo; também costumava correr entre as milhões de borboletas que revoavam pelas margens do rio, em certas épocas e gostava de correr pelas poucas ruas do meu povoado, curiando o que acontecia e o que poderia acontecer.

Carlos: Acredita em histórias fantásticas?
João Bosco: não. Elas somente são as multiplicações do imaginário no outro lado do espelho.

Carlos: E em histórias de fantasmas ou em “almas do outro mundo”?
João Bosco:  não acredito nos seus fundamentos; são apenas produtos do formidável imaginário humano. Fantasmas são as amplas e ricas fantasias refletidas no espelho; são berçários inspiradores e multiplicadores de criações literárias.

Carlos: Acredita na reencarnação?
João Bosco: Creio e muito respeito esta fé, mas não a sigo.

Carlos: O Imaginário será um sonho da realidade?
João Bosco: Creio seja ele o universo-berço da essência do bom, do belo e da criatividade humana. O imaginário é a minha inesgotável e eterna fonte-relicário dos sonhos e das minhas criatividades reais, metafísicas, concretas e abstratas. Não existisse esse sacrário do imaginário, inexistiriam os sonhos, as esperanças, a fé e a própria vida.

Carlos: O que é para você o termo Esoterismo?
João Bosco: vejo como se fosse um sacrário de perfeição humana, no que diz respeito ao espírito e aos valores morais; e o como, o ver e o seguir tudo que se constitui na essência do bom da vida de cada um dos esotéricos.

Carlos: Que género de filme daria sua vida?
João Bosco: uma história-biográfica com o seguinte título: O homem que vivenciou a total, completa e perfeita felicidade da maturidade humana.

Entretanto, chegámos à Praia Vermelha e entrámos no luxuoso Hotel Mercure. Depois de encomendar a refeição (Moqueca de Camarão - à Baiana), recomeçámos a entrevista:

 

MERCURE HOTEL - SALVADOR - BAHIA - BRASIL



Carlos: Quais os filmes comerciais que mais gostou?
João Bosco: Qualquer filme de Charles Chaplin e de Luis Bunuel; Se minha Cama Voasse, o Mágico de Oz, Derzu Uzala, Cidadão Kane, Gilda, Auto da Compadecida, A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, Mar a Dentro, Sansão e Dalila, Curtindo a Vida Adoidado,  Os Três Mosqueteiros (qualquer versão); Zorro (qualquer versão); Para Sempre Cinderela; Por Favor matem minha mulher; Joguem a minha mãe do trem; O Expresso de Chicago; O Noivo da Minha Mãe; e  mais algumas dezenas.

Carlos: Música e autores preferidos?
João Bosco: Aires Andaluzos, com o trompetista mexicano Rafael Mendez; Beguin the Beguine, Night and Day e Um Americano em Paris, de Coler Porter; qualquer composição de Ernesto Lecuona e de Agustin Lara; Beijos pela Noite, de Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carlos Lacerda; O Mar, Saudade de Itapoã e Saudade da Bahia, de Caymmi; Onde eu Nasci Passa um Rio, de Caetano Veloso; Outra Vez, de Isolda; qualquer composição de Roberto Carlos, Dolores Duran e Luiz Vieira; Tanto Mar e Bastidores, de Chico Buarque; Luar do Sertão e Fechei o Meu Jardim, de Catulo da Paixão Cearense; Over the Rainbow, de Harold Arlen e EY Harburg; Foi Deus, de Janes Alberto Fialho; Coimbra, Last Rose of Summer, As Time Goes by e Danny Boy (não sei os autores); El Manicero, de Moisés Simons; Bolero de Ravel; No Mercado Persa, de John Ketelby; Noturno, de Chopin; qualquer criação de Mozart, Bach e Beethoven; qualquer composição de Luiz Gonzaga ou cantada por Luiz Gonzaga; Chalana, de Mario Zan/Arlindo Pinto; Tocando em Frente, de Almir Satter/Renato Teixeira; Romaria, de Renato Teixeira; Você vai Gostar, de Elpídio dos Santos; As Rosas não falam e O Mundo é um Moinho, de Cartola; das vozes de Bin Crosby, Israel Kamakawiwo’ole e Dalva de Oliveira; e mais outras dezenas de compositores e músicas.

Carlos: A cultura será uma botija de oxigênio?
João Bosco: Será; e pela eternidade, como se fora um Milagre em eterna ação.

Carlos: Autores e livros preferidos?
João Bosco: Dezenas e dezenas. Citarei: Tudo de Fernando Pessoa, de Camões, de Cecília Meireles, de João Cabral de Melo Neto, de Carlos Drumond de Andrade e de Clarice Linspector; Corpo Vivo de Adonias Filho, São Bernardo, de Graciliano Ramos, Istambul, de Orhan Pamuk; Iracema de José de Alencar; os magistrais Dom Casmurro, Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Memorial de Aires, de Machado de Assis; Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós; e mais algumas dezenas.

Carlos: Vamos falar de sua obra Literária?
João Bosco: Já publiquei: Cantares, Poesias e Trovas; Por Uma Humanização da Política Brasileira, Política e Ética; Direito e Moral no Estado Brasileiro, em co-autoria com minha filha Herta Rani Teles Santos, Política e Ética; Manoel dos Santos, O Delmiro Gouveia dos Sertões dos Rodelas, Biografia e História; Tocatas, Poesia e Prosa; e Carta à História de Rodelas, livro em folhetos, de História, Política e Cotidiano. Tenho em editoração: Minha Aldeia, em 2 (dois) volumes; Pequenas Frases... Grandes Lições, Aforismos e mais outros a concluir.
Participo dos Blogs/portais “Para Ler e Pensar”, “Café com História” e “Cá Estamos Nós (CEN)”, Linha do Tempo, no Facebook.

Depois do almoço, descemos ao bar onde bebemos um saboroso Vinho do Porto “Ruby” e terminámos esta entrevista:

Carlos: Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros?
João Bosco: Gosto do meu modo de viver a minha vida e de respeitar a vida de todos. Nos outros, o modo vitorioso, alegre e feliz de viver.

Carlos: Que livros anda a ler?
João Bosco: Uma verdadeira carga: Heráclito (e seu Discurso) de Donaldo Schuler; Platão e um Ornitorrinco, de Thomas Cathcart & Daniel Klein; Poemas e Fragmentos, Safo de Lesbos, tradução de Joaquim Brasil; A Idade do Ouro, de Georges Minois; O Homem Medíocre, de José Ingenieros; Os Grandes Iniciados, de Edouard Schuré; Aprendendo a Viver, de Sêneca; Maturidade, de Osho; A Crucificação e a Democracia, de Gustavo Zagrebelski; Alexis de Tocqueville, o Profeta da Democracia; e Teogonia, de Hesíodo, e mais outras dezenas.

Carlos: Deus existe?
João Bosco: Sim. Vejo, sinto e imagino DEUS-FORÇA-FÉ-ESPERANÇA  em todos os instantes, detalhes, lugares, tempos e espaços. DEUS está em mim e em todos os humanos. Nos astros e em todos os seus mínimos e detalhados confins.

Carlos: Para terminar esta entrevista, como vai de amores?
João Bosco: Sou tinhosamente fiel à minha esposa, há 33 anos. Gosto de cultivar amizades, de conquistar novas amizades e de ser fiel e prestativo aos amigos, nos momentos oportunos. Amo o meu viver e como vivo; amo minha esposa, minhas filhas, minhas irmãs, meus parentes, meus amigos, meus colegas. Amo o que faço, o que canto, o que leio, o que como e o meu vinho do Porto Ruby. Amo meus livros, meus filmes, meus CDs, meus chocolates.

E assim, falámos de:

João Bosco Soares dos Santos
Nascido a 6 de Outubro de 1937
Presentemente, Escritor, Poeta e Trovador

 
 CHEIROSAS MANHÃS DE JULHO

O abrir-se das brancas velas aos ventos vespertinos do mês de Julho, lá pelo lado do nascente, na mesma direção da ilha do Tucum - meu pai era proprietário de cerca de dois terços dela - entre às 15 e 16 horas, era o certeiro sinal da abertura da minha temporada anual de felicidade, quando criança.

Quase sempre começava no início da segunda semana de julho.
Logo depois do almoço, quando o sol fazia uma tira de sombra superior a 40 centímetros, no lado de fora do portão do muro de minha casa, que se comunicava com o rio – minha casa era bem grande e, devido a sua localização privilegiada, tinha, quatro entradas: duas para a rua principal, um portão lateral e um outro no fundo, quase sempre  abertos, além de várias janelas em três de seus lados.

O portão do fundo abria para o rio São Francisco, que, para ser visto, nem necessitava que se abrisse o portão porque a casa era bem alta e, do grande alpendre todo aberto para o lado do rio, víamos o rio, o serrote, algumas ilhas e todo o movimento de saída e chegada de barcos e canoas. O outro portão, mais artístico e luxuoso, à esquerda do alpendre, abria para a rua principal e permitia-nos ver todo o movimento da longa rua principal, que na verdade era uma avenida que se perdia pela vista, até a emendar-se com a Rua Felipe Camarão, ou “Rua dos Caboclos” e daí, e seguia em frente, em um ligeiro aclível, prolongamento este que se ia estreitando até o Cruzeiro, o magistral e portentoso cruzeiro, pintando de rosa e azul, bem claros – não se tem uma única foto daquele monumento à Fé Católica - construído com amor, respeito, e com a humildade própria dos que nunca perdem a esperança, e pelas mãos e ações do lendário Antonio Maciel, o mesmo Conselheiro de Canudos, registrando a sua missionária passagem, por estes sertões. Ainda bem que na sede Municipal de do vizinho Município de Chorrochó, há um Cruzeiro igual ao que existiu em Rodelas.

O portão do fundo da casa que se abria para o rio era bem simples. E ali, onde eu costumeiramente me sentava sobre o batente de caraíba, da porta, ficava a sorver com os olhos, em devaneios de poesias e de fantasias, aquele quadro artístico pincelado pela natureza, que, com a sua sertaneja simplicidade, traçara rio, ilhas verdes, serrote, pássaros, nuvens, céu e canoas, em seu retorno das jornadas, com produtos agrícolas ou com peixes, para o deleite vespertino das gaivotas, num findante dia de sol.

Mas, sempre com o meu olhar e meu pensamento livres, de quando em quando, concentrava visão e imaginação nas velas brancas, que, mais cedo ou mais tarde, deveriam abrir-se às lufadas, para juntas trazerem os paquetes carregados de cana, já cortada em pedaços mais ou menos iguais a um metro, destinada a ser transformada em garapa, mel e rapadura nos dias seguintes, no engenho movido a vapor, pertencente a meu pai.
Quando os paquetes aportavam , eu corria até lá para vigiar os pedaços de cana, que iam sendo descarregados dos barcos pelos trabalhadores e arrumados sobre as pedras da beira do rio. Eu para lá ia, procurando evitar que vacas, bois, jumentos, burros, cabras, ovelhas e porcos, todos mansos, comessem ou estragassem os pedaços de cana; também as protegia dos meninos que costumavam pegar pedaços de cana e saírem correndo para deliciarem-se a chupá-los, a alguma distância dali. E ali eu permanecia cuidadoso e contente até que Cícero de Otália, com sua exemplar e educada paciência, transportasse todos aqueles pedaços de cana para os depósitos, em seus jumentos, cada um com sua cangalha de quatro cambitos.

E aquelas minhas primeiras noites eram as mais longas, porque eu pouco ou quase nada dormia, a pensar no meu despertar na manhã seguinte, sendo acordado pelos cheiros de garapa, mel e rapadura, que se espalhavam por todas as ruas, sempre precedidos pelo apito da caldeira e pela fumaça.

Era o meu tempo-criança mais feliz. Era período de férias escolares e eu passava a manhã inteira perto da gamela de rapadura, batida por Antonio de Galdino, que sempre era muito atencioso comigo: chamava a minha atenção para não me aproximar muito da gamela e jamais me negava porções de rapadura ainda mole, que era colocada entre as dobras de uma palha de cana, ainda um pouco úmida, imediatamente depois que dela era retirada a garapa pelas três moendas de ferro prensadoras dos pedaços de cana.
No meu intranquilo e perturbado dormir dos dias iniciais de julho, o mais doce primeiro sinal era o apito da caldeira, dando início o moer dos pedaços de cana, deles retirando o caldo, a que chamávamos de garapa. Eu, mentalmente, contava o tempo suficiente para que a garapa começasse a ser fervida nos nove tachos dispostos em sequencia por sobre a cumprida fornalha: o primeiro deles era o maior e o que custava mais a ferver; era vigiado e comandado por meu compadre Manoel Chicó, e dele saia a melhor e a mais suculenta tiborna, que se destinava a engordar porco e, por isso era bastante disputada. Como meu pai não engordava porco, deixava que cada um levasse o que pudesse e quisesse; era uma de suas maneiras de ajudar aos mais necessitados da nossa terra.

Os tachos do meio eram cuidados por Guilerme de Galdino; o último era comandado ora por Nezinho ora por seu irmão Juca de João Freire, a quem competia temperar com pedaços de sebo de gado vacum e dosar o mel, na exata medida de despejá-lo na grande gamela de madeira, onde o mel já grosso,era batido e transformado em rapaduras, quando depositado nas retangulares aberturas das fôrmas de facheiro, confeccionadas por Antonio Eloi, um excelente marceneiro, que também era um dos vaqueiros de caprinos de meu pai, residente e cuidador do sitio do Jacaré, de propriedade de meu pai, mas que até nós, os filhos de MANOEL DOS SANTOS e donos dele, chamávamos a ele de Sítio de Antonio Eloi. Esse razoável sítio foi mais tarde obrigado a ser vendido por uma bagatela de moedas, por razões que não são necessários comentar.

O segundo sinal, era o cheiro inebriante da garapa fervida a transformar-se em mel, em cada tacho, à medida que a garapa, engrossando-se em mel, já cheirava a rapadura quente e mole.

O terceiro sinal já era o meu primeiro momento: corria direto para a gamela de rapadura cheirosa e ali tomava o meu primeiro café do dia: minha porção de rapadura mole, quente e cheirosa.

E era então, que, em todas as manhãs dos dias úteis de julho, toda a vila de Rodelas se entregava embriagada ao doce, gostoso e cheiroso império da rapadura mole e quente, espalhando-se como nuvens, às vontades dos ventos, pelos quatro cantos da então vila de Rodelas.

Que bons e deliciosos momentos vividos e agora só imaginados, carregados daquele saboroso e arrasador cheiro de rapadura mole e ainda quentinha, no momento querido.


Formato de entrevista de: Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 
 
 
 

 

 

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