"GRANDES ENTREVISTAS" A
 
GLÓRIA MARREIROS
 
 

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo
 

Já há meses que tinha combinado esta entrevista com a querida amiga, Glória Marreiros, mas só hoje foi possível. De manhã cedo saí da Marinha Grande ruma a Leiria, onde nesta cidade apanhei um expresso rodoviário para a cidade de Portimão (Algarve). São cerca de 450 Km, mas com boas auto-estradas, a viagem é mais ou menos rápida.

Durante a viagem, puxei pelos meus apontamentos para ler um pouco sobre Portimão, cidade que não visito há anos: “As importantes necrópoles de Alcalar e de Monte Canelas, além dos diferentes vestígios arqueológicos encontrados nos arredores da população, confirmam a presença humana já no Neolítico. Numerosas civilizações passaram pelo lugar, fenícios, gregos, romanos, etc, se assentaram na zona por suas excelentes características, por estarem situados na boca do rio Arade e possuírem um importante porto. Se encontraram numerosos restos nos seus arredores tais como ânforas, moedas, materiais de construção, etc, destacando o achado da Vila Romana de Abicada. No século XV Alfonso V concede a Portimão o título de Vila Nova de Portimão, é também nesta época quando se inicia a construção das muralhas da cidade. No século XVIII, depois do terramoto que no ano de 1755 destruiu a população, a economia sofreu uma importante crise que não chegou a se superar até o final do século XIX com o início da exportação de frutos secos, pesca e a indústria de conservas de peixe.

Locais de interesse em Portimão:

Igreja da Nossa Senhora da Conceição

Colégio dos Jesuítas  

Mosteiro de São Francisco

Capela de São José

Fortaleza de Santa Catarina de Ribamar (na Praia da Rocha)

Muralhas de Portimão 

Igreja do Antigo Colégio da Companhia de Jesus

Estuário do rio Arade 

Conforme o combinado, logo à chegada a Portimão, a nossa querida amiga, Glória Marreiros estava à espera.

Glória: - Olá amigo Carlos! Convido-o para uma visita à minha linda serra de Monchique. Sei que o Carlos já não a visita há muitos anos. Concorda?

 

 

Carlos: - Concordo plenamente! E, pelo caminho, podemos ir fazendo a entrevista.

Também concordou e já dentro do carro fiz-lhe as primeiras perguntas:

Carlos: - Como é que a Glória se auto-define ?

Glória: - Sou uma mulher calma, crente, nostálgica e romântica.

Carlos: - Quando era criança ... ?

Glória: - Era alegre e dinâmica, com arte para inventar brincadeiras, algumas vezes mal sucedidas, mas continuava sempre.

Carlos: - Como vai de amores ?

Glória: - Muito bem.

Carlos - Gostava que me falasse desta sua bela serra (ou terra) – pode ser?

Glória: - “Moro em Portimão há trinta e cinco anos, mas sou natural de Monchique. Gosto mais da minha terra de origem, porque adoro o verde em contraste com o azul do céu. A minha serra é um pedacinho do paraíso. Ouve-se a água a correr por cima das pedras, formando pequenas cascatas. Tenho lá algumas terras de cultivo, com árvores seculares. É maravilhoso ir, no Outono, colher castanhas e assá-las na grande rua da casa ainda habitável, mas desabitada. É um baile de recordações, de saudades, de sonhos concretizados e de outros não concretizados. Todos estes sentimentos se entrelaçam na minha alma e me transportam para mundos onde a poesia nasce e parece que toma formas humanas. Quando preciso de fazer um ensaio, um conto, uma crónica ou um poema, vou para aquele inesquecível ambiente bucólico, onde passei a minha infância e adolescência.
Monchique tem poucos monumentos. Destaco a igreja matriz, dos séculos XV/XVI, onde existe uma imagem da Nossa Senhora da Conceição, provavelmente da autoria do escultor Machado de Castro. São, também, de visitar as ruínas do convento da Nossa Senhora do Desterro, de onde se avista uma paisagem panorâmica magnífica e invulgar”.

Entretanto, chegámos ao Restaurante Esplanada do Abrigo, em plena serra de Monchique, onde tomámos o pequeno almoço, antes de recomeçarmos a visita a tão paradisíaco local de onde se avistam maravilhosas paisagens.

Carlos: - Todos nós temos as nossas virtudes e defeitos; qual a sua maior virtude, e, qual o maior defeito?

Glória: - Qualidade… É difícil de dizer qual é a minha melhor qualidade... Talvez a sinceridade...; defeito… Sou vaidosa, gosto de roupas e maquilhagem.

Carlos: - Seus passatempos preferidos?

Glória: - Viajar, sempre que posso, ler, escrever, fotografar e passear no campo.

Carlos: - Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ?

Glória: - O casamento.

Carlos: - De que mais se orgulha ?

Glória: - Dos meus filhos, dos meus netos e dos meus livros.

Carlos: - Qual a personagem que mais admira ?

Glória: - Madre Teresa de Calcutá.

Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ?

Glória: - A imagem dum temporal, em Junho, na Alsácia, com relâmpagos que pareciam vir de quatro lados, foi o mais belo fogo de artifício, natural. Não tive medo.

Carlos: - O dia começa bem se ... ?

Glória: - Receber uma boa notícia.

Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio ?

Glória: - Fico um pouco deprimida, mas a inspiração poética vem a seguir.

Carlos: - Que vício gostaria de não ter ?

Glória: - Gostar de comer doces.

Carlos: - O arrependimento mata ?

Glória: - Quando é sincero pode dignificar a pessoa.

Carlos: - As piadas às louras são injustas ?

Glória: - Acho uma brincadeira, tal como as piadas aos alentejanos.

Carlos: - Para a Glória, qual o cúmulo da beleza, e, de fealdade ?

Glória: Da beleza, Uma noite de Lua Cheia; da fealdade, Não dar a mão a quem precisa.

Carlos: - Mudando de tema. – O que é para a Glória o termo Esoterismo ?

Glória: - Nunca me debrucei sobre esse assunto.

Carlos: - Acredita na reencarnação ?

Glória: - Não sei...

Carlos: - Acredita em fantasmas ou em "almas do outro mundo" ?

Glória: - Esta pergunta faz-me lembrar o velho ditado: (Não acredito em bruxas, mas elas existem).

Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade ?

Glória: - A imaginação é fértil e os sonhos podem tornar-se realidade.

Carlos: - Acredita em histórias fantásticas ?

Glória: - Acredito. Tudo é possível.

De volta a Portimão, procurámos um restaurante para almoçar, pois, a hora do regresso aproximava-se e o expresso não espera por ninguém. O escolhido foi o Restaurante Portal da Serra, onde encomendámos um robalo ao sal (que é uma delícia), acompanhado por um bom vinho tinto da região. Aí fizemos a última parte da entrevista.

Carlos: - Que livro anda a ler ?

Glória: - Terra Nua.

Carlos: - Para si, a cultura será uma botija de oxigénio ?

Glória: - Muito mais do que isso! É um mundo de oxigénio.

Carlos: - O filme comercial que mais gostou ?

Glória: - O Pianista

Carlos: - Música e autores preferidos ?

Glória: - Gosto de música clássica e do fado, os autores são diversos.

Carlos: - Autores e livros preferidos ?

Glória: - O nosso grande clássico e sempre actual Eça de Queirós, Fenimore Cooper, Stendhal, Isabel Allende, Morris West, Paulo Coelho, entre outros. O último livro que li e que gostei bastante foi "Lição de Tango" de Sveva Casati Modignani.

Carlos: - Sua obra Literária ?

Glória: - Já ganhei em vários Concursos literários e Jogos Florais mais de oitocentos prémios, nas modalidades de poesia, conto, crónica e ensaio. Tenho prefaciado diversos livros, tenho sido jurada em alguns concursos e tenho publicados vários livros de poesia.

Carlos: - Sua ocupação profissional ?
Glória: - Estou aposentada. No entanto, os meus dois netos de cinco e três anos, ocupam-me bastante tempo, deixando-me pouco espaço para as minhas actividades poéticas ou literárias.

Carlos: - Que género de filme daria sua vida ?
Glória: - Romântico/dramático.

Carlos: - Para a Glória, Deus existe ?
Glória: - Ao longo da minha vida tenho tido imensas provas de que existe uma Força Poderosa, a que chamamos Deus.

E assim falámos de:

Maria da Glória Duarte Marreiros José (GLÓRIA MARREIROS)
Nascida num lindo dia 23 de Maio
Gosta mais de dar do que receber e nos outros a autenticidade

 

***

 

ESPERANÇA

 

 

Glória Marreiros

 

Os jovens abrem caminhos a verões e a memórias que passaram por nós há muito tempo; são o começar duma história com a secreta convicção de que reside ali a mezinha mágica que fará ressuscitar um futuro com bom auguro; são a música que envolve a atmosfera do nosso ameno entardecer; são uma primavera súbita e carregada de possibilidades, pois estão efervescentes de actividades, fervilham no interior de si mesmos, chocalhando os seus sonhos uns contra os outros. Atiram-se às sombras e transformam-nas em halos de luz, libertando reflexos na essência do ar, como se quisessem capturar a ventura dos nossos verões aprisionados. O futuro, por vezes, pode ter um sabor acre, a terra queimada, que nos evoca algo e se nos apega aos confins da memória, arrancando-nos imagens que julgamos perdidas para sempre. São os jovens, mesmo escondidos nos arbustos açoitados pelo vento da descrença, que têm nas mãos o condão que pode abrir caminho através dos enormes amontoados de desilusões, enviando para o ar nuvens de sementes prontas a germinar na madrugada seguinte.
     O futuro depende da educação que se dá ao jovem. A ausência dessa mesma educação pode explodir no ar com um silêncio hostil, ou como o ribombar de um trovão anunciando tempestade.
     O jovem precisa, para se reflectir na imagem do amanhã, de segurança, protecção, exemplo e amor. Estes valores formam uma pequena bolsa de eternidade que nunca os abandonará, porque guarda milagrosos segredos que eles terão de desvendar, cuidadosamente, para poderem superar as astúcias e as intempéries da vida.
     O jovem de hoje tem de pensar que é a planta que se ramifica nos beirais do futuro e se derrama pelos telhados do mundo em cascatas de folhas longas e brilhantes, matizadas de perseverança, para transformar a luz carregada e oblíqua do modesto sol-pôr que ilumina as telhas e as paredes musgosas dum futuro passado, agora, apenas, uma fotografia a preto e branco nas páginas ressequidas das memórias que descansam  na espuma dumas flores ásperas, cujo nome é sempre-vivas.
     O futuro, às vezes, assemelha-se a um espinhoso caule de alcachofra, ainda encimado com a flor do ano que passou, dissecado até ao limite. Neste caso, é provável que o jovem vacile até encontrar os rebentos viçosos da alvorada nos canteiros do seu âmago, ao sabor dum vento refrescado pela carícia do perfume que se solta dum rijo cepo de roseira brava.
     Sabemos que não é fácil construir um futuro, promissor para toda a gente, ao som de um coro formado por ululos, silvos e gritos de guerra; com frenesins redobrados e tons que se tornam selvagens, febris, parecendo uma espécie de champanhe de sons, impressões, vozes e memórias, tudo misturado num delirante e louco cocktail, embriagando as tiras de luar que tentam aflorar sobre o chão de pedra onde tantos jovens pisam.
     Apesar de tentarmos ser optimistas, temos de compreender que não é fácil ser jovem nos tempos de hoje. Muitas vezes os relógios das igrejas da vida ecoam, distantemente, através de terras pantanosas demasiado atulhadas em desilusões. As aspirações afloram, tímidas, no reflexo dum silêncio de vagos significados, como um cinzento manto de nevoeiro. Dá a impressão de que o astro-rei baixa rapidamente na direcção da orla enevoada, parecendo rolar num saco de ninfa. Apenas a brisa que sempre acompanha a noite se transforma em laivos de esperança.
     O sol pode aparecer velado na primavera da vida, mas há sempre a esperança dum verão quente, luminoso, fazendo o ar sangrar de oxigénio e a paisagem de cor. Os campos, as árvores e as flores da alma sempre superam os tons cinzentos e granulosos, para dar lugar à névoa brilhante que paira no mundo dos sonhos, como um farol para o barco que balouça nas ondas, perdido. Os  botões de rosa, compactos e verdes por terem estado afastados da luz, hão-de abrir-se para emprestar a sua deliciosa beleza à espessa veia do romance que atravessa a essência do jovem. As ervas daninhas que brotam por entre as lajes da desesperança  hão-de quedar-se mortas de frio, prateadas de geada. O sotaque cerrado da desilusão será uma paródia a rir de si mesma e a mergulhar na nostalgia, para dar lugar à linguagem do amor. Depois, o sol deixará de ser a moeda baça estampada no céu, para se transformar num rio de luz ziguezagueando, em caudal bonançoso, na plenitude do universo.
     Escrever sobre o futuro dos jovens é fazer uma longa introspecção e uma viagem até às cavernas obscuras da consciência, uma lenta meditação. Escreve-se às apalpadelas, no silêncio. E pelos caminhos da imaginação descobre-se partículas de verdade, pequenos cristais que cabem na palma da mão.
     Na juventude... o futuro será terra lavrada de virtude. A aurora resplandecerá nas folhas e faiscará nas gotas que enchem as corolas das flores silvestres. Haverá intermináveis paredes de verdura, áleas e alcovas com significados prometedores, como símbolos de uma antiga religião, de justiça, amor e paz sobre a Terra! 

                                                                      

Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal
 
 

 

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