Elizabeth Misciasci
 
 
 

 

Tinha combinado a entrevista com Elizabeth Misciasci uns dias antes, mas, sabendo como ela era uma pessoa muito ocupada, receei que quando chegasse ao Aeroporto Internacional de Guarulhos - Governador André Franco Montoro a entrevistada não estivesse à minha espera. Para passar o tempo mais depressa, li uns apontamentos sobre a cidade de São Paulo:
“Após a Independência do Brasil, São Paulo recebeu o título de Imperial Cidade, conferido por Dom Pedro I do Brasil em 1823. Em 1827, houve a criação dos cursos jurídicos no Convento de São Francisco (que daria origem à futura Faculdade de Direito do Largo de São Francisco), e isso deu um novo impulso de crescimento à cidade, com o fluxo de estudantes e professores, juntamente com o crescimento da produção do café nas regiões de Campinas, Rio Claro, São Carlos e Ribeirão Preto, graças a qual a cidade passa a ser denominada Imperial Cidade e Burgo dos Estudantes de São Paulo de Piratininga. De meados desse século até o seu final, foi o período que a província começou a receber uma grande quantidade de imigrantes, em boa parte italianos, dos quais muitos se fixaram na capital, e as primeiras indústrias começaram a se instalar. De meados do século XIX em diante, São Paulo passa a beneficiar-se da ferrovia que liga o interior do estado de São Paulo ao porto de Santos. A facilidade de exportar o café permite à cidade e ao estado de São Paulo um grande crescimento económico. Mas é com o fim do Segundo Reinado e início da República que a cidade de São Paulo, assim como o estado de São Paulo, tem grande crescimento económico e populacional, também auxiliado pela política do café-com-leite.
Depois da chega e das formalidades alfandegárias, dirigi-me para a saída do aeroporto, quando uma voz me chamou. Parei e dirigi meu olhar para uma linda mulher que me chamava: “Carlos !”. Parei e sorriu e perguntei-lhe: “És a Beth ?. Um abraço selou uma amizade virtual de alguns anos.
Saímos para o parque de estacionamento e a Beth perguntou-me: “Carlos, vamos começar a entrevista na Pinacoteca do Estado? é um lugar aprazível”. E lá seguimos.
Pelo caminho aproveitei para lhe fazer umas perguntas:

Carlos: - Beth, você aprecia música ? Música e autores preferidos, quais são ?
Beth: - Eu amo música, tenho um gosto diversificado. Não tenho um estilo, ouço desde Tom Jobim, Chico Buarque, Phil Collins , Baden Powell, Tom Zé... Gosto de Jazz, mas sou mesmo fissurada por Samba (Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almirzinho Guineto, Leci Brandão) e não dispenso os meus sertanejos!

Carlos: - Seus passatempos preferidos ? 
Beht: -Ver um bom filme comendo pipóca.

Carlos: - Quais os filmes que mais gostou ?: -"Tropa de Elite" e "Ensaio sobre a cegueira", (baseado na obra homônima do escritor português José Saramago) -Filme de Fernando Meirelles.

Carlos: - Você gosta de ler. Quais Autores e livros preferidos ?
-Melhores autores... Citando Charles Chaplin  -" O tempo é o melhor autor: sempre encontra um final perfeito". (Charles Chaplin).
Quanto as obras Literárias, assim como os autores, são muitos . Então, vou citar apenas um "comer rezar amar"  da Escritora: Elizabeth Gilbert.  E, aproveitando a "deixa" indico á todas as Mulheres, repetindo uma menção que  certeira, expressa na obra, "Adorei Comer Rezar, Amar" -Por, Hillaty Clinton.
 
Entretanto, chegámos à Pinacoteca. “O prédio ocupado pela Pinacoteca do Estado foi projetado por Ramos de Azevedo em 1897, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, instituição que formava técnicos e artesãos para construir as cidades que se enriqueciam com o café. Com paredes de tijolos não revestidos e amplas janelas incorporadas ao referencial urbano, a Pinacoteca passou por uma grande reforma durante o governo Mário Covas, e, hoje, em seus salões restaurados, pátios internos cobertos, telhado recuperado, iluminação específica e adequada, abriga importantes exposições, como as que realizou com as obras de Rodin e de Miró. O museu tem um perfil muito definido da arte brasileira do século XIX até a contemporânea. Seu acervo tem cerca de 4 mil peças, e é significativo, especialmente para São Paulo, uma vez que reúne trabalhos de artistas paulistas, como Almeida Júnior, Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva, além de obras representativas de Cândido Portinari, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. O Pavilhão das Artes, localizado no Parque do Ibirapuera, também faz parte da Pinacoteca e abriga exposições de grande importância artística.
Depois de visitarmos as instalações, sentámo-nos numa esplanada.
 
Carlos: - Qual a sua melhor qualidade, e, maior defeito ?:
Beth: - Qualidade, digamos, competência. Defeito … Tenho muitos, mais como é pra citar o maior, eu acho que é  “Esperar que as pessoas se comportem da forma que eu me comportaria em muitas situações”.

Carlos: - Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje ?
Beth: - Cuidar de um ex menor infrator, portador do HIV, até o final...

Carlos: - Qual a personagem que mais admira ?
Beth: - Minha mãe. Uma heróina na história da vida.

Carlos: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro ?
Beth: - Todas aquelas em que meus filhos realizados, transbordaram felicidades! Estas eu não quero esquecer e peço bis!

Carlos: - Para a Beth, Qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade ?
Beth: - Beleza é um bebezinho sendo amamentado. Fealdade, Um corpo estirado o chão coberto com jornal.

Carlos: Quando era criança ... ?
Beth: - Acreditava Apaixonadamente em Papai Noel.

Carlos: - E hoje, como se auto-define ?
Beth: - Sou alguém, que consegue amar e acreditar no ser humano de forma pura e verdadeira. Acho que tudo é possível e sei perdoar. No entanto, fico horrorizada com o descaramento de pessoas que estão no poder, agindo com  hipocrisia e  mediocridade. Sinto repulsa pelos que fazem do Poder Público,  o porto seguro privado, criando condições, normas e regras, apenas para benefício próprio.

Carlos: - Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros? ?
Beth: - Em mim, a resignação. Nos outros, a solidariedade.

Carlos: - O arrependimento mata ?
Beth: -Com certeza!

Carlos: Como vai de amores ?
Beth: - Bem!
 
Tinha chegado a hora do almoço. Fomos a um restaurante árabe que a entrevistada bem conhece. Encomendámos  charutinho, kibe, tabule... e panquecas, que a Beth não dispensa. A bebida para ambos foi Coca-cola light.
 
Carlos: Diga-me uma coisa: as piadas às louras são injustas ?
Beth: - Por serem piadas, não à relevâncias. Porém, não diria injustas, mas talvez … machistas.

Carlos: - O que é para você o termo Esoterismo?
Beth: Um universo enigmático, e pra minha mim, que sou totalmente leiga, um campo  impenetrável .

Carlos: Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo” ?
Beth: - Não desacredito de Nada!

Carlos: - Acredita em histórias fantásticas ?
Beth: - Sem Dúvidas, acredito sim!

Carlos: - O Imaginário será um sonho da realidade ?
Beth: - Talvez.

Carlos: - Acredita na reencarnação ?
Beth: -Sim

Carlos: - Deus existe ?
Beth: - Sim.

Carlos: - Que vício gostaria de não ter ?
Beth: -O de enganar o sono e passar mais de quarenta e oito horas acordada com muita freqüencia, evitando dormir.

Carlos: - O dia para si começa bem se ... ?
Beth: - Me acordarem falando baixinho já servindo o café na cama.

Carlos: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio ?
Beth: - Quase sempre me deixa melancólica.

Carlos: - Sua ocupação profissional ?
Beth: - Jornalista, Humanista, Cônsul Penha SP - Poetas Del Mundo, Escritora, Palestrante e Pesquisadora, focada principalmente nas  desumanas e cruéis condições impostas á Mulher na Condição de pessoa Presa. Mantendo a atenção voltada a tudo o que diz respeito à  trajetória do feminil Marginal ou Marginalizado, dediquei e dedico grande parte da  minha vida. Seja ou esteja direta ou indiretamente ligada ao Universo da Criminalidade, é sempre com muito interesse  e preocupação, que colho matéria e material acompanhando vários casos, quase sempre de perto, tentando localizar o ponto e o grau da fragilidade desta. (desde a infância até a prisão, sobrevivência no cárcere, maternidade e fora dele).
Assim,  por um período de aproximadamente  vinte e um anos, é que venho me dedicando aos estudos aprofundados em incansáveis trabalhos voltados aos cárceres, encarcerados e egressos. Centrada especificamente na temática Violência e Criminalidade Feminina e toda a miserabilidade que a cerca, traço meus projetos e  vou trilhando também nesta estrada.
O que inclui em paralelo as minhas atividades profissionais, atuação dentro e fora do Sistema Prisional Feminino, com o Projeto zaP! no qual sou Presidente e Voluntária desde 1998.

Carlos: - De que mais se orgulha ? –
Beht: De não ter desistido do zaP! E levar sozinha o projeto adiante, sem desistir das meninas que na grande maioria, hoje em liberdade me deram e dão muitas alegrias e Orgulho!

Carlos: - Que livro anda a ler ? –
Beth: - A Arquitetura da Felicidade - do Escritor Alain de Botton

Carlos: - Sua obra Literária ? :
Beth: - Presídio de Mulheres (Em Nova Edição) / - A difícil arte de recomeçar. /- Meus Poemas I /

Carlos: - E Home Page ?
Beth: - http://www.eunanet.net/beth/index.php   e  http://www.revistazap.org
 
E assim, falámos de:
Elizabeth Misciasci
Nascida a 15/01/1965
Em São Paulo SP

Tirania© de Elizabeth Misciasci

Saio da penumbra lúrida e impetuosa
Que ao tratar-me com pequenez me condena.
Sem castigar-me, renuncio a dor penosa,
Libertando-me desta meia luz que se ordena.

Já não há mais senhores nem escravidão
Torno-me livre desta senzala, que me oprimia!
Se findam as mentiras o esconso da sombra e da escuridão
Meus passos seguem a luz que outrora não se permitia.

Saio do escopo que sem permissão a me esculpir
Por imposição, perfilou, degenerou sonhos e moral
Privada das palavras e ações, fazendo valer o mentir.
Distante... Muito além do meu ideal.

Já não quero o ser feito de concreto
Que se perde transpondo-se, sendo pura ufania.
Busco meu brilho arrancado, o confiável não o incerto.
E assim me liberto, fugaz de uma penumbra tirania.

Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal
 

 

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