Edson Contar

 
 

 
 
 
Formato de Carlos Leite Ribeiro
 
 

Vindo do Rio de Janeiro, à saída do Aeroporto Internacional de Campo Grande - Mato Grosso do Sul, logo encontrei o meu entrevistado, o Edson Contar. Depois das apresentações e cumprimentos, a convite do Edson Contar, demos uma enorme volta pela bela cidade de Campo Grande (não confundir com o bairro lisboeta do mesmo nome, onde as tropas de D. Sebastião se juntaram para a Batalha de Alcácer Quibir). Durante o percurso, o entrevistado foi falando de Campo Grande:

 

Edson: - “Campo Grande já está perfeitamente descrita por vários autores. Resta falar de seus lindos parques urbanos que ocupam destaque entre os maiores do mundo. Numa cidade de aproximadamente 1 milhão de habitantes, são onze grandes parques, todos dotados de recursos que garantem a preservação ambiental e oferecem lazer à população e visitantes. Praças de eventos, museus, lagos, quadras poliesportivas, trilhas para caminhadas e uma rica flora que acolhe variada fauna em ambiente natural. Entre os muitos parques destacam-se o Parque das Nações Indígenas com 119 hectares, o parque da Universidade Federal, onde o belíssimo lago do Amor exibe em suas margens linda flora e animais como a capivara, o Parque dos Poderes com 285 hectares, abrigando prédios dos poderes executivo, legislativo e judiciário, em áreas naturais, sem agressão à natureza. Outros, como o Soter 22 hectares, Prosa com 135 hectares, formam um verdadeiro cinturão do centro urbano, proporcionando qualidade de vida e ambiente saudável aos que vivem nesta cidade com características de metrópole. Não devo falar muito de Campo Grande para não ser interpretado como suspeito ou parcial, pelo motivo de ser neto e bisneto dos fundadores da cidade. Mas, os sites de busca da internet estão aí para mostrar muito mais que os belos parques que temos. Mesmo nas avenidas, é comum os bandos de periquitos, araras, tucanos, sabiás e bentevis a rondar as palmeiras, coqueiros e ipês... Campo Grande é assim... Super avenidas, parques, jardins... e mulheres lindas.”.

 

CEN: - Como é que o Edson se auto-define?:

Edson: - Um homem comum, com qualidades e defeitos... Aventureiro, desbravador e meio inconsequente... Emotivo ao extremo, mas uma fera quando me julgam injustamente ou duvidam de mim... Eterno aprendiz de tudo... Anarquista e libertário na execução de tarefas, avesso a regras e dogmas. Um maluco de beleza!

 

CEN: - Seus passatempos preferidos?:  

Edson: - Bons livros, bons filmes, boas músicas, bons amigos... boa vida! Até pouco tempo eu ainda dividia tudo isso com o tênis e um futebol suíço... A idade gritou e, eu parei.

 

CEN: - Quando você era criança?

Edson: - Ainda sou... Acho que o corpo envelheceu, mas a alma continua criança... Gosto das molecagens de sempre... Adoro fechar registros de água dos outros, sacanear amigos, jogar futebol de botões, espalhar livros nos bancos das praças ou nas calçadas só pra ver a reação das pessoas...  Até meus netos já "cresceram"... eu, não!

 

CEN: - Sua profissão profissional?:

Edson: - Jornalista e Turismólogo. Por muitos anos, além de empresas de turismo e comunicação, servi minha cidade e meu Estado como Secretário de Turismo e em cargos de outras áreas públicas, aposentando-me em 1996. O "bichinho" da imprensa não quis me abandonar e, até hoje, elaboro matérias para diversos jornais e revistas, além de prestar consultoria na área do turismo., escrever textos para teatro e minhas poesias libertárias...

 

CEN: - Qual foi o maior desafio que aceitou até hoje?:

Edson: - Deuses!... Mais fácil responder, qual eu não aceitei. Minha vida é um eterno desafio... Procuro sempre o inédito, o original, a descoberta do possível... Detesto pratos feitos. Quando retornei à minha cidade, após formado, tinha tudo para uma ocupação tranquila e rentável... Preferi a aventura. Atirei-me às atividades ainda inexistentes no meu Estado, criei as primeiras agências de viagens, a primeira agência de propaganda e fiz um sistema inovador e arriscado de radiofonia, numa época que não existia a FM... Até uma primeira loja de animais (Shopping Aus) eu cometi por aqui...Tudo deu certo.... Aí, não parei de inventar moda, mesmo nos cargos que ocupei. Culpa do meu sangue luso-libanês? Imagine então, os meus filhos, que ainda somaram o sangue ucraniano da mãe!

 

CEN: - De que mais se orgulha?:

Edson: - Fácil: meus filhos e netos... Eles souberam tirar proveito da formação familiar que receberam e se tornaram homens dignos e honrados, além de grandes profissionais e amigos leais. O meu mais velho estudou aí em Coimbra e hoje é Desembargador do Tribunal de Justiça, aqui. O segundo formou-se em Engenharia Mecânica (Brasil), depois em Mecatrônica (na Alemanha), passou pela China e reside hoje no Brasil, labutando no ramo da Robótica... O terceiro é filósofo e historiador, trabalha no Banco do Brasil... Puxou ao pai... Não gosta de ganhar muito dinheiro. Meus dois netos já estão ingressando na universidade este ano e a netinha, com onze anos, vai muito bem nos estudos... O que mais quero para sentir-me orgulhoso na  vida? Recebi várias homenagens em vida... De medalhas, troféus, condecorações e até emprestar meu nome para um troféu anual do turismo.  Fico muito feliz, mas, nada pode se comparar a uma família bonita e querida.

 

CEN: - Qual a personagem que mais admira?:

Edson: - Sei que a grande maioria responderia Jesus... Eu também o tenho como  o principal personagem de nossas vidas, mas gostaria de  manifestar minha admiração mesmo é por homens comuns que aqui chegaram com o livre arbítrio de ser ou não ser, e foram! Ghandi, Einstein, Freud, Chaplin, Da Vinci, Marther Luther King, Madre Tereza de Calcutá, Confúcio ....

 

CEN: - Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?:

Edson: - Meus pais... O carinho, respeito e parceria que refletiam. A doçura de minha mãe e o azul olhar tão carinhoso de meu pai.

 

CEN: - Em sua opinião, o arrependimento mata?:

Edson: - Acho que o que mata é o orgulho em não reconhecer nossas falhas ou fracassos e deles tirarmos ensinamentos  para corrigir o rumo de nossas vidas.

 

CEN: - Como vai de amores?:

Edson: - Eu vou muito bem! Amo as pessoas e a vida... Saída sutil, não?

 

CEN: - Que gênero de filmes daria sua vida?:

Edson: - Aventura... Ou Romântico... Drama, jamais!

 

Paramos no Restaurante Comitiva Pantaneira, onde na Esplanada tomamos um aperitivo antes do almoço.

 

CEN: - Qual a sua melhor qualidade, e, seu maior defeito?:

Edson: - Qualidade, amar, amar, amar... Trabalhar, trabalhar, trabalhar...; Defeito, não saber dizer NÃO!

 

CEN: - Qual o cúmulo da beleza, e, da fealdade?:

Edson: - Beleza, o céu!... Já observou?... Quantas imagens se fazem a cada momento,  de quantas cores ele se enfeita, quantos astros e estrelas desafiam nossa imaginação... Não é à toa que nos acostumamos a pensar que Deus e as boas pessoas estão lá em cima, embora Ele esteja aqui, em cada um de nós e nas coisas que nos cercam; fealdade, E da fealdade, a maldade, a ambição, o ódio, o poder, e tudo o que o homem faz de mal, relegando os ensinamentos e as bênçãos que Deus nos concedeu.

 

CEN: - Que vício gostaria de não ter?:

Edson: - O cigarro que me escraviza há 58 anos... 

 

CEN: - As piadas às louras são injustas?:

Edson: - Fizeram com as pobres o mesmo que fazem no Brasil com os portugueses e argentinos. Da mesma forma deve ter em outros lugares, piadas sobre negros, asiáticos, árabes etc. 

 

CEN: - Com os portugueses fazem piada dos alentejanos, muito parecidos com as que os brasileiros fazem dos baianos.

- O dia começa bem para o Edson, se…?:

Edson: - Eu não tiver que fazer algum pagamento ou se for dia de receber o salário... Bom mesmo, é quando começa com uma boa notícia e o sorriso de uma criança!!! 

 

CEN: - Que influência tem em si a queda da folha e a chegada do frio?:

Edson: - Já sobrevivi  a tantas estações que não sinto diferença em nenhuma delas... Sou primavera quando amo, verão quando escrevo, outono quando faço meu exame de consciência, desfazendo-me das minhas angústias, meus defeitos e meus pecados. Chego ao inverno e agasalho-me na solidão, recolho energias e refaço meu eu para uma nova primavera... 

 

CEN: - A cultura será uma botija de oxigênio?:

Edson: - Indubitavelmente! É a raiz e a semente da nossa existência…

 

CEN: - Que livro anda a ler?:

Edson: - A Cabana de Willian Young... Na fila, um livro de Câmara Cascudo... Antes, eu lia dois ou três de uma vez...Com a chegada da "idosidade", comecei a misturar as situações e já não sabia se Nero era o imperador ou o dono do bar da esquina, ou o detetive que batia na mulher... Lia Jorge Amado e batia palmas para Dante.

 

CEN: - O filme comercial que mais gostou?:

Edson: - “Por quem os sinos dobram”, “O ferroviário”... tanto faz ... só faço chorar quando assisto filmes.  

 

A hora do almoço tinha chegado. Rumamos ao restaurante “Fogo Caipira”. No cardápio escolhemos churrasco pantaneiro acompanhado de um arroz com guariroba ou pequi, acompanhado por vinho tinto. E a entrevista continuou:

 

CEN: o Edson tem site na Internet?:

Edson: - Taí uma coisa que ainda não tenho de forma apresentável... Comecei o aprendizado de blogs e tenho alguns ainda simples, coisa de amador. Um deles dedicado ao querido vizinho Paraguai.
http://mbaetekopioparaguai.blogspot.com
http://imagenseletrasdeedsoncontar.blogspot.com

 

CEN: - Seus gostos musicais (música e autores preferidos)?:

Edson: - Depende muito do meu estado de espírito: Do clássico até as minhas guarânias, polcas, chamamés e músicas regionais, são momentos que acontecem dependendo até mesmo do ambiente. Ouço muito a música francesa e italiana, além da portuguesa, ora, pois! Do Brasil, sou um pouco mais MPB dos anos 60/80 e só em fevereiro me volto para as carnavalescas já que componho enredos para Escolas de Samba de minha cidade.
Autores?... Joe Dassin, Vinícius, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho Simões,  Emiliano R. Fernandes, Paul Anka, Jarre, Ivan Lins, Gadel, Piaf... Beethoven e eu (risos narcisistas).

 

CEN: - E na literatura?:

Edson: - Considero-me um leitor volúvel demais... Fui apaixonado pelas obras de Guy de Maupassant, Tolstoy, Fernando Sabino e, de repente, cansei ... Dizem que é coisa de sagitariano... Veio o tempo das letras leves de Giovani Guareschi - ninguém se lembra-, Mario Quintana,Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta e outros. De repente, não mais que de repente, eu estava revirando sebos a procura de tudo do Eça de Queiroz, Gabriel Garcia Marquez, Tolstoy, Neruda e Mario Vargas Llosa... Será que alguém me entende??? Acho que vou reler Freud....Talvez eu encontre a resposta para a sua pergunta. Falando sério, acho que li  quase tudo, de quase  todos....Tanto que, acabei aproveitando minha biblioteca e tirando deles o tema para um livro (A Estante Maluca), no qual uso os títulos como situações.... Acabou ficando muito engraçado. Se tiver que escolher, fico com Saramago e João Ubaldo... Kafka?... Ou será que fico com Veríssimo e Mario Quintana?... E o Garcia Marquez?. Faz o seguinte: Deixa em branco ! (risos)

 

CEN: - E a sua obra literária?:

Edson: - Das Margens do Prosa ao Bar do Zé - crônicas de Campo Grande-2002; Pantanal- (com dois outros autores)-2006; Waldir dos Santos Pereira - Cadernos de Campo Grande - 2006; Noções Básicas de Turismo para o público infantil - didático - 1982; Cartilha do Turismo - 1984; Plantur - Plano de Turismo Integrado para MS-1979; Do Entrudo ao Show - História dos carnavais em Campo Grande-2003; José Maravieski-biografia- Cadernos de Campo Grande-2009; Oriente Maracajú (sua história)  - Obra restrita - maçonaria-2009. Alguns ebooks na AVBL e Antologias diversas.
Na Gaveta: A Babel que deu certo (história dos imigrantes em Campo Grande); Meu ontem - (crônicas de uma infância dourada); A Estante Maluca - contos de humor. Como vê, os últimos permanecem na gaveta. (Preguiça de editar).

 

A última parte desta entrevista, foi feita no percurso e já dentro do Aeroporto Internacional de Campo Grande, enquanto esperava o avião para o regresso ao Rio de Janeiro, para depois, apanhar outro para Lisboa.

 

CEN: - Amigo Edson Contar, o que é para si o termo Esoterismo?:

Edson: - O que seria mais um caminho para aprofundarmos o nosso conhecimento do sobrenatural estão, hoje, desvirtuado. 

 

CEN: - Acredita na reencarnação?:

Edson: - Sou Kardecista há quarenta anos, portanto... 

 

CEN: - Acredita em fantasmas ou em “almas do outro mundo”?:

Edson: - Fantasmas são brincadeiras de mau gosto... Almas, em outros planos acredito piamente. 

 

CEN: - E em histórias fantásticas?:

Edson: - Sim. Quantas não acontecem por ai?... Fantástico, não?

 

CEN: - O Imaginário será sonho ou realidade?:

Edson: - Quem já não quis desvendar o que há por detrás do horizonte??? De onde será que me vem a criatividade, a sensibilidade e a vontade de realizar. O que é este meu misterioso cérebro? Tõ aqui, matutando...

 

CEN: - Para você, Deus existe?:

Edson: - O Grande Arquiteto? Calma, não pise nessa formiguinha... Nem espante aquele pássaro que está a aquecer seu filhote no ninho... Não polua este lindo lago... Veja que flores lindas! Voltando à sua pergunta, sempre que venho ao parque, converso com tudo isto aqui... E Deus me responde!

 

CEN: - Para finalizar: - Qual a característica que mais aprecia em si, e, nos outros?:

Edson: - Em mim, a capacidade de compreender e perdoar; nos outros, a lealdade e a fraternidade.

 

E assim, falamos de:

 

Edson Carlos Contar

Jornalista e Turismólogo

Morador em Campo Grande MS (Brasil)

Nascido num belo dia, 19 de Dezembro de 1939

 

O BONDE 14

 

Faz tempo...
Corria linha, levando gente.
Gente que ia, gente que vinha...
Com raras exceções, eram sempre as mesmas pessoas e todos já se conheciam na convivência do dia‑a‑dia.
Manoel, o motorneiro, português risonho, já sabia de cor o ponto de embarque e desembarque de cada um.
Do abraço amigo ao bom dia cordial, todos se entendiam e, durante o percurso, às segundas-feiras, comentava‑se o futebol do domingo, a macarronada regada a vinho do ontem, o piquenique do fim de semana, a praia e outros acontecimentos vividos por cada um dos passageiros.
Era uma família e assim foi batizada - a família do 14.
Nem à volta do trabalho, no regresso ao lar de cada um, o cansaço, estampado nas faces, impedia a alegria do reencontro.
Assim viveram e conviveram os felizes passageiros do bonde 14, até que um dia, quando uns já não existiam mais, espalhou‑se a notícia da desativação do bonde.
Era o modernismo que chegava...
O asfalto cobria os trilhos e dava passagem aos ônibus, que diziam ser mais econômicos e mais confortáveis.
O que ainda restava da família 14 tomou aquilo como um pecado dos homens.
Uns falavam em se aposentar junto com o velho bonde.
Outros diziam preferir fazer o percurso a pé, negando‑se a aceitar essa inovação.
A família estava, mais do que nunca, unida em defesa do velho bonde e solidária com o  velho motorneiro.
Quando a última viagem se realizou, o velho português foi homenageado por todos e, não resistindo à emoção, chorou abraçado aos companheiros de tantos anos.
Comoveram‑se todos e, após muitos abraços de despedida, separaram‑se, descendo, pela última vez, do velho bonde.
Nunca mais se viram...
Nunca mais se cruzaram...
Em pouco tempo, Deus foi levando, um a um, para junto de si.
O velho bonde foi para um museu.
Hoje, o guarda do casarão, que abriga tantas peças do pas­sado, fica intrigado quando, nas madrugadas de segunda‑feira, jura ouvir um barulho num canto do museu.
- É como se o bonde estivesse ainda funcionando.
Diz ouvir um burburinho de vozes, como se muitas pessoas estivessem a conversar.
É a família 14 que está novamente reunida...

Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

Formatação e Arte Final: Iara Melo

 

 

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