(lamentos dos mais velhos...)
Esta Juventude ... de Carlos Leite
Ribeiro
Mais velhos, não direi, talvez os
mais antigos – de acordo?
No nosso tempo não se via disto –
uma frase que se ouve com certa
frequência aos mais antigos. Agora,
vimos os jovens sempre agarradinhos
e aos beijinhos por todo o lado.
No nosso tempo, não se via “esta
vergonha” não; tínhamos uma enorme
ingenuidade quase a roçar a
santidade. Nós quase não olhávamos
para as jovens pois tínhamos grande
pudor e éramos demasiadamente
envergonhados e tímidos. No meu
tempo nem tínhamos tentação de saber
se as carnes da nossa moça eram
rijas ou moles; se ela sabia beijar
bem; nem sequer um encosto mais
apertado. Nada disso. Éramos uma
perfeição. Nos bailes, dançávamos
afastados das moças pelo menos um
palmo; no escurinho do cinema,
ficávamos sempre com as mãos em
posição de oração e nunca por nunca
a fazer pesquisas por sítios
proibidos; para mais, tínhamos
sempre a mamã sentada a nosso lado.
Nenhuma parte de nosso corpo reagia
à aproximação ou quando estamos
junto da nossa amada. Nos dias de
chuva, nunca procurávamos a entrada
de um edifício ou mesmo o vão de uma
escada; nunca (o pior era quando
esses espaços já estavam ocupados
por outro casal).
Nunca por nunca invejámos e muito
menos desejámos a namorada dos
outros ou mulher casada; nunca!
Rapazes como nós, já não existem.
Um certo colega, o Mário, certa vez
foi apanhado por uma vizinha a fazer
algo que não “devia” com uma moça. A
dita (cuja) vizinha, chamou-o a sua
casa para lhe dar uma grande lição
de moral e, ao mesmo tempo, dar-lhe
umas lições de sexologia prática; no
dizer desta senhora já viúva há
muitos anos, as lições seriam vinte…
Mas o Mário contou a situação aos
amigos e, quando a vizinha marcou
nova lição, aparecemos a sua porta
cerca de dez amigos. Resultado: não
passou da primeira lição. O que
éramos capazes para perder a nossa
ingenuidade para nos integrarmos no
mundo dos já muito adultos!
Volto a repetir: rapazes como nós,
já não existem…
Também é preciso não esquecer que
namorávamos com a moça à janela,
mesmo que morasse num 5º andar
enquanto o rapaz ficava na rua. Não
tínhamos hipóteses nenhumas … Embora
há quem diga que nós tínhamos uma
“engenharia deveras criativa”; mas
isso são boatos!
O caso melhorou (só um pouco) quando
apareceram as “lambretas” que só
tinham dois lugares e a mamã tinha
que ficar de fora. O pior era quando
a tal mamã marcava que de dez em dez
minutos tínhamos que passar à sua
porta ou num local pré-combinado.
E quando apareceram os Volkswagens
de três mudanças para a frente e uma
para trás? Para “conduzir” era
precisa certa “habilidade” pois
senão saiam dentro do carro que
dolorosos torcicolos.
Rapazes como nós, já não existem…
Em 2001, escrevi este apontamento
“MOMENTOS MARCAM UMA ÉPOCA ...”
Há nomes que nos marcam para sempre,
principalmente, quando se referem à
nossa juventude. Para mim, o nome
Nan, traz-me recordações da minha
meninice.
Teria uns dez anos, morava num
rés-do-chão de um prédio da Pascoal
de Melo (Estefânia – Lisboa), e no
último andar, por sinal o 4º, morava
a Nan, uma moça que na altura teria
uns 16 ou dezassete anos. A mãe da
moça, de nome Sen, viúva de um
obscuro subchefe de uma repartição
da função pública, era uma figura
muito castiça: Muito magra, não
muito alta, sempre vestida de preto
e, fosse em que estação do ano
fosse, andava sempre de sombrinha.
Quando aqui em Portugal passou a
telenovela “Tieta do Agreste” (que
eu parodiei para a radiodifusão),
logo me lembrei da D. Sen, que a vi
retratada na “Charifú” desta
novela. A Nan era filha única e sua
mãe a defendia de todos e quaisquer
“Moinhos de Vento” (eram como as
mamãs tratavam os rapazes). Se a
moça lhe ia fazer algum recado
(compra) perto de casa, logo a mãe
se empoleirava na varanda começando
logo a berrar assim que ela saía do
prédio: “Nan ! não te demores, olha
que eu estou aqui à tua espera !” ;
ou “Nan ! estás a demorar muito !
Que estás para aí a fazer ?...”. Se
nas traseiras da casa, a moça estava
a estender a roupa na varanda, lá
estava sua mãe ralhando comigo:
- “Olha lá menino, estás a olhar
para as pernas da Nan ... etc ...”.
Recordo-me uma vez minha tia dizer
em voz alta para ela ouvir bem:
- “Carlitos, não olhes para cima
!Podes estar a cobiçar umas pernas
que não valem nada ... “.
Claro que a opinião era de minha
tia, porque a minha, embora não me
recorde bem, talvez fosse uma “bela
panorâmica” !
Mas voltando à Nan, andava num
colégio de feiras, onde a mamã a ia
levar e trazer. Recordo-me de um
carnaval no Clube Estefânia, em que
a D. Sen quando notava (?) que o par
da filha a estava a agarrar
“demais”, levantava-se e o ia
afastar do corpo da filha. De tantas
vezes que repetiu, que se tornou um
escândalo hilariante. Nessa altura,
um D. Juan da época, virou-se para a
D. Sen, perguntando-lhe:
- “Olhe lá minha senhora, é católica
?”. A senhora olhando-o de frente,
replicou-lhe:
- “Sou sim, seu desavergonhado !.
Então o “malandreco” respondeu-lhe
perante a hilaridade de todos:
- “Então vá com Deus e deixe
sossegada a sua filha!”.
Era assim a vida da Nan ...
Meses depois, a pequena, não se
sabendo muito bem porquê, apareceu
grávida. É verdade !. Já na gravidez
avançada, tanto a mãe como ela,
juravam a pés juntos que não sabiam
com “aquilo tinha acontecido”.
Algumas vizinha, (daquelas mais
aconselhadas), aconselharam a D. Sen
a ir a uma senhora de grande
virtude, que morava na Horta das
Tripas (Casal de Santa Luzia – Rua
D. Estefânia) para que ela
expulsasse o “Mafarrico” do corpo da
moça, porque tal só podia ter sido
“obra do diabo”. Outras menos
“cultas” diziam que tinha era sido
“obra e graça do Espírito Santo”...
Fosse como fosse nasceu um bebé que
teve como nome Francisco (o
Chiquinho).
Muito mais tarde, já a D. Sen tinha
entregado a alma a Deus e o corpo à
terra fria, a Nan confessou que
“talvez fosse obra de um ajudante de
limpa-chaminés”. Na altura, existiam
em Lisboa o “limpa-chaminés” que
subiam aos telhados, ponham uma
corda muito comprida dentro das
chaminés e tiravam a “ferrugem”;
pelo menos faziam muito lixo.
Normalmente quem tinha a chave da
porta que dava para o telhado era o
locatário do último andar. Assim, um
dia, a Nan foi abrir a porta ao
ajudante de limpa-chaminés, enquanto
o mestre ficava junto às chaminés
das cozinhas, segurando a corda, o
ajudante abanava - a no telhado.
Ainda segundo o relato da Nan “foi
tudo muito rápido”. Nós podemos
acrescentar: Rápido e Eficiente!
Ficámos sem saber se teria sido no
abrir da porta, ou, ao abanar da
corda. Mas isso também não
interessa.
Claro que a moça teve depois vários
namorados.
Enquanto estes esperavam pela dama,
havia sempre um “malandreco” a
avisá-lo:
- “Não cuspas para cima que ela pode
engravidar ...”.
E assim, o nome de Nan, ficou sempre
gravado na minha memória ...
Carlos Leite Ribeiro – Marinha
Grande – Portugal
“Sem pretensões de atingir outros
objectivos que não os de unir,
ensinar, provocar, estimular e
sobretudo divertir os leitores (o
que já não é pouco), com a escrita
segura eficaz e tecnicamente bem
apetrechada de quem tem a ‘mão
feita' eis:
Carlos Leite Ribeiro”
(von Trina - Março 2001)
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