Contador de Histórias

 

Conto de Natal de

 

Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estava frio e cá fora até nevava. A ceia da Consoada estava no fim e era o tempo das pessoas formarem grupos em volta da lareira. Os mais novos admiravam (mais uma vez) as prendas que tinham recebido; as mulheres juntaram-se para combinar o almoço do dia de Natal e, também (presumivelmente) darem umas "alfinetadas" nas vizinhas ou amigas; os homens, mais afastados da lareira. davam mostras de já estarem cansados de estarem ali tantas horas.

O Agostinho, era o que dava mais mostras de estar possuído por um nervoso "miudinho".  Para desanuviar o ambiente, levantou-se dizendo para os colegas:

-  Meus amigos, para o tempo passar mais depressa, vou contar-vos uma história da minha vivência ...

O Luís,  ao ouvir o Agostinho, desenhou com os lábios um sorriso zombeteiro, levantou as sobrancelhas e com graça perguntou-lhe:

- Olha lá amigo, você, por acaso, já não nos contou todas as histórias da sua "vivência" ?

Apanhado de surpresa com aquela observação, o Agostinho hesitou,  mas logo se recompôs; ignorando o que o Luís tinha insinuado, e continuou:

- Eu ainda não vos contei aquela minha façanha de ter construído um avião?... não ? ...

A gargalhada foi geral ! Mas o Agostinho, sem se "desmanchar", começou a contar a sua "vivência":

- O que vos vou contar, meus amigos é pura verdade. Certa vez na minha juventude, construí uma avião ... (está a rir de quê ?...) bom, não seria bem um avião, mas sim uma avioneta, que por sinal me deu bastante trabalho. Depois de ter a avioneta pronta, fiz um plano de voo, apanhei vento de feição, e lá fui eu por esses ares fora. A princípio, era tudo muito lindo. Podia ver lá do alto as nudistas na praia, as hortas, os pomares, as florestas, e até as vacas a pastar ! Tudo corria bem, até que, às duas por três (ainda hoje não sei o que aconteceu), acordei de um maravilhoso e excitante sono, mas cheio de dores por todo o corpo, principalmente na cabeça, onde senti um enorme "galo". Quando abri os olhos, muitas pessoas estavam debruçadas sobre mim, mas todas pareciam desfocadas.

Uma das pessoas que reconheci, foi a Linda (uma princesa prometida), que me perguntou-me se eu me sentia bem. Respondi-lhe que estava óptimo, ou melhor, pensava que estava bem. Com certo custo e ajudado pela tal Linda, levantei-me e então vi que tinha aterrado mesmo em cima de um monte de estrume, o que provavelmente me tinha salvo a vida.

Notei então que estava fedorento demais, mas depois de um higiénico banho, fiquei como novo ...

Todos estavam presos e curiosos como o Agostinho ia acabar a sua história. E este também notou a expectativa dos seus amigos. Depois de pensar uns breves segundos, sorrindo, recomeçou:

- O único efeito daquele meu voo (ou façanha), foi o facto das vacas, depois da "aterragem",  passarem várias semanas alimentando-se muito mal, pois estavam ficaram muito  nervosas e sempre com as cabeças no ar. Isto com grande arrelia dos donos, que viam os animais cada dia a perder peso ...

- Muito bem amigo Agostinho – disse-lhe o Luís,  que continuou:

- Espero que seja esta a sua última história da sua "vivência"...

- Olhe que não, olhe que não, amigo Luís. A próxima "vivência" será aquela, quando eu construí um submarino ...

A gargalhada foi geral.

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

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