Bolo de Aniversário
(um conto real)

de Carlos Leite Ribeiro
Naquela noite de 29 de Dezembro de um ano
que já não me lembro, cheguei a casa já
tarde pois tive de fazer serão no jornal a
preparar edição especial Fim de Ano. Era um
trabalho sempre chato mas que felizmente só
acontecia uma vez por ano. Fazer pesquisas
culinárias (ainda não havia Internet);
entrevistar chefes de cozinha e afamados
cozinheiros; pequenas entrevistas a
políticos e a figuras públicas (e não só).
Fazer as listas de restaurantes, bares e
outros locais de divertimentos, etc.
Tudo isto além do noticiários normais que de
hora a hora tínhamos que dar à antiga
Emissora Nacional. Era um trabalho como
dizíamos "do diabo".
Portanto, cheguei a casa muito cansado e com
fome. Logo na entrada veio a meu nariz um
cheirinho agradável a bolo. Passei pelo
quarto para ver se a mulher estava a dormir,
e de seguida, dirigi-me à cozinha de onde
vinha aquele maravilhoso cheirinho a bolo
quente.
Logo o descobri o Pão-de-ló numa forma
grande (tínhamos dois tipos de formas cada
qual com seu diâmetro. Contente como
qualquer ratito preste a comer um pedacinho
de queijo, retirei o tal bolo da !"estufa"
onde estava a "secar" e cortei uma generosa
fatia; confesso que tive vontade de comer o
bolo todo, mas como é óbvio, tinha que
contar com a esposa que estava a dormir.
Dirigi-me ao quarto e delicadamente acordei
a esposa, querida, tu hoje caprichaste a
fazer o bolo Pão-de-ló! Já comi uma fatia e
trago-o aqui para nós o devorarmos.
Nem pude acabar a frase, pois ela acordou e
logo vi que não muito bem disposta:
- Oh seu guloso, o que fizeste ao bolo ?!...
- Comi uma fatiazinha !
- Esse bolo era para o aniversário da Maria
Figueiredo. Estava a secar para logo de
manhã o barrar com molho branco, colocar
aquelas bolinhas de enfeite prateadas além
das vinte e duas velas. Prometi à moça e
agora o que vou fazer?
- Levanta-te e vamos fazer outro. Eu ajudo
se puder comer este todo…
- Olha que não estou a brincar … Levas tudo
na brincadeira. E eu que prometi à moça que
lhe faria o bolo de aniversário. Sai daqui
do quarto e vai para a cozinha; mas não
comas mais nenhuma fatia de bolo. Guloso …
Vestiu o robe e foi ter comigo à cozinha.
Calados só olhávamos para o bolo, eu,
intimamente pensava:"que pena não ser todo
para mim…".
- Olha Carlos, parece-me que descobri como
safarmos desta enrascada”. Com uma faca
afiada, vou cortar outra fatia do lado
oposto e assim, o bolo em vez de ficar
redondo vai ficar oval. Como já está quase "seco" vou fazer o molho e tu vai ajudar-me
a barrá-lo e a colar com o açúcar em ponto.
Horas depois o bolo estava na perfeição na
sua forma oval, e muito bem decorado com as
tais bolinhas e os castiçaizinhos para as
velinhas.
- Vês querida, tu és uma enorme artista
criativa. Parabéns! Agora posso comer esta
fatia, não posso? ajudei a minha querida …
A resposta veio em tom cortante:
- Nãoooo !!! quem a vai comer sou eu.
Nem protestei para não ouvir alguma coisa de
que não desejaria.
No outro dia fomos ao aniversário da
Figueiredo e levámos o bolo que fez grande
sensação pelo seu formato oval.
Uma vizinha chegou perto de minha mulher
para lhe perguntar:
- Onde é que a senhora comprou esta forma
tão fora do comum?
Eu afastei-me logo antes de dar uma sonora
gargalhada, enquanto a esposa dizia à
senhora, numa cara muito cómica a tentar não
se rir.
- Estas formas (metálicas) não se vendem em
Portugal. Foi uma amiga que me trouxe de
França …
Carlos Leite Ribeiro (um conto real)