AOS JOVENS
 
Estamos em pleno século XXI


Carlos Leite Ribeiro

 


Fala-se de progressos, tecnologia, telemóveis (celulares), tv por cabo, auto-estradas, num mundo que tende cada vez mais para a "Aldeia Global", preconizada por Mc Luhan. Tudo parece direccionado para uma era dourada, onde tudo é programado e pensado, até ao mais ínfimo pormenor, para solucionar todos os nossos problemas. Vivemos um tempo do "ter" em detrimento do "ser", numa sociedade pautada pela ostentação, pelo orgulho, pelo pseudo-saber e pela mediocridade.
Hoje, um qualquer cidadão que pretende nortear toda a sua conduta por valores éticos e morais, é desprestigiado, satirizado, quantas vezes de ingénuo, de anjinho - afinal quem somos nós ?
Uma civilização completamente ajustada e domesticada a uma nova ditadura tipo mediática. Sinais de modernidade do utiliza e deita fora, onde a caixinha (televisor) que mudou o mundo não é mais do que o verdadeiro teste à nossa falta de formação e à estupidificação de um povo, no limiar de um novo conceito de analfabetismo.
Sinais de modernidade onde os cidadãos delegam, sistematicamente, responsabilidades. Tudo começa no ambiente familiar, que deveria constituir em si próprio o último reduto de defesa contra perigos eminentes e reais da crise de valores, apresenta-se hoje cada vez mais fragilizado e desacreditado.
Corre-se para o emprego e corre-se atrás do emprego, que teima em fugir cada vez mais. Os dias passam ganhar mais suga-nos o tempo, a paciência, a vida.
As crianças, os filhos, vão ficando pelo caminho, entre vídeos, walkmans, games boys, computadores..., prémios que mais não representam do que a nossa subtil desculpa e cobardia de não lhes dizer na cara, que não temos tempo para ser pais (ou vocação), nem muito menos encarregados de educação.
Por isso, são diariamente "despejados" nos jardins de infância, nas escolas onde se espera que professores desanimados, mal pagos e triturados no mais puro espírito do funcionalismo público, "concertam" aquilo que em sua casa se estraga por desatenção familiar.
Uma classe política e de governantes comodamente instalada - mais preocupada com a defesa do "tacho" (lugar bom de trabalho) e da sua clientela - mas que se esqueceu há muito o país real. Sinais dos tempos?... Mudança?... Ou o preço da modernidade imposto por uma geração adulta, em que muitos e muitos parece ter esquecido o sonho preconizado na sua adolescência. Ninguém é responsável?!... Filhos de pais incógnitos somos um País de tios e tias. Caberá aos Jovens assumir esta pesada herança e o desafio de a contrariarem.

Recordo aqui, e com a devida vénia, o meu querido a quem eu devo tanto, Mestre Almada Negreiros, no seu "Manifesto Anti-Dantas" : "...Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e, então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser coisa de asseado! ... ... tanto encarnados como azuis hão-de ficar surpreendidos com aqueles que de todos os cantos de Portugal vêm aparecendo cheios de mocidade, de juventude e de consciência, vendo claro na vida, curiosos de sabedoria, feitos decididamente para a honra de Portugal, e indiferentes sim, a ninharias, a asneiras entre parentes e a tesuras bairristas. A nova geração surge impassível com um grito único: VIVER !!! Isso mesmo que os governantes nunca pensaram que fosse o único desejo da nova geração : VIVER !!!".

O associativismo é uma das vias perspectivado como um fórum de reflectida ponderação sobre o papel dos jovens de hoje, sobre os diferentes modos de assumirem o seu presente e de projectarem o seu futuro, de, uma palavra, serem mensageiros dos valores perenes da Humanidade e protagonistas criativos dos destinos de Portugal. Acredito nos jovens do meu País e espero que tenham a serenidade do saber preservar todas as suas capacidades e força interventiva na luta contra o consumismo acrítico e gratuito, contra a droga e toda a espécie de poluição e agressão moral e ecológica, contra a fruição sem ética, sem autodomínio e sem bússola, contra a contestação sem critério e sem regras, contra a subalternização do mérito e do valor, contra a permissividade, o oportunismo e a corrupção, contra a desfiguração do seu rosto humano, pelo esvaziamento da sua própria humanidade.
Todos somos iguais, mas uns, são mais iguais do que outros.
Pela minha parte, resta-me a opção de partilhar com os meus iguais a utopia da mudança, mesmo que para isso tenha que renegar a minha própria geração.
Acreditem que não estou só...

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