A Lei da Vida, de Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

 

 

A Lei da Vida, é um conto que teve adaptação radiofónica, e com assinalado êxito. Muitas vezes fui convidado a apresentar este conto em concursos literários, mas nem sei porquê, nunca o apresentei.

Hoje, tenho o prazer de o oferecer a todos os Pais do Mundo, no “Dia do Pai”, que, no Brasil e este ano, comemora-se no dia 12 de Agosto (2007).

Grato pela atenção,

Carlos Leite Ribeiro

 

A  LEI  DA  VIDA

 

 

(A cena passasse numa rua e numa casa modesta da Marinha Grande)

 

Padre – Bom dia Doutor!

Doutor – Bom dia, padre Henrique. Por cá tão cedo?

Padre – Passei por aqui perto e quis saber qual a situação clínica do nosso querido amigo José Mateus, a que muito chamam “o Inventor”.

Doutor – O que é que quer que lhe diga, padre Henrique ?

Padre – A verdade, pois esta, apesar de ser muitas vezes cruel aos nossos olhos, deve ser sempre dita.

Doutor – Será vontade de Deus ?

Padre – Como lhe queira chamar, doutor ...

2ª Pers. – A situação clínica do sr. José Mateus, tem muito a ver com a sua idade, com o seu desgaste natural ...

Padre – Só?...

Doutor – E mais um problema cardiovascular, que se está a agravar.

Padre – Quer então o doutor dizer que o caso apresenta-se muito complicado, não é ?

Doutor – Dir-lhe-ei mesmo mais do que isso – apresenta-se muito crítico.

Padre – Pobre amigo, José Mateus ! Bem, é a LEI  DA  VIDA – quem nasce tem de morrer.

Doutor – Nós, os cá da terra, nestes casos, pouco ou nada podemos fazer ...

Padre – O filho, o sr. Engº. Hugo Mateus, já foi avisado?

Doutor – Ontem, tentei entrar em contacto com ele. Mas não se encontrava em casa, pois, tinha ido a Espanha tratar de uns assuntos da empresa que dirige, no norte. Mandei há pouco a criada telefonar para a fábrica – o que já deve ter feito.

Padre  – Vamos então aguardar a chegada do eng. Hugo Mateus ...

 

( toque de campainha de telefone )

 

Olívia  - ... Bom dia, Empresa Industrial da Marinha Grande  ... neste momento, o sr. Engº. Hugo Mateus, não se encontra na Empresa ... não sei, mas estou a contar que ele não se demore muito. Quem fala ?... Hááá , é da Marinha Grande. Diga-me por favor se o pai do sr. Engº. , está melhor ? ... Hóó, lamento muito a sua situação e desejo-lhe as melhoras ... pois é, é a Lei da Vida ... nestes casos é muito mais fácil dizer aos outros que tenham coragem ... pode estar descansada, sim,  que eu darei o seu recado ao sr. Engº. Quando ele chegar ... pode ficar descansada ... Bom dia!

...

Olívia – Senhor engenheiro Hugo Mateus. Bom dia!

Engenheiro  – Bom dia, Olívia. Há algum recado?

Olívia – Há vários, mas o mais importante, é um da Marinha Grande, que veio de casa de seu pai ...

Engenheiro – O que quer dizer que o velhote está em apuros – não é, Olívia?

Olívia – Pedem o favor para o sr. Engº. telefonar urgentemente para lá.

Engenheiro – Olívia, faça a ligação para o meu gabinete. Atenderei de lá ...

...

5ª Pers. – Já repararam que está muita gente a entrar para a casa do sr. José Mateus ? possivelmente, o velhote morreu ...

6ª Pers. – Não, ainda não deve ter morrido, pois, a sobrinha da criada, a Pureza, ainda esteve aqui há pouco e disse-me que o velhote ainda vivia.

5ª Pers. – Nestes casos, os amigos vão juntando à espera que o amigo dê o último suspiro.

6ª Pers. – Pois é. Estão à espera que o homem morra, mas como ele dizia: “Sou muito teimoso !”.

5ª Pers. – Ao fundo da rua, vem o padre Henrique ...

6ª Pers. – O que quer dizer que a situação clínica do sr. José Mateus, deve estar a complicar-se ...

5ª Pers. – Sim, para o padre ir lá a casa a esta hora ...

6ª Pers. – O padre Henrique, é amigo daquela família, já há muitos anos. Foi ele quem ensinou as primeiras letras ao sr. Engº. Hugo Mateus.

5ª - Pers. – Por falar no filho – ainda não o vi por cá ...

6ª Pers. – Eu também não. Mas não admira, pois, o sr. Eng. é administrador de uma empresa da Marinha Grande. Mas, se a situação estiver a complicar-se, não deve tardar aí.

5ª Pers. – Reparem, quem vem de lá a sair é a D. Albertina. Também uma velha amiga daquela família, já do tempo da mulher do sr. José Mateus.

6ª Pers. – Da D. Áurea, santa senhora, recordo-me bem. A D. Albertina, está a falar com aquelas vizinhas e a chorar muito. O que terá acontecido?

5ª Pers. – Ela vem agora para este lado…  D. Albertina, D. Albertina ...

Albertina – Bom dia, vizinhas. Querem saber como está o sr. José Mateus, não é assim ?

5ª Pers. – É verdade. Como é que ele está, D. Albertina?

Albertina – Ora, como é que o pobrezinho está! ... está na última, mas ainda bastante lúcido.

6ª Pers. – Ainda não vi o filho, o sr. Engº. Hugo Mateus...

Albertina – Ele ainda não chegou, mas, como já está avisado da situação do pai, não deve tardar a chegar. Bem, tenho que me ir embora, pois tenho que ir fazer o almoço ao meu marido e também mudar de roupa. Até logo, vizinhas ...

5ª Pers. – Até logo, D. Albertina e muito obrigada pela sua atenção. Coitado do velhote !

6ª Pers. – Ainda me lembro quando o sr. José Mateus provocou aquela grande explosão de gás, quando pretendia que um foguetão que ele tinha inventado, subisse ao espaço !

5ª Pers. – Eu também me lembro pois fiquei com a roupa que tinha a secar, toda chamuscada. Aquele homem nunca parou com os seus inventos,  e com alguns deles, teve êxito.

6ª Pers. – Como aquele saca-rolhas que com um sopro tirava as rolhas.

5ª Pers. – Reparem, ou eu me engano muito, ou é o carro do filho que vem aí ... é ele é !

6ª Pers. – Olha lá, o sr. Engº. Hugo Mateus, não é casado?

5ª Pers. – Ainda não é.

6ª Pers. – Mas ele é bastante jeitoso. Admiro-me não ter casado ainda ...

5ª Pers. – Ele é muito fino e diz que ainda tem muito tempo para se casar.

6ª Pers. – Olha, o médico também está a chegar. É aquele que está a falar com o engº. Hugo.

5ª Pers. – E neste momento, vão entrar para a casa do velhote ...

...

Engenheiro – Então, pelo que me diz, a situação clínica de meu pai, é muito crítica ?

Doutor – Direi mesmo que é muito crítica. Está medicamentado e, só por isso encontra-se, neste momento, calmo. Deve acordar daqui a pouco.

Engenheiro – Obrigado por tudo o que tem feito a meu pai. Mas, agora reparo: o padre Henrique está cá. Com licença, doutor ...

Doutor – Vá, vá engenheiro, enquanto eu vou ver o doente.

Engenheiro – Por cá, padre Henrique?!

Padre – Então eu não devia de estar cá, nesta hora tão difícil para todos nós ?! não te esqueças de que teu pai é um grande amigo que tenho !

Engenheiro – Não o quis ofender, padre Henrique – até lhe agradeço o seu cuidado e interesse!

Padre – E tu, meu rapaz, como estás? ... não queres que eu te trate pelo teu título académico – pois não?...

Engenheiro – Claro que não, padre Henrique! eu estou bem, mas como é lógico, muito preocupado com o meu pai.

Padre – Tens de ter resignação, meu filho ... como tu sabes, a idade não perdoa. Teu pai nunca parou de trabalhar, de inventar coisas.

Engenheiro – O meu pai e os seus inventos ! ele ainda deve estar a descansar – não é padre?

Padre – Está sob o efeito dos medicamentos, mas segundo o médico me disse, o seu efeito deve estar quase a acabar.

Engenheiro – E o meu pai já perguntou por mim?

Padre – Pois claro que sim, meu filho. O teu pai está lúcido. Ainda ontem me disse que queria falar contigo sobre outro seu invento. Mas não me disse do que se tratava.

Engenheiro – Nem às portas da morte, o meu pai descansa ! o que será desta vez ? – o pai e os seus inventos!

Padre – Olha lá, aquele invento contra os assaltantes de aviões, deu resultado ?...

Engenheiro – Entreguei o projecto às companhias de aviação. Ainda não me disseram nada.

Padre – E na tua opinião, como técnico, esse projecto é viável?

Engenheiro – Sim, talvez. O problema é encontrar um gás adequado para adormecer, momentaneamente, os assaltantes e os passageiros. Além do antídoto para a tripulação ...

Padre – Então, digamos, que a ideia é válida e, no futuro, até poderá ser útil ...

Engenheiro – Pois é. Até poderá ser útil, como o padre Henrique diz: se os técnicos desenvolverem a ideia.

Albertina – Desculpem interromper. Sr. Engº., o seu pai acordou agora e perguntou logo por si. Diz que lhe quer falar ...

Padre – Então vamos lá, meu filho, pois, infelizmente, teu pai não deverá ter muito tempo de vida.   

Engenheiro – Passe, passe padre Henrique. Vá à frente, pois também conhece bem o caminho ...

Padre – Vamos então entrar ...   olá, velho amigo! como é que tu estás, meu velho?...

Mateus– Eu ... estou bem ... vivo …  e ainda ... não preciso ... de um padre ...

Padre – Olha José, eu estou aqui como um amigo que vem visitar outro, e não como padre. Mas, se tu não me quiseres aqui dentro, vou-me já embora ...

Engenheiro – Desculpe, padre Henrique, mas meu pai quer falar comigo em particular. Por favor, não leve a mal  e  desculpe-me ...

Padre – Eu compreendo, eu compreendo, meu rapaz. Vou já sair. Até já ...

Mateus  – O padre ... Henrique ... ele ... já saiu ... ?!

Engenheiro – Já sim, pai. Mas não te canses, tem calma.

Mateus – Eu ... nunca ... nunca ... me canso ... quero ... falar contigo ... pois ... inventei ...

Engenheiro – Pai, não te canses, por favor. Podemos falar depois, quando tu estiveres menos cansado.

Mateus – Falar ... comigo ... depois ?! ... olha que será difícil ... naquela ... naquela ... escrivaninha ... está ... está ... uma projecto ... de transístor ... para evitar ... evitar o roubo ... de ... automóveis ...

Engenheiro – Pai, pai não te canses mais. Eu vou já buscar esses planos ...

Mateus – Ai ... aiiii.... iii...

Engenheiro – Pai, já vou chamar o médico ...

Mateus – Vai ... vai ... meu ... filho ... lho …

Engenheiro – Doutor, doutor ... o meu pai está a sentir-se muito mal ...

Doutor – Vou já, vou já. Saia então por favor. Deixe-se sozinho com o seu pai ...

Padre– Então, meu filho ? ...

Engenheiro – O meu pai, está mesmo muito mal !...

Padre – Tens de te conformar, é a Lei da Vida ... Olha, o doutor vem aí ...

Engenheiro – Então, doutor ?!...

Doutor – Aquilo que nós esperávamos, aconteceu agora mesmo – seu pai, morreu ...

...

Padre – Sei que estás a passar um momento, digamos, dramático. Mas tens de ir descansar, meu filho, Aqui na Terra, já está tudo terminado para teu pai.

Engenheiro – Ainda me parece um sonho ... Meu pai morreu. Meu pai morreu …

Padre – Queres passar agora lá por casa de teu pai ?

Engenheir – Sim, tenho que passar por lá para dar as minhas ordens à criada e, trazer o dossier do último invento de meu pai.

Padre – Eu acompanho-te, meu filho.

Engenheiro – Obrigado, padre Henrique ...

... … …

Engenheiro – Olívia, faz hoje um ano que meu pai morreu. Telefona para a Marinha Grande e diga à criada que não se esqueça de comprar flores, muitas flores ... para ele.

Olívia – Não me esquecerei, sr. Engº.

Engenheiro – Há algum recado para mim?

Olívia – Telefonaram da Associação das Companhias de Aviação a comunicarem que o invento de seu pai, foi aprovado e, que dentro de pouco tempo, começará a ser utilizado. Dizem que querem comunicar com o sr. Eng., para tratarem dos direitos de patente ...

...

Engenheiro – “Já dizia o grande mestre Almada Negreiros: “Podem não considerar ou até mesmo destruir a vida de um homem – mas nunca conseguem destruir a sua obra !”. Pai, se me estás a ouvir, deves de estar contente, pois, conseguiste VENCER – embora depois de morto !”.

 

F I M

 

 

Formato de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

 

 

 

 

 

 

Música: Pai * Fábio Júnior

Arte  Final: Iara Melo