A Feira da Graça de

 

Carlos Leite Ribeiro

 

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

 

 

A FEIRA DA GRAÇA - de Carlos Leite Ribeiro

 

Nota: A cena passasse num recinto de uma qualquer feira popular.

 

1ª Pers.: - Oh freguesas, é comprar, é comprar... É comprar hoje, pois eu estou muito bem-disposta! É de aproveitar, pois hoje levam tudo quase de graça! Oh freguesas, quase, quase de graça! E ainda mais, tomem bem atenção: quem levar a mercadoria hoje, pode usá-la durante a semana e, se não gostar, de hoje a uma semana podem traze-la, que eu a aceitarei!

2ª Pers.: - Meus senhores e minhas senhoras, a banha da cobra...

1ª Pers.: - Oh seu "banha da cobra", desampare-me cá o "estaminé". Vá gritar para

outro lado!

2ª Pers.: - Olhem, olhem só para "esta cara de pau", que deve estar a sonhar!

1ª Pers.: - Estou a sonhar, estou mas não é com você! Seu "borda de alguidar" - ouviu?!

2ª Pers.: Esta “pirua”quer conversa, mas eu não estou "pardála"! A banha da cobra, é um produto que cura todos os males... Se tem uma nota de cinquenta...

1ª Pers.: - Está a ouvir-me, seu "dez réis de gente"?! Vá lá para baixo, para o fundo da feira, pois é lá que você, seu "pingarelho" fica bem!

2ª Pers.: - Se por acaso tem queda de cabelo, não use um qualquer shampôo, use sim a conhecida e centenária banha da cobra...

1ª Pers.: - Agarrem-me, agarrem-me, porque eu vou-me a ele, e desgraço-me. Agarrem-me!

2ª Pers.: - Imaginei só, uma "pirua" como ela, ainda pensa que alguém a vai agarrar! áháháh ... A banha da cobra cura todos os males, menos a paranóia desta mulherzinha! Meus senhores e senhoras, podem formar bicha, pois eu não sei se terei embalagens para servir todos... mas se as bisnagas não chegarem, eu irei ao sertão caçar uma cobra, esfolo-a e tiro-lhe a banha, e assim todos os estimados clientes poderão ser atendidos! Venham cá ver a banha da cobra, que dá saúde a quem a tiver!

1ª Pers.: - Ai, ai que ainda perco a cabeça... Perco a cabeça com este “pingarelho”!

2ª Pers.: - A banha da cobra também é boa para encontrar e colar cabeças perdidas!

1ª Pers.: - O malandro, o malandro ainda me está a gozar comigo! Oh seu meia... seu meia..."léca de um raio", se eu, lhe ponho as mãos em cima…

 

Aproxima-se da filha da 1ª Personagem

 

3ª Pers.: - Oh mãezinha, que termos e propósitos vêm a ser esses?!...

1ª Pers.- Estou assim neste estado, é por causa daquele... daquele “pingarelho”...

3ª Pers.: - Mas olhe que eu não estou a ver aquele moço fazer nada de mal à mãezinha... Ele até me parece bastante simpático!

2ª Pers.: - Olhe que a menina até tem muita razão, pois, eu até sou bastante simpático. Mas a sua mãezinha, como não gosta da banha da cobra...

3ª Pers.: - Oh mãe... Se tu não gostas da banha da cobra, ninguém te obriga a comprar e muito menos a usar... olha, faz o teu negócio e deixa lá os outros se governarem!

1ª Pers.: - Tu, minha filha, é que não sabes, nem calculas, de que qualidade é este "estupor"!...

 

Aproxima-se uma cliente

 

4ª Pers.: - Olhe lá minha senhora, tem cuecas?!
1ª Pers.: - O que você perguntou?
4ª Pers.: - Oh mulher, você está surda? Por acaso não ouviu eu perguntar-lhe se tinha cuecas?
1ª Pers.

Ouvi, ouvi e muito bem. Claro que tenho cuecas! E tenho estas para vender; olhe só para esta boa fazenda, e o tom até lhe vai ficar muito bem, pois é o tom que dá com a sua pele...

4ª Pers.: - Olhe lá, mas isto são meias-calças!

1ª Pers.: - E daí?!... A freguesa leva duas peças e só paga uma. Não hesite pois, ninguém a quer enganar!

4ª Pers.: - Não sei, estou hesitante...

1ª Pers.: - Olhe lá, vamos fazer uma coisa: a freguesa leva e prova, se gostar fica com elas, se não gostar, volta a traze-las. Eu para a semana estarei cá novamente. Oh freguesa, leve a mercadoria que não se arrependerá!

 

Outro cliente aproxima-se

 

5ª Pers.: - A senhora tem chapéus para a praia?

1ª Pers.: - Tenho chapéus, tenho. Não quer dizer que sejam para a praia, mas são de certeza para a cabeça dos clientes. Olhe, este aqui até é bastante bonito...

5ª Pers.: - Mas, mas este chapéu é muito pequeno...

1ª Pers.: - Você também não me parece que tenha uma cabeça muito grande, mas às vezes quem sabe. Mas isso não é comigo... Leve lá o chapéu, que lhe há-de ficar muito bem. Olhe que até lhe dá um certo ar de distinção...

5ª Pers.: - Nem sei o que faça...

1ª Pers.: - Eu hoje estou muito bem-disposta! Olhe freguês, você leva o chapéu, prova-o, se gostar, fica com ele, se não gostar, volta a traze-lo! Pois para a semana, estarei cá novamente. Isto hoje é só vender...

 

Outro cliente

 

1ª Pers.: - Oh freguês, o que é que procura?

6ª Pers.: - Procuro um cinto de couro, castanho...

1ª Pers.: - Castanho?! Olhe que essa cor é bem capaz de não lhe ficar muito bem. Veja aqui este cinto, isto é que é um "luxo", e de muito boa qualidade. É feito de toiro bravo, que foi corrido na Praça do Campo Pequeno, e era tão bravo, tão bravo, que os forcados o tiveram de pegar de "cernelha", antes do toiro mandar trás forcados para o hospital!

6ª Pers.: - Mas este cinto é preto, e eu quero um cinto castanho!

1ª Pers.: - Castanho, já lhe disse que não tenho. Mas nós não vamos ficar aqui toda a manhã a discutir a cor do cinto. Como hoje estou muito bem-disposta, você leva o cinto, prova-o, se gostar, fica com ele, se não gostar, volta a traze-lo. Eu para a semana cá estarei novamente! Isto hoje é que está bom, pois toda a gente pode levar o artigo e prová-lo, se gostar, fica com ele, se não gostar, volta a traze-lo!

 

Entretanto, o vendedor da banha da cobra aproxima-se da vendedeira de roupa

 

2ª Pers.: - Olhe lá, minha senhora, eu e aqui a sua filha, estamos a entendermos muito bem.  Já deve estar a compreender que eu lhe estou a pedir-lhe a pequena...

1ª Pers.: - Oh seu "banha da cobra", você não tem vergonha nenhuma! Ora tire as suas "galfarras", ou mãos ou o que você tem, de cima da minha filha, pois ela é fazenda muito fina para você – fina demais!

3ª Pers.: - Mamã... mamãzinha...

1ª Pers.: - Agora até já sou, mamã. “Mamãzinha” (que cinismo)! Olha lá "querida filhinha", o que é que tu me queres...?!

3ª Pers.- É que eu, e este moço, apaixonámo-nos um pelo outro!

2ª Pers.: - A senhora está a compreender, não está? Foi um amor à primeira vista!

1ª Pers.: - Olhe lá, você pensa que eu quero um "banha da cobra" qualquer, para meu genro?!

2ª Pers.: - Mas compreenda... Eu estou profundamente apaixonado pela sua filha, e só desejo casar com ela!

3ª Pers.

Mamã, não sejas embirrante... faz a vontade à tua filhinha!

1ª Pers.: - Ai, querida filhinha, quando tu queres, és tão meiguinha que até me estás a “tocar” o coração!

3ª Pers.: - Mamã, é que eu estou apaixonada... Olha que eu ainda morro por amor... e mais vale teres uma filhinha viva, do que uma filha morta!

1ª Pers.: - Vocês hoje estão com uma sorte incrível! Apanham-me bem-disposta. Olhe lá, seu "banha da cobra", você vai ter muito juizinho nessa cabeça, e vai levar a minha filha. Prova-a, se gostar, fica com ela, se não gostar, volta a traze-la! Eu para a semana estarei cá novamente.

É comprar, é comprar, pois hoje é quase tudo de graça. Freguesas, é comprar!

 

Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

 

 

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