A Bola do Natal - (episódio verídico)
Carlos Leite Ribeiro
Ao aproximar do Natal, comecei a pedir,
por intercessão do Menino Jesus, ao
“meu” Pai Natal, que me desse uma bola
de futebol.
Ainda hoje estou surpreso por o “meu”
Pai Natal ter acedido ao meu celestial
pedido. Bom, na manhã do dia 25 daquele
ano já tão longínquo, encontrei a tão
pedida e desejada bola de futebol.
Fiquei encantado e logo a minha
imaginação começou a voar imaginando-me
desde logo um crak do mundo
futebolístico. Conseguia meter golos
imagináveis, tanto com remates
fulminantes como em cabeçada
miraculosas. O Pelé e o Eusébio, ainda
não conhecidos, de certeza que seriam
ultrapassados pelo meu virtuosismo. O
pior foi o “meu” Pai Natal me avisar
logo que o bola ficava guardada para
quando todos saíssemos para ver o
Sporting, eu a levar para no Campo
Grande dar uns “toques”. Que decepção
pois assim, não poderia mostrar aos meus
amigos toda a minha habilidade natural
no mundo futebolístico.
O tempo passou e um belo dia, estando de
férias escolares, aproveitando não estar
ninguém em casa, fui buscar a dita cuja
ao armário do guarda fatos
(guarda-roupa), e fui para
um jardim da casa de um amigo jogar
futebol. Este meu amigo ficou a
guarda-redes (goleiro), por acaso tio de
uma grande guarda-redes português, o
Damas. Mas voltando à minha excepcional
exibição futebolística, atirava a bola
de encontro a uma parede e rematava para
a baliza, que era formata por dois paus
espetados no chão. O meu amigo Zeca,
pedia-me a todo o momento:
- Carlinhos, não remates com muita força
e sempre rasteiro.
Mas eu estava empolgado com a minha
exibição. Mais uma vez atirei a bola
para a parede, ela ressaltou e eu, sem
deixar bater a bola no chão, com o meu
“famoso” pé esquerdo, rematei
fortíssimo. O guarda-redes nem a viu;
foi um remate digno do Roberto Carlos
nos seus tempos áureos.
Bom, foi um monumental golo – isso foi!
O pior é que a “estúpida” da bola só
parou de encontro a uma velha janela
(daquela com muitos vidros) da casa de
uma vizinha muito chata, estilhaçando-a
toda …
A D. Albertina chegou ao que restava da
janela e começo logo a barafustar e a
ameaçar que ia contar tudo a meu pai.
Que stress eu passei, para mais, a D.
Albertina, pelos vistos, não admirava
nada a minha habilidade (nata)
futebolística.
Quando ganhei coragem para ir para casa,
a D. Albertina estava a mandar vir
(discutir) com minha avó paterna. Até
tive pena da D. Albertina, uma senhora
muito pequenina e minha avó muito alta e
forte.
- A Senhora Albertina vá para sua casa,
que a janela será concertada. Por favor,
não me chateie mais que eu já estou a
ficar muito enervada.
A minha avó, com a ajuda de minhas tias,
lá conseguiram comprar uma janela nova.
E o Carlinhos, mais uma vez, safou-se de
os papás saberem que ele não era,
propriamente dito, um santinho…
(in – memórias de Carlos Leite Ribeiro)
Nota: esta bola teria um fim pouco
“digno”. Nas chamadas férias grandes
escolares, a malta da Estefânia e a
malta do Matadouro, faziam intermináveis
encontros futebolísticos na parada do
Liceu Camões, mesmo em frente onde
morava o nosso querido amigo e
engenheiro. Tito Olívio – mais tarde
transferiu-se para Faro. Conseguíamos
abrir a porta da Escola António Arroio e
daí passávamos à parada do Liceu.
Num desses desafios, que virava aos 10 e
terminava aos 20, eu ao cortar um
perigosa jogada dos gajos do Matadouro,
apliquei o meu “famoso” pé esquerdo e
rematei fortíssimo para onde estava
virado. Mais uma vez, a “estúpida” da
bola saiu direita a uma grande janela do
ginásio do Liceu. Para evitar confusões,
todos abandonamos rapidamente o
“estádio”. E a bola lá ficou …
Mas a caixa onde “religiosamente”
guardava a dita cuja, ficou anos dentro
do armário, para dar a ilusão a meus
pais que a bola continuava lá dentro.
Ao ler estes velhos apontamentos, não
pude deixar de rir e pensar no Caminha.
A Casa deste grande amigo, também tem as
janelas deste tipo, ou seja, com muitos
vidros. Ao ler estes apontamentos, tenho
a certeza que o Caminha pensou:
- “Ainda bem que não tinha cá em casa
nenhuma bola de futebol, pois senão,
aquele “Mané”, com a sua habilidade
“natural” para o futebol, me teria
partido as janelas !”